Benfica-Sporting
O poeta Fernando Pinto do Amaral usou uma vez uma expressão que me pareceu muito feliz, referindo-se a poetas que achava obviamente maiores mas não faziam parte das suas leituras mais queridas. Disse, simplesmente, que não os considerava da sua família. Percebi perfeitamente o que queria dizer com essa história do parentesco, porque também eu não posso deixar de concluir que tudo aquilo que até hoje escrevi em matéria de poesia descende mais de Eugénio de Andrade do que de Herberto Hélder e que, por muito que ache este último um poeta genial, o meu coração chocalha muito mais facilmente quando leio os poemas do primeiro. E, contudo, as pessoas vêem isto um pouco como um Benfica-Sporting, no qual evidentemente não se pode acarinhar ambas as equipas ao mesmo tempo: de um lado Andrade, do outro Hélder. No Brasil, também reparei que os «parentes» de Manoel Bandeira são distintos dos de Drummond de Andrade, como se não fosse possível gostar de ambos com o mesmo tipo de sentimento; e, num encontro em Espanha, descobri entre um grupo de pessoas adeptos de Lorca que não eram, claramente, da equipa de Machado. Quando era estudante, também me perguntavam frequentemente se preferia Eliot a Pound (ou vice versa). Será assim em todos os países?
Tive o enorme prazer de conhecer o grande bibliófilo José Mindlin, que visitei na sua casa em São Paulo e me pôs nas mãos dois exemplares de Os Lusíadas: uma com os piscos para a direita, outra com eles voltados para a esquerda. Ambos originais. Eu quase não respirava com receio de acordar de repente daquilo que me parecia um sonho. Com uma lucidez absolutamente espantosa, embora já não conseguisse ler, não passava sem leitura diária que lhe era proporcionada por pessoas que iam até sua casa com o objectivo de lhe ler em voz alta. Perguntei-lhe se era capaz de escolher um livro da sua imensa biblioteca, atribuir uma medalha de ouro. Ele respondeu-me com uma frase que nunca esqueci, movendo a cabeça lentamente para um lado e para o outro, como se se certificasse que ninguém nos ouvia e disse sussurrando:
ResponderEliminar- Não posso… sabe, os livros são muito ciumentos…
Essa história de José Mindlin é simplesmente famulosa! Obrigado por partilhar.
EliminarSou mais de Herberto, embora tabém goste de Andrade e não me irrite a possibilidade de ler os dois, em dias diferentes de mim.
Quanto a Manoel Bandeira e Drummond de Andrade, estou sempre indecisa entre os dois, fascinantes, diferentes e dialogantes.
E depois sou do sporting, pelo que estou um bocadinho infeliz hoje...
"as pessoas vêem isto um pouco como um Benfica-Sporting" - nem mais!
ResponderEliminarEu também estou triste, hoje...
Cara Maria do Rosário Pedreira:
ResponderEliminarO ser humano enorme que dava pelo nome de Fernando Assis Pacheco disse-me um dia, falando deste tipo de dicotomias:
- Sabe, isto faz-se por famílias e a minha não tem nada que ver com a do Vergílio Ferreira. Mas a verdade é que eu dava o indicador desta mão para ter escrito o "Para Sempre".
(Sabemos que o FAP escrevia à máquina com um só dedo! É verdade!)
Quer maior grandeza de espírito?
Cumprimentos
Luís Maia Varela
Aproveito para deixar a ligação para uma carta de Herberto a Eugénio de Andrade, que tem o seu interesse para o tema:
Eliminarhttp://arquivohistoricomadeira.blogspot.com/2009/03/blog-post_25.html
Frase fantástica, Luís Varela, essa do Assis Pacheco.
EliminarTambém somos dos "nossos" autores como de um país, embora se possa e se deva viajar.
Carta surpreendente...!
EliminarObrigado.
Grande Luís Varela! Um abraço do Zé Crispim Romão... Vejo que tu e a poesia continuam em grande. Deixo aqui esta nota pois não tenho outra forma de chegar a ti...
EliminarBenfica-Sporting, NÃO! SPORTING - benfica que isto não é a mesma coisa: Andrade não Herberto, nem Cesário é pessoa, nem AQUILINO é Gonçalo M. Tavares -uns são geniais, inovadores, sensíveis, inteligentes, fantásticos, outros... não são maus mas vão no rasto, no cheiro, sem SPORTING não haveria benficas...
ResponderEliminarFrancisco