Fugir de nós

Um dos filmes que mais me marcaram foi o belíssimo Na América, de Jim Sheridan, no qual um casal irlandês a quem morreu um filho parte com as duas filhas vivas (excelentes actrizes de palmo e meio) para os Estados Unidos, em busca de uma vida que os redima dessa terrível morte que não teriam podido evitar. Não sei bem porquê – embora, evidentemente, haja pontos de contacto –, mas há um livro que estará para sempre associado na minha mente a esse filme doloroso e magnífico. Chama-se E Então Fomos Embora e foi escrito no dealbar deste século por Michael Kimball, a quem a crítica chamou, sem hesitações, “o sucessor de Faulkner”. Não deixando de ser absolutamente pungente no relato que faz da vida de uma família que atravessa a América com o caixão de um bebé (e o bebé lá dentro, claro) a caminho de um lugar digno para o sepultar, consegue escapar sei lá por que artes ao melodrama e à lamechice tão típicos do cinema americano de grande audiência. Descrevendo uma cidade atrás da outra através dos olhos de duas crianças que assistem ao desmoronamento dos pais e à perda total de bens e força para os conquistar ao longo do percurso, além de constituir um guia de viagem realista do interior dos Estados Unidos (que é, habitualmente, a parte que desconhecemos daquele país), transforma as maiores e mais penosas contrariedades em factos que as crianças, por serem crianças, aceitam com a maior das naturalidades. Na linha de Faulkner e Steinbeck, este é um livro de um autor a quem se deve prestar atenção, desde que os leitores tenham bons estômagos.

Comentários

  1. Ó Rosário, não será "um dos filmes que mais me marcaram"?

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    1. Obrigada. Já corrigi. Estou sempre a corrigir aos outros e caio que nem uma patinha...

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  2. Obrigada pela sugestão, não conhecia Michael Kimball. Mais um para a pilha 2011.
    Histórias de pais que perderam filhos costumam ter em comum um aspecto: as crianças sobreviventes sentem-se culpadas e/ou assumem comportamentos do irmão falecido.
    Será uma tentativa de devolver alegria de viver aos pais? Será uma forma de recompor a imagem mental de um todo familiar, preenchendo a lacuna que se abriu? (Os nossos neurónios funcionam um pouco assim, têm enorme plasticidade, um substitui o lugar do outro numa lógica de rede.)

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  3. Tal como para ler um livro desses, como a Maria do Rosário diz e bem, é preciso ter bom estomâgo, acredito que para escrever sobre a perda de um filho (mesmo sem se ter passado por isso), também se tenha de ter um bom estomâgo.
    O titúlo que deu ao seu post, estou certo que se aplicará em muitas circunstâncias da vida de cada ser humano e, provavelmente, também a muitos escritores.

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  4. Ora aí está um filme que me marcou, ao ponto de me inscrever numa fornação em Guionismo, só porque tinha ouvido dizer que exactamente este filme seria analisado.

    Sem histeria, mas com tanto sentimento.

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