Passar a palavra

Quando era estudante na Faculdade de Letras, estava convencida de que os meus professores tinham lido tudo o que eu tinha lido e, obviamente, muito mais. O «muito mais» era, de resto, verdade, mas nem sempre as suas leituras e as minhas, afinal, coincidiam. Aquilo que se vive e publica em determinada época marca quase sempre as leituras de uma geração – e a verdade é que eu já não li muitos dos livros que leram os que têm mais quinze anos do que eu, mas também não lerei muitas das obras que fazem hoje as delícias dos meus jovens autores. E, porém, há que confessar que foi por publicar jovens autores que me encontrei com dois livros excepcionais que, por razões que agora não importa aprofundar, me tinham até então escapado. Um deles é o delicioso Bartleby, o Escrivão, de Herman Melville, de que João Tordo me falou sempre entusiasticamente e comprei na fantástica colecção reunida por Borges e agora publicada pela Presença. O outro (que, de tanto se falar nele, teria acabado por vir parar-me à mão) é As Velas Ardem até ao Fim, de Sandór Márai, uma pequena maravilha de que tomei conhecimento há uns anos, acompanhando o José Luís Peixoto a uma comunidade de leitores na Biblioteca de Almada, onde ele falaria sobre o seu Morreste-me; Maria João Seixas, que então animava essa comunidade, indicou no fim da sessão aos participantes que a próxima leitura seria a novela do escritor húngaro, e o José Mário Silva, que também estava presente, fez o favor de partilhar comigo as suas impressões muito positivas sobre a obra. Ambos são literatura a não perder e agradeço aos mais novos que mas tenham aconselhado tão vivamente. Agora, passo a palavra.

Comentários

  1. Cruzei-me, num acaso, com "As Velas Ardem até ao Fim"... Um feliz acaso... Um livro que em tão poucas páginas guarda tanto...

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  2. Tudo o que Márai escreveu (e eu já li) é assombroso! "As velas.." é especialmente assombroso, li-o numa viagem de avião lisboa-paris, faltavam 20 páginas quando desembarquei, fui buscar a minha mochila ao tapete da bagagem e sentei-me na primeira cadeira que vi para o acabar, paris podia esperar.

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    1. Muito bonito, este comentário. Paris podia esperar. Sim, "As Velas (...)" é admirável. Curiosamente, senti essas últimas vinte páginas (mais coisa menos coisa) como o menos bom. Tem o tal moralismo que na literatura deve ser mais contido. Li-o muito devagar, como tem de ser. Marcou-me, acima de tudo, esteticamente. E isto não é tique:). Devoro o ritmo e a estética das frases.

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  3. Lemos (e conversámos sobre) As Velas... na LERDOCELER e, assim, descobri Marai cuja vida é interessante e significativa.

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  4. Outro livro maravilhoso de Melville é o Typee, que creio não estar editado em Portugal. Baseia-se na sua experiência como cativo numa das ilhas Marquesas e é um relato tão incrível que faz lembrar a Peregrinação.

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  5. Coincidência engraçada: ainda há pouco, a Ana Cristina Leonardo me levou a ler o "Velas". E ainda bem.
    Quanto ao famoso escrivão, poderia ter apanhado a coisa em Inglês por aí. Sempre é de graça e evita as traduções esquisitas a que o Melville tem sido sujeito.

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  6. São dois livros maravilhosos!
    Aproveito e deixo mais um que li recentemente: "O segredo de Joe Gould", Joseph Mitchell.

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    1. Agradeço a excelente sugestão!
      Em troca, recomendo-lhe o extraordinário "A Louca da Casa" de Rosa Montero. Boas leituras em 2011.
      Cristina Carvalho

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  7. Confesso que a lista dos livros a ler, vai crescendo de cada vez que venho aqui. Já li alguns dos que aqui tem recomendado no seu blogue, mas o tempo nunca me chegará para os ler todos, pois todos os dias nos lança novos desafios de leitura.
    Pelos vistos tenho de colocar "As velas ardem até ao fim" no topo da lista para 2011.
    Seguir o seu blogue ajuda qualquer pessoa a poupar tempo numa livraria ou numa biblioteca. Obrigado!

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  8. Gostei muito de As Velas Ardem até ao Fim.
    Talvez experimente também ler a primeira sugestão :)

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  9. Duas horas de uma viagem de comboio chegaram para ler "a mulher certa". Quando cheguei ao destino ofereci o livro a um amigo, ainda estava "como novo".
    ~CC~

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