O tempo do escritor

Sou vítima de stress desde que trabalhei num projecto que tinha prazo certo para ficar pronto e no qual nada podia ser adiado. Nessa altura, labutava até às tantas da manhã para deixar tudo pronto e vivia no pânico de me esquecer de alguma coisa – a ponto de, terminado o projecto, dar por mim a decorar sem querer todas as coisas que via escritas (mesmo que em toldos de pastelaria, carrinhas de lavandaria ou etiquetas de roupa). Nunca mais me curei nem consegui reaver a tranquilidade que me permitiria organizar racionalmente o tempo e tenho, por isso, inveja de quem consegue fazer um uso perfeito das horas que passa acordado. Miguel Real, por exemplo, é um ás na matéria: consegue ler tudo o que sai de literatura portuguesa, escrever dois livros por ano, redigir quinzenalmente uma crítica literária, criar textos teatrais, dar cursos de literatura, ser professor de Filosofia do Ensino Secundário, prefaciar e apresentar livros de outros autores (e escreve sempre à mão as primeiras versões). Um dia, perguntei à Filomena, sua mulher, se ele dormia – e ela respondeu-me que as oito horas necessárias a tanta actividade. Perante a minha surpresa, confidenciou-me, porém, que ele era capaz de ficar a escrever no parque de estacionamento do supermercado enquanto ela ia às compras e que não viam televisão nem iam ao cinema.  Mesmo assim, achei que é precisa uma grande organização mental para conseguir produzir tanta coisa de monta. Mas cada escritor tem, certamente, o seu tempo.

Comentários

  1. O ofício de escritor é uma ocupação permanente, mesmo a dormir, por vezes, se resolvem imbróglios narrativos. Todos os instantes servem para trabalhar. É preciso estar atento a toda essa volátil matéria que paira no ar. Mesmo na rua, ouvindo de raspão uma palavra, uma expressão, podem ser curiosos rastilhos para desenrolar os novelos da criação. O mesmo se aplica aos rostos daqueles que passam, os seus gestos, comportamentos. O mundo, perante o autor, é um enorme dicionário de onde vai extrair as suas preciosidades. Por isso não consigo deixar de ser escritor e de estar sempre a trabalhar. Voilá!

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    1. Sem dúvida, caro Anónimo (desconfio que seja o próprio MR...) assim é a vida de escritor!

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  2. E é, ele é extraordinário, desde que o conheço que não me refiz do espanto que é objecto de relato esta crónica. Ana Cristina Silva

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  3. É realmente espantoso, mas deixe-me dizer-lhe que os homens terão mais facilidades. A frase "ele era capaz de ficar a escrever no parque de estacionamento do supermercado enquanto ela ia às compras" é elucidativa. Mesmo tendo empregada em casa (permanente, ou não) a mulher tem sempre mais tarefas a cumprir. Ou está a imaginar um marido ir às compras para que a mulher escritora fique no carro a escrever? E quando chegam a casa, quem arruma as compras? E, mesmo que a empregada deixe o jantar feito, quem põe a mesa? E quem vai arrumar a cozinha, para que o marido, embora não veja televisão, possa ir para o seu escritório escrever?

    'Tá a ver?

    E se há filhos...

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  4. Uma vez mais um tema interessante porque nos faz pensar e olhar para nós mesmos.
    E ajuda a tirar conclusões!
    Desde há muitos anos que me habituei a fazer acompanhar de um livrinho de bolso onde anoto as minhas observações, o que sinto, idéias e os acontecimentos... pessoas lugares...

    Estas notas sempre me ajudaram muito a nível profissional e nas coisas que fui escrevendo, fossem relatórios ou artigos em revistas e jornais... hoje constituem uma memória.
    Será que isso é um passo importante para ser um escritor?

    Estas idéias que recolho e o bocadinho que aqui venho são cada vez mais importantes no meu dia-a-dia, e, os celebro com todos que partilham este espaço, a quem agradeço profundamente a ajuda que me dão, sem o imaginarem ou terem essa percepção!
    Bem hajam!

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  5. Conheço algumas pessoas que não sendo escritores, têm tempo para tudo como o Miguel Real parece ter. O segredo está em aproveitar todo o tempo correspondente ao horário de trabalho e não se deixar dispersar. Para isso é necessário saber lidar com os "desperdiçadores de tempo", determinar um ou dois blocos de tempo por dia para realizar / responder a telefonemas e o mesmo para lidar com o e-mail. Muitos vezes é necessário dizer não a interrupções , a conversa fiada, a por exemplo não querer "ir a todas" ou estar em cima de todos os assuntos.
    Gerir melhor o tempo é uma questão de método e disciplina,mas dá muito trabalho no início, não é fácil e exige muita perseverança.
    Se cada um de nós continuar a fazer as coisas como faz habitualmente...não podemos esperar resultados diferentes nesta matéria de gerir o nosso tempo.

