Sem palavras
A poesia é, quanto a mim, muito mais do que as palavras que contém. Se quisesse ser apressada – e agora dá-me jeito sê-lo – diria que, comparada com a prosa, a poesia diz normalmente mais com menos. Claro que nem toda a poesia é assim e nem toda a prosa é assado, mas há uma cadência e uma musicalidade na poesia que, uma vez por outra, quase nos dispensam de ler ou ouvir as palavras que se deitam nos seus versos. Pode parecer estranho, bem sei, mas refiro-me a uma experiência única que vivi em Liège, num festival de poesia, na companhia do poeta José Tolentino de Mendonça (tenho, por isso, testemunhas). Estávamos já um bocado entediados com tanto discurso (era no tempo da guerra na Bósnia e toda a gente politizara as suas intervenções) e só nos apetecia sair do auditório e ir dar uma vista de olhos às livrarias (o conselheiro cultural, contudo, achou que não devíamos). Eis se não quando sobe ao palco um poeta da Eritreia – alto, magro, bonito, com modos de bailarino e gestos largos – e começa a ler um dos seus longos poemas. Mesmo sem percebermos uma palavra do que estava a dizer, o espectáculo foi tão mágico e electrizante que sentimos que o essencial daquele poema tinha passado para nós e para todos os que o ouviam. O feitiço da poesia na voz de um feiticeiro africano. Nas sessões de lançamento de romances, quando alguém se lembra de ler um capítulo em voz alta, quase sempre o público desliga ao fim de uns minutos. Porque será?
quem escreve
ResponderEliminarpoesia
sabe porquê
ResponderEliminar... e qual o nome do poeta da Eritreia?
obrigada
Desculpe, vasculhei tudo e não encontro o nome. Ainda guardo a lista dos participantes, mas não encontro nenhum poeta da Eritreia, suponho que tenha ido substituir alguém à última hora...
Eliminarohhhhhhhhhhh desculpe a trabalheira e o transtorno que lhe causei .... obrigada, de qualquer maneira ... é como se mo tivesse dado ....
Eliminar"há uma cadência e uma musicalidade na poesia que, uma vez por outra, quase nos dispensam de ler ou ouvir as palavras que se deitam nos seus versos." Isto é poesia e é prosa.
ResponderEliminarMRP,
ResponderEliminarcompreendo o sentido do seu post e percebo que seja tentador pensar assim mas ritmo, rima, assonância, etc (que juntos contribuem para o que Eliot chamava o som do poema), a música do poema, são apenas metade(?) da coisa...
Não é a mesma coisa escutar uma música israelita ou romena ou marroquina ("A Music In A Foreign Language", como cantou Lloyd Cole), ou poder participar da lógica e do sentido do texto.
Por mais que entenda o sentido do seu post (escutar uma mulher polaca a ler um poema, por exemplo pode ser encantador), mas acho forte demais dizer que "dispensam" as palavras.
Um poema sem o seu assunto é uma experiência incompleta. Confesse lá que estava mortinha por tentar descodificar as palavras (de possível raiz latina), que o rapaz estava a dizer? Confesse que tentou pelo menos obter a tradução do título?
Abrç, J
Confesso que não fiquei curiosa sobre as palavras, até porque tive medo de que me desiludissem. Mas tem razão, João. A experiência assim é incompleta, daí eu ter dito "quase" em relação ao "dispensar".
EliminarA propósito, Maria do Rosário: Já leu O Arado, do António Manuel Pires Cabral, que acaba de receber o Pen Poesia? Não é africano, é transmontano, mas é avassalador.
ResponderEliminarAinda não, mas está na calha, juro.
EliminarDois poetas, portanto, encantados por «palavras» dispensadas e deitadas nos versos de um poeta bom declamador.
ResponderEliminarPara além das palavras, há imagens e emoções tão ricas na poesia (muitas vezes apoiadas, outras intuídas)!
E para quando o regresso da poetisa Rosário Pedreira?
ResponderEliminarUi...
Eliminarsim.
ResponderEliminardiz menos com mais profundidade.
o fascínio de ouvir um poema está na sua musicalidade (ritmo, aliterações, assonâncias,...) e na sua carga emotiva que é naturalmente evidenciada pelo dizer de quem a lê.
ResponderEliminarno «Este Ofício de Poeta», de J. L. Borges, este escreve: «Tenho a certeza de que sentimos a beleza de um poema antes de começarmos sequer a pensar no significado.»