Parar de ler

Não sou especialmente impressionável – o sangue nunca me afligiu, mesmo em criança, e posso ouvir histórias realmente nojentas à mesa sem perder o apetite. Também raramente choro em filmes e livros (excepto se já estou deprimida), porque, mesmo que me identifique com alguém ou alguma coisa, nunca deixo de sentir que tudo aquilo é ficção. (O defeito é meu, claro, mas tenho de viver com ele, como com todos os outros.) Há, porém, algumas coisas que me comovem – e normalmente têm mais a ver com velhos do que com crianças (talvez por nunca ter sido mãe). Mas foi, curiosamente, por causa de uma cena com bebés que tive um dia de interromper a leitura de um livro, tal era o aperto na garganta e no estômago. O romance chamava-se As Cinzas de Ângela (deu, de resto, um filme terrível) e era construído a partir das memórias de um irlandês, Frank McCourt, que emigrara para os EUA. Ainda na Irlanda, a mãe do autor ia tendo filhos no meio de uma pobreza irremediável e, como não podia deixar de ser, ia-os perdendo quase ao mesmo ritmo a que nasciam. O problema maior (para mim, que me fui abaixo) foi quando a dita senhora teve um par de gémeos e um deles, dois anos depois, não resistiu à grande fome. A reacção do irmão que sobrevive à sua ausência, a procura constante da metade que se foi, é – garanto – demasiado pungente. Mesmo para gente que não se impressiona habitualmente…

Comentários

  1. Normalmente, no que toca às emoções dos outros, funcionamos por empatia. Acho que tanto nos podemos emocionar com uma criança, revendo-nos a nós próprios nela, ou no nosso filho, como com um velhinho, sabendo nós que é esse o nosso destino, o de envelhecer. Como diz o ditado - Quem de novo não vai, de velho não escapa!

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  2. Um livro que faz doer a alma e abanar as consciências, como diria o Cardoso Pires

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  3. Eu emociono-me mesmo, por vezes até às lágrimas. Lembro-me de me ter custado ler alguns livros, pois o nó na garganta teimava em ficar. O «Ensaio sobre a cegueira» foi um livro muito duro para mim, mas inesquecível, também por isso.

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  4. Percebo perfeitamente o que diz. Li esse livro há anos, acho que logo que saiu, e ainda tenho na memória o sofrimento que foi lê-lo.

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  5. Também não me emociono facilmente, nem no cinema nem em casa com um livro, mas houve uma leitura que, embora não me tenha levado às lágrimas, me levou a afastar as páginas, respirar fundo, relembrar-me que se tratava de ficção, e voltar à história. Foi o «Yaka», do Pepetela. E, há mais tempo, na adolescência, um livro que me encheu de ternura: «O Meu Pé de Laranja Lima».

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  6. Penso muitas vezes em parar de ler, mas por ter em frente algo que não me seduz. Estupidamente nunca me decido pela paragem. E assim acumulo no quarto (o local de onde os livros só podem sair lidos) pilhas de obras em estantes, bancadas e na pobre mesinha-de-cabeceira. Nunca gosto de matar livros. Deixo-os ali definhando mas ainda meio vivos e alimento a esperança vã de que um dia os acabo...

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    1. Eu também era assim, mesmo que não gostasse tinha de ler um livro até ao fim. Hoje em dia insisto um pouco mas acabo por passar para outro livro, há tantas outras boas possibilidades à minha volta... Diz o meu pai que é de estar a ficar mais velha...

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  7. Como as coisas são. Esse livro impressionou-me muitíssimo (li-o há 10 anos, no original) e nunca mais olhei para a Irlanda da mesma maneira. Lembro-me de passagens inteiras, quando ele logo no início diz que pior que uma infância miserável é a infância miserável dos católicos irlandeses, de um ovo a ser dividido por uma família, da descrição da humidade. E quase não recordava a cena dos bebés.

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  8. "O Meu Pé de Laranja Lima" também me levou às lágrimas, acho que ainda não era adolescente. Por acaso, vi o filme antes de ler o livro, um filme brasileiro, que nunca mais tornei a ver em lado nenhum. A solidão do menino e o facto de, por vezes, ter sido castigado injustamente, não me saía da cabeça.

    De resto, sou muito impressionável, não é preciso muito para me fazer chorar. Embora também nunca tenha sido mãe, impressionam-me cenas com crianças. E animais. Talvez por ambos serem indefesos à crueldade dos adultos humanos.

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  9. Nunca li esse livro, no entanto creio que a ficção, na grande maioria das vezes, tem dentro as malhas da realidade. Talvez a descrição da pobreza nos choque mais, quando o cenário é a Europa, seja na Irlanda, em Trás-os-Montes ou no Alentejo. Seja no século XIX, na primeira metade do século XX, ou hoje.

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  10. Li este livro há relativamente pouco tempo e fiquei apaixonada pela vida tão intensa de F. McCourt...A fome, a miséria, a doença e a coragem que estão naquelas páginas marcam e comovem-nos! O meu pequeno comentário em: http://otempoentreosmeuslivros.blogspot.com/2010/06/historia-vivida.html
    Boas leituras!

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  11. Kilkelly é uma canção escrita a partir de cartas da segunda metade do século XIX.

    http://www.youtube.com/watch?v=EjYYaVnWuAA

    a letra: http://www.mysongbook.de/msb/songs/k/kilkelly.html

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