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  6. O 1.º Anónimo volta à carga, que não é o meu querido amigo MR, para juntar mais umas questões: como autor, além de bastante disciplinado, tenho as minhas tarefas domésticas, das quais não me abstenho minimamente, seja ir às compras, arrumar as mercearias ou, inclusivamente, confeccionar as refeições, lavar a loiça e por aí fora. Mas, tal como Agatha Christie, que resolvia muitos dos seus crimes a lavar a loiça, também eu aprecio esses momentos para divagar e criar. Quando umas horas de trabalho literário me satisfazem e realizam, não deixo de preparar um belo repasto para partilhar essa alegria com a família. Por isso, quando digo que estou sempre a trabalhar, alguns torcem o nariz à minha presunção. Sei eu e sabem as minhas personagens... e isso é quanto basta. C'est ça!

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  7. Confesso que não tenho grandes problemas de tempo e um dos motivos é não usar carro e andar de transportes, onde leio imenso. Não tenho empregada e faço tudo em casa onde vivo com um filho. Passar a ferro é uma ocupação cujo tempo gasto pode ser usado em simultâneo: reflectir, ir tomando apontamentos e ver filmes, embora vá todas as semanas ao cinema. Tenho rotinas semanais boas: fazer caminhadas (que também uso para pensar), ver os jogos do meu filho todos os santos domingos, frequentar um ginásio, pôr a conversa em dia com os amigos.

    Na maioria das vezes há uma enorme indisciplina em cada pessoa que faz com que as 24 horas do dia encolham. Nos meus dias cabe tudo: a agenda ajuda-me a organizar e a prever. Os meus fins-de-semana acabam também por ser ‘maiores’ porque me levanto cedo e não durmo manhãs inteiras: são maiores e vejo coisas que escapam a grande parte das pessoas pois as diferentes luzes do dia são inspiradoras em diferentes medidas. Claro que há momentos de stress mas como a maior parte das coisas está controlada, acabam por passar. Uma das minhas actividades ‘sazonais’ é altamente criadora desses momentos e nessas alturas ando com um gravador para gravar tudo que me lembre e não perder tempo à procura duma caneta.
    Para além de escrever todos os dias, uma outra rotina (quase) diária igualmente muito satisfatória é ler este blog!

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  8. Pois eu, que não escritor, nunca tomo nota das ideias, Eça é que é Eça...

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  9. Ah Ahhhhh!! Afinal não é só comigo... Esta angústia e solidariedade com o Proust...Também comigo o relógio se enche de horas e vou, furiosamente, mastigando palavras a eito... Conheci o Miguel Real num encontro de jovens escritores. Tinha chegado de Barcelona nesse dia, após ter recebido um prémio de crítica, chegou ao aeroporto, dirigiu-se a Sintra, jantou, fez a palestra demonstrando conhecer todas as obras a concurso e, no dia seguinte, tinha uma reunião no JL...Fantástico!

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  10. Disciplina, disciplina, disciplina. Organização, organização, organização. É só isto...

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  11. Eu também tenho sentimentos de culpa pelo que não escrevo. Pelo que não leio. Tenho. E sempre que tenho lembro-me do meu avô. “O tempo é uma lâmina, não permitas que seja a tua cruz”. Lá vou tentando. Porque eu sou mas não nasci escritor. Nem leitor.

    Antes de saber o que era uma palavra esdrúxula ou um eufemismo, já surripiava uns beijos à minha vizinha, deitava-me na tijoleira fria frente ao balcão para espreitar as cuecas às clientes da minha mãe, tomava banho no tanque, arranhava-me nas silvas e andava de bicicleta até anoitecer.

    Agora, um adulto depois, continuo a ter essa estranha necessidade de ar. De amigos, de beber, às vezes muito, de sol, de olhar o Atlântico como se sofresse, de comer sentado, de ensinar a minha enteada a fazer contas de multiplicar e ir ao cinema compulsivamente como se fosse acabar a película. E, ele há momentos, em que tenho mesmo uma absoluta e cada vez mais incompreendida vontade de não fazer nada. Para tudo isto, e isto é apenas o que me lembro, é preciso tempo. Muito.

    Considero, admiro, invejo, quem consegue viver, ler e escrever em doses idênticas. É o meu Dragão. Até lá, vou levando a vida - também ela, e salvo prova em contrário, literatura. Se não publicar os trinta livros que tenho em mente, que se foda. É porque tinha que ser assim.

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