De pequenino se torce o pepino
Nos dias que correm, os livros infantis multiplicam-se e vendem-se às pazadas. Acredito, porém, que muitas vezes os pais, diante da birra da criança no hipermercado, levem a primeira coisa a que deitam a mão, colorida o bastante e, de preferência, a preço leve. Uma pena, claro, porque há livros bons e livros muito bons, livros maus e livros muito maus. Tenho visto coisas de bradar aos céus que nem descortino porque são publicadas: histórias sem tom nem som, ilustrações de fugir, erros de ortografia graves, traduções tremendas, palavras tão fora de moda que nem os mais velhos já as usam. Pessoa dizia que um bom livro para crianças tem de ser lido por qualquer adulto com prazer. Claro que no tempo dele (e até no meu tempo de criança) os livros infantis não tinham nada que ver com os que hoje os supermercados despacham às dúzias; ainda assim, devo dizer que muitos dos livros que fizeram as delícias dos meus sobrinhos eram, para mim, uma grande xaropada (incluindo os que eu própria escrevi) e nem por isso deixaram de ser sucessos de vendas e de tornar alguns dos seus autores autênticos fenómenos de popularidade. Mas, tirando os livros da moda que os filmes e programas de animação fabricam – e que todas as crianças querem ter e, na maior parte das vezes, têm –, a verdade é que, com ou sem birra, seria proveitoso que os pais lessem os textos e olhassem para as ilustrações antes de chegar à caixa registadora, para saberem o que estão a dar aos filhos, porque, como dizia a minha avó, de pequenino se torce o pepino – e era bom que ele torcesse para o lado certo...
Aproveito a deixa para sugerir alguns livros infantis, que os meus filhos gostam e eu também: os livros do Elmer, os da Laura, os da Tita... São três colecções bem diferentes, mas todas com ilustrações bonitas, textos bem escritos e boas traduções. Pois, é certo, são traduções. E por mais que lhes leve livros de autores portugueses, nunca fazem tanto sucesso...
ResponderEliminarHá livros também deliciosos, como os da Planeta Tangerina, da OQO, ou da Kalandraka...
Há ainda um livro que todos adoramos lá em casa: chama-se «À procura do ó-ó perdido». Começou por ser uma peça de teatro e foi reeditado há pouco tempo. Muito simples e muito ternurento. Óptimo para ler (ou ouvir) antes de adormecer.
Os meus filhos adoram livros. E a prova disso é que se «perdem» nas livrarias horas a fio, se os deixarmos. Mas, ainda assim, nem sempre conseguimos fazê-los optar por uma boa sessão de leitura em vez da televisão. É muito difícil competir com tanta acção e imagens em movimento...
E o que dizer de algumas escolhas do PNL?
Boa-tarde
ResponderEliminarAlém dos problemas reais aqui listados neste post, penso que há um outro que pouca gente aborda, talvez para não ficar mal visto.
Muitas vezes, as ilustrações, por muito boas e belas que possam parecer aos adultos (e tantas vezes são premiadas), não cativam de maneira nenhuma os mais pequenos que são, afinal de contas, o público-alvo. Acho que alguns ilustradores e os seus editores deveriam ter mais atenção aos gostos das crianças. As crianças podem (e devem) ser ensinadas a apreciar estilos alternativos de ilustrações, mas há vão com calma :)
Rui Azeredo
Concordo quando diz que os livros infantis se vendem às pazadas, mas a utilização efectiva do livro fica-se por pazadas de pás de praia, das pequenas, precisamente daquelas com que os miúdos brincam.
ResponderEliminarPara além de consumidora sou ofertante de livros em larga escala, com maior incidência para os miúdos e, infelizmente, constato que muitos não são lidos, alinhados que ficam na prateleira e tendo protagonismos reduzidíssimos quando os pais referem que eles, os filhos, até têm muitos livros e apontam para a estante, não se apercebendo que o empurrãozinho tem que ser deles, nosso, para que a criancinha cedo se vicie. Poucos são os que contam estórias ao adormecer e menos ainda os que se preocupam em escolhê-las.
Porém, tenho um exemplo completamente fora de série – quase diria, fora de colecção – numa pessoa conhecida, mãe de dois filhos, que lê os livros de fio a pavio nas livrarias antes de os comprar, franzindo o sobrolho às imagens e às cores, apontando o dedo a expressões em desuso, a erros, a gralhas (são coisas diferentes!), fazendo caretas a traduções e revisões mal esgalhadas, enfim, dando cartas de tal forma que podia fazer formação de Pais na matéria, que tanta falta faz.
Os livros infantis, para mim, são os mais difíceis de comprar: o leitor ainda não está feito, não tem, por exemplo, o discernimento de saber que o pode trocar por outro, se aquele não for o ‘seu género’. Todo o cuidado é pouco no início seja do que for, mais ainda na construção dum leitor, pois podemos ter que lidar com defeitos de fabrico a vida inteira.
O que prepondera no consumo de literatura, de cultura:
ResponderEliminarConjuntura difícil:
Diminuição do poder de compra induz a redução nas compras ou até anulação; uma faixa alargada de consumidores confina-se à TV;
Mitos à volta da leitura:
Os jovens lêem até ao início do namoro. Mais tarde, talvez voltem a ler. A inércia pode impedir o retorno.
A imagem e a velocidade imposta ao quotidiano:
A primazia dada à imagem faz desaparecer ou enfraquecer os hábitos (Se os houver.) de leitura
Recuo do Estado e da Administração Local no apoio à cultura:
As primeiras vítimas são os membros da faixa etária de idade igual ou superior a 60 anos, com fracos recursos, que beneficiavam da actividade promovida pelas autarquias.
Afinal, publica-se tanto!
Compreendo mal o fenómeno Harry Potter.
O frenesim na compra dos livros.
Foram lidos?
ou
Aguardaram o filme?
Estranho a proliferação de animais de estimação, de cães.
A despesa mensal que exigem é equivalente a quanto? -- 2 ou 3 livros (A €15 cada)?
A promoção social que promovem é assim tão relevante?
Um livro não suja um passeio, a relva de jardim; um cão não cita Proust, Pessoa. Ladra. Vai à caça. É abandonado no Verão.
Há quem não saiba que foi um cão o primeiro a reconhecer Ulisses no regresso a casa.
Logo a seguir, são capazes de -- Escarnecendo -- desafiar «Que importância tem isso?»
Bom fim de semana, Rosário
(Ah. Claro que a qualidade do que se publica é importante.)
Sublinho por baixo e acrescento a minha experiência. Fico triste quando me encontro numa livraria e vejo que grande parte das pessoas compram livros infantis para oferecer, regendo-se pela capa ou pelo simples folhear dos mesmos. No início pensei que talvez se tratasse de um problema meu, e decidi folhear apenas. Mas verifiquei que, em muitos casos, continuava sem perceber se o livro valia ou não a pena. De modo que continuei a escolhê-los à minha maneira. Sou mãe de dois filhos (8 e 6) e coleccionadora de livros infantis. Dizem-me aqueles que me conhecem, que a minha prateleira de livros é melhor do que qualquer livraria. E perguntam-me muitas vezes onde arranjo estes livros tão espectaculares. Respondo que a minha prateleira ainda deixa muito a desejar e que os encontro na mais banal das livrarias. E garanto que não há qualquer mistério associado. A única razão pela qual assim acontece, é que me dedico francamente a escolhê-los antes de os comprar. E não basta entrar na livraria, tirar da prateleira, ler a história, olhar as imagens, pagar e levar para casa. Já experimentei e não deu o mesmo resultado. Na realidade, quando vou a uma livraria, tenho que ter tempo para perder. Procuro incessantemente nas prateleiras e depois de escolhidos meia dúzia de exemplares, sento-me no chão a lê-los. E começo pelo nome do autor e ilustrador. Abro-os e leio a história pela 1ª vez. Depois, volto ao início para olhar as imagens. E finalmente tenho uma opinião sobre o livro. Raramente compro um exemplar da 1ª vez que o vejo. A menos que se trate de qualquer coisa que pressinta ser uma relíquia prestes a esgotar. Na próxima visita à livraria, já sei o que comprar. Levo o dinheirinho contado, tiro-o da prateleira, pago e venho para casa de sorriso rasgado. O livro, que passou pelo 1º crivo, será nessa noite confrontado com a melhor equipa de juízos que conheço: os meus filhos. E agora sim, a história já está mais que na minha cabeça, e posso começar a contá-la com conhecimento. Reconhecendo as diferentes personagens posso dar-lhes vozes distintas; sabendo o ambiente da acção consigo levá-los a vivê-la com intensidade; conhecendo o final da história dou-lhe o "ênfase" que considero mais adequado. No final, rimos os 3 à vara larga, ou choramos, dependendo da história. E muito compenetradamente a minha filha de 6 anos, vai colocá-lo na prateleira onde estão arrumados por editora. E assim, quando pergunto aos meus filhos, "O que leveriam de casa se numa situação de crise tivessem que fugir", eles respondem em uníssono: "os livros, mãe!".
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