O poderio alemão
No ano em que Portugal foi o país convidado da feira Internacional do Livro de Frankfurt, trabalhei como directora de publicações no escritório que organizou a presença portuguesa; fizemos vários livros nesse ano e tínhamos de estar constantemente em contacto com os nossos colegas da Alemanha que traduziam os textos para esclarecermos tudo até à exaustão. Embora tivesse