Sem cerimónia

Aqui no país vizinho, há já várias décadas que toda a gente se trata por tu, sobretudo nos centros urbanos. Os falantes de língua inglesa têm também o problema resolvido, porque não encontram forma de escapar ao «you» – e, se viverem nos Estados Unidos, tornam-se ainda mais informais, abolindo os Mr. e Mrs. e tratando-se invariavelmente pelo nome próprio que, em reuniões ou convenções profissionais, exibem em crachás presos nos casacos ou pendurados em fitas ao pescoço. Noutros países, o tratamento é mais cerimonioso (e até pretensioso, como na Alemanha ou na Bélgica, em que os cartões de visita revelam o grau académico antes do nome). Em todo o caso, venha donde vier, um ministro trata-se habitualmente com respeitinho – e falo disto porque Mário Lúcio Sousa, de quem publiquei recentemente o romance O Novíssimo Testamento, acaba de ser nomeado Ministro da Cultura de Cabo Verde. Tratamo-nos por tu desde que nos conhecemos e continuaremos a fazê-lo, mas lá que vai parecer estranho a algumas pessoas, isso vai. Espero que esta nova função não lhe retire o tempo e o prazer da escrita.

Comentários

  1. Fiquei contentíssima com a notícia, soube ontem! Sou fã do Mário Lúcio Sousa desde os tempos dos maravilhosos Simentera, admiro-o muito como músico, escritor e indivíduo, e estou certa de que dará um excelente ministro, com qualidades e uma sensibilidade que muita falta fazem aos modos de operação do meio político, posto que tenha os necessários apoio, meios e espaço de manobra. Uma óptima notícia! Fiquei muito feliz!

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  2. O tratamento na Alemanha é, em geral, menos formal do que em Portugal. Os títulos académicos vêm nos cartões de visita, sim, mas só tem título de Dr. quem fez um doutoramento e, não, qualquer licenciado. De resto, os títulos académicos não são usados pelos políticos, por exemplo. A Merkel é engenheira química e nunca ouvi falar dela como "sra. engenheira", é sempre e só Angela Merkel, quando muito, Frau Merkel.

    Também há mais tratamento por tu. Ninguém se lembraria aqui de tratar um parente por você, género: a tia quer vir?, ou, o menino já fez os trabalhos de casa? Entre pais e filhos, tios e sobrinhos, primas e primos, sogros e genros/noras, etc., o tratamento é por tu, o que nem sempre se verifica em Portugal.

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  3. Joao Tomas Castro e Melo29 de março de 2011 às 15:36

    E quem serão essas pessoas a quem vai parecer estranho esse tratamento? :-)) Devem ser aquelas que não são editores, e que nunca publicaram livros de autores que se tornaram ministros.

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  4. Pois é... Habituámo-nos muito a aparências. Felizmente que em Cabo Verde o ministro da cultura não perderá o seu estatuto se passear pela rua ou frequentar qualquer lugar público" nós tudo é bos ote " (somos apenas entes de carne e osso). Isto porque, no meu trabalho de indexar termos no Centro de Documentação, peguei num livro de crónicas (editora pequena e autor: Otilina Silva), se aparecesse para editar numa grande editora certamente seria corrida a sete pés, mas é uma delícia: bem escrito e qualquer de nós, que não seja demasiado convencido, gostará. Comparei com um outro "tijolo", de um rapaz que vende milhares e anda na guerra, armado em herói, com colete à prova de bala, protegido pelos aviões dos "Ocidentais", mimando uns rapazes que se dizem rebeldes, e senti nojo dos seus livros e das suas reportagens, comparando com o da tal Otilina ...

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