O génio simples

Nesta época em que vivemos, parece que já está tudo inventado – e, em matéria de literatura, é de facto muito difícil fazer bom e diferente. O segredo está muitas vezes em «baralhar e dar de novo», uma vez que se trabalha com um material abstracto chamado linguagem que, graças a Deus, não é estanque e aceita constantes combinações. Mas, se muitos críticos dão primazia à linguagem em detrimento da história para definir o génio literário, a verdade é que houve muitos génios da literatura que vingaram com um pelo menos aparente despojamento linguístico. Os escritores norte-americanos, por exemplo, não são lá muito dados a rendas e franzidos, optando, frequentemente, por uma simplicidade quase comovente na escolha das palavras e na composição das frases e apostando quase tudo na estrutura e na temática. É, pois, a todos os títulos, admirável essa novela que todos os jovens deviam ler – e muitos lêem – chamada O Velho e o Mar, que vive com apenas duas personagens (e uma delas não fala) no mesmo cenário, do princípio ao fim da narrativa. Se, por mero acaso, nunca leu a pequena obra-prima do génio Ernest Hemingway, guarde umas duas ou três horas da sua vida para depois nunca mais se esquecer dela.

Comentários

  1. Acho muito engraçada a forma como remexe nas minhas memórias. Já não é a primeira vez e espero que não seja a última. Algures no fim do secundário um professor de inglês mandou-nos ler The old man and the sea. Nunca tinha ouvido falar. Rapidamente me vi a braços com parágrafos inteiros dos quais não percebia nada: a confusão de anzóis, de velas rasgadas a exigir costura, mastros e arpões, já em português teriam constituído um desafio, mas em inglês eram um grande imbróglio. Foi então que um colega desencantou uma edição em português do Brasil e eu pude acompanhar a desdita de Santiago. Finalmente lá passei para a versão em inglês, edição de bolso toda escrevinhada por mim a lápis, agora já meia apagada, com cábulas que me indicavam a tradução de muitas palavras.
    Esta é uma das muitas belezas da leitura: a lembrança de cada livro devolve-nos não só o seu próprio enredo, como partes do enredo da nossa própria vida.

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    1. E sensação que tivemos qdo o lemos.
      A serenidade, a cadência.
      Lembro-me de ter lido um livro de muitas paginas qdo era adolescente deitada de bruços na cama em frente ao mar e ter parado cerca de 12h depois no fim e por ter que ir imperiosamente onde estão a pensar, ter que rolar na cama porque a coluna se recusava a erguer-me devido a posição viciosa.

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  2. No dia em que fiz 14 anos a minha mãe decidiu que eu já tinha idade para ler os livros da estante da sala. Muitos deles da colecção dois mundos. Entrou no meu quarto antes de me deitar e deixou-me uma meia dizia de livros em cima da cómoda. Um deles era o "Velho e o Mar". Outro era "Terra Bendita" de Pearl Buck. Os restante não me recordo. Mas esses, ficaram comigo o resto da vida.

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  3. Devem ter dito o mesmo de Saramago: nada de novo.

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  4. Na minha humilde opinião, acho que o "O Velho e o mar" é uma pequena grande obra prima. Um daqueles livros de leitura obrigatória, que nos ajuda também a perceber o que é importante na vida.
    Recordo também com saudade um livro chamado, "Há sempre um amanhã", dessa escritora americana profícua e brilhante também, igualmente vencedora do Nobel tal como o Hemingway, a grande Pearl S. Buck.
    Um excelente 2011 para a MRP e todos os que passam por este blogue.

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  5. Eu sou admiradora da literatura norte-americana, nunca me dei muito bem com "rendas e franzidos". Dou primazia ao enredo, sim, e ao "despojamento linguístico".

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  6. É também um dos meus favoritos, lido e relido vezes sem conta, graças `a tradução de Jorge de Sena. Bons tempos aqueles em que tinha o privilégio de o leccionar, por ser então obra obrigatória no 9º ano. Da mesma época, destaco A um deus desconhecido, de John Steinbeck.

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  7. Com essas características e muito mais susceptível de ser apreciado pelos jovens: O LOBO DO MAR, de Jack London. Havia uma edição portuguesa mas julgo que está esgotada há anos.

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    1. As reacções dos jovens, após a leitura, foram quase sempre muito boas. Quando, estudado O Velho e o Mar, passava o filme, preferiam o livro ao filme. Nunca me passaria pela cabeça dar a ler A um deus desconhecido a jovens de 9º ano, nem a obra alguma vez fez parte das leituras possíveis. Referi o livro porque me marcou muito e é menos conhecido.

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  8. Não sei se sabem, mas \"O velho e o mar\" era um só capítulo de um romance que Hemingway estava a escrever e que, creio, nunca publicou completo. Quando o acabou de escrever, telefonou ao editor e disse qualquer coisa como \"acabei de escrever o texto pelo qual serei lembrado\" (ou era \"o melhor que alguma vez escrevi?\"). Confesso que não sei se foi o editor ou o próprio H. a decidir que este texto teria publicação autónoma. Mas a história aqui fica.

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  9. em minha casa (casa dos meus pais), havia e há poucos livros, nunca foi uma actividade grata dos meus pais, mas também por questão económica. mas ofereciam um livro pelos anos ou natal. lembro do «Diário de Anne Frank» como o mais significativo.

    é como adulta que tenho feito outras descobertas, outras leituras. e »O velho e o Mar» foi definitivamente um livro que me marcou. infelizmente, apesar de ter muitos livros em casa e de ler quando posso, as minhas filhas revelam desinteresse pelos livros, pela leitura. como gostaria que elas quisessem ler este e outros livros!

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