Pinga-amor
Publiquei em tempos um livro de um escritor colombiano – Jorge Franco Ramos – de quem García Márquez disse ser um dos autores a quem não se importava de passar a candeia. Foi um elogio merecido, claro, porque esse romance de estreia era uma pequena maravilha (também publiquei o segundo, mas este continuou a ser o meu preferido). Rosário Tesouras (com um título tão tremendo, não sei como o decano dos escritores colombianos sequer se deu ao trabalho de o abrir) conta a história de dois meninos maus de famílias boas que, em Medellín, cidade conhecida sobretudo pelo tráfico de droga, conhecem Rosário, uma bela rapariga de um bairro pobre («súbdita» de um dealer) que, na sequência de uma tentativa de violação, cortou à tesourada os testículos do agressor (daí a alcunha de Tesouras). Mas não se assustem com a crueza, pois ela não dura nem um parágrafo. Tudo o mais é contado com a maior delicadeza por um dos rapazes – o pinga-amor mais querido da literatura que já encontrei – que, apaixonado por Rosário até ao osso, a vê encantar-se pelo amigo e usá-lo a ele apenas para chorar as suas mágoas ou mandar recadinhos (que são sempre dados). Claro que nem tudo acaba bem (droga é droga e o mundo da droga impiedoso), mas o romance não dá um único solavanco e o leitor não tropeça em nada do princípio ao fim senão num amor sincero e incondicional que todos gostávamos que alguém tivesse por nós.
"amor sincero e incondicional que todos gostávamos que alguém tivesse por nós."
ResponderEliminarAs generalidades são sempre perigosas. Já foi amada por um amor sincero e incondicional como este? Se fosse não se aperceberia e não poderia antes achar: que melga.
(não sou eu que penso assim, apenas estou a tentar ver o outro lado da questão)
"Rosário Tesouras" é notável. Pena não ter sido lido por mais pessoas cá. O meu exemplar rodou por vários leitores.
ResponderEliminarOutro triângulo amoroso perfeito e muito pouco lido, é o de "A Dança da Vitória" de António Skármeta.
Tesouradas dessas e amores incondicionais.... acho que só mesmo na ficção. É a vantagem delas: aí tudo pode ser possível :-))
ResponderEliminarCara Rosário,
ResponderEliminarSaberia dizer-me em que editora é que o publicou e se ainda está disponível? Já encontrei versões em inglês, mas visto que inglês é a língua que já falo o dia todo, gostava de continuar a ler em português.
Obrigado e cumprimentos,
João
O livro saiu na editora Temas e Debates, que pertence agora ao grupo Porto Editora. O livro mais recente do autor já foi lançado pela Quetzal, hoje também desse grupo.
EliminarObrigado.
ResponderEliminarAlguém quer arriscar a origem da expressão "pinga-amor"?
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