Aprender línguas

Quando era professora de Português nos anos 80, zangava-me muito quando os alunos absorviam como esponjas e utilizavam até à náusea palavras e expressões brasileiras – em vez das equivalentes portuguesas – por passarem demasiadas horas a ver telenovelas. Claro que muitas destas expressões eram tão deliciosas e certeiras que era difícil recusá-las («mentira tem perna curta» é obviamente mais redondo e eficaz do que «mais depressa se apanha um mentiroso que um coxo»); mas eu, que passara a infância a ler o Tio Patinhas em traduções feitas no Brasil, com balõezinhos cheios de «grama» (relva), «bala» (rebuçado), «Oba!» e «bacana», nem por isso passara a utilizá-las no meu discurso (suponho que era por não as ouvir, e que isso muda tudo). Preferia, por isso, que os alunos lessem quadradinhos a que vissem telenovelas, até porque a banda desenhada é um excelente veículo de aprendizagem do mundo, ao contrário do que muita gente pensa e diz. Uma vez, em conversa com o Fernando Pinto do Amaral, hoje a dirigir o Plano Nacional de Leitura, chegámos inclusivamente à conclusão de que muito do francês que sabíamos o aprendêramos nos livros maravilhosos do Tintin, do Astérix e de muitas outras BD que, ao tempo, não estavam traduzidas (ou talvez nós nos recusássemos a esperar pela tradução). É pena que hoje, apesar das reedições destes clássicos, muita gente não faça a mais pequena ideia da sua profundidade e ache que são apenas livros para meninos preguiçosos que não gostam de ler...

Comentários

  1. E que dizer das séries de animação dobradas, com aquelas vozes estridentes e esganiçadas?
    No meu tempo, como dizia o outro, era aficionado do Bugs Bunny e outros que tais e foi assim que fui aprendendo inglês, com palavras que me despertavam a curiosidade. O mesmo aconteceu com as histórias aos quadradinhos, sejam os gibis vindo do Brasil, sejam as aventuras de Tintin ou de Astérix. Ao ler esses livros a minha imaginação voava, e motivado por isso, escrevia, desenhava. A BD é uma das melhores iniciações à literatura, que o digam os franceses, já para não falar da aprendizagem estética que isso possibilita. Mas isso são outros quinhentos. Boas Festas e esperança num mundo melhor.

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  2. Este post veio mesmo a calhar. Também eu passei a minha infância a ler o Tio Patinhas :)

    "até porque a banda desenhada é um excelente veículo de aprendizagem do mundo, ao contrário do que muita gente pensa e diz."

    Infelizmente, também passei a infância a ouvir coisas do género: para que lês essas porcarias? Não aprendes nada com isso. Devias ler coisas de jeito, livros a sério :(

    Não me deixei abalar. Na juventude, passei a ler tudo o que havia do Tintin e do Astérix :)

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  3. Certeiríssima observação, Maria do Rosário!!!!!!!!!!!
    Assino por baixo, substituindo o "Tio Patinhas" pelas revistas de super-heróis (DC e Marvel, que vinham do Brasil em edições a preto e branco). Com o "Tintin", a "Jacto" (salvo erro) támbém e sempre ao mesmo tempo que lia muitos outros livros, de prosa densa ou menos densa. E lia as legendas na televisão e no cinema a ouvir os actores a falar no original. Sem nunca deixar de ler livros.

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    1. O entusiasmo pôs um acento a mais no "também", que corrijo por este meio :-(

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  4. sei que nestas horas extraordinárias consigo, este ano fui aprendendo uma outra língua.

    (feliz natal)

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  5. Nunca esquecer os comics da marvel de hoje em dia que podem ajudar a introduzir alguns assuntos sérios na mente das crianças.

    As publicações Civil War, Secret Invasion e Siege tratam de temas tão diversos como o 9/11, terrorismo, racismo, xenofobia, Jihad, guerras santas, O Patriot Act dos Estados Unidos, o poder dos media, o CNN effect... enfim, o tema é tão bem construído e tão bem explicado que se trata de uma perfeita metáfora do mundo.

    O problema é explicar a "adultos" que o Iron Man é mais do que um homem numa lata de sardinhas...

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  6. Engraçado, comigo foi o contrário. Esconderam-me os livros na minha língua quando aqui cheguei e substituíram-mos por outros em Português. Não valeu de muito e pouco depois eu falava quatro línguas e tornei-me nativa nem da língua em que nasci, nem da língua em que cresci. Engraçado...

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  7. Maria do Rosário, estou de acordo consigo. Também eu li - furiosamente - os patinhas, depois passei para os tintin's e para o axterix . Adorei ler os livros do Emílio Salgari sandokans e corsários negros).
    Li muito nas férias grandes -- não tinha livros em casa, nem dinheiro para os comprar; ia até à biblioteca pública do Marquês de Pombal, extensão da Biblioteca do Porto. Li muito na Bertrand, na rua de Santo António (hoje, 31 de Janeiro) -- chegava, pegava num livro, lia página após página, fixava onde ficara no dia anterior, retomava no dia seguinte.
    Por essa altura teria uns 13 ou 14 anos. Uma tarde, ouvi dois empregados a comentar a minha presença silenciosa, achando graça ao meu vício da leitura. Mal me apanhei a trabalhar, desforrei-me -- comprei, compro muitos livros, quase sempre de autores portugueses. E transmiti esse gosto às minhas filhas.
    Um bom Natal para si -- e obrigado pelos seus posts.

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  8. Bem comigo aconteceu o contrario sou fã de ficção cientifica e li todos os livros de Philip K. Dick em português de Portugal, que em um primeiro momento pareceu estranho. Mas logo me habituei, e considero que foi um ganho ter lido esses e outros autores em uma coleção que vinha de Portugal. Sou apaixonado pela poesia portuguesa. O que não me impede de também ser apaixonado pelo lirismo de Vinicius de Moraes.

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  9. Que bom haver tantas pessoas que compreendem a importância da banda desenhada!

    Ainda ontem terminei Persepolis, e o que aprendi em termos de história e de valores não tem preço. A banda desenhada ensina-nos história, educa-nos o sentido estético e, quando lida no original, abre-nos ainda as portas para uma nova língua.

    É cada vez, um dos meus géneros de eleição.

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  10. Que bom haver tantas pessoas que compreendem a importância da banda desenhada!

    Ainda ontem terminei Persepolis, e o que aprendi em termos de história e de valores não tem preço. A banda desenhada ensina-nos história, educa-nos o sentido estético e, quando lida no original, abre-nos ainda as portas para uma nova língua.

    É, cada vez mais, um dos meus géneros de eleição.

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  11. Se os pais e mães de filhos adolescentes lessem a banda desenhada Zits talvez aprendessem alguma coisa, talvez passassem a conhecer melhor esses extraterrestres a quem chamam filhos e a quem dão cama, comida e roupa lavada, talvez até se rissem deles próprios, talvez não se sentissem tão sozinhos e, garantidamente, ficavam muito bem-dispostos!

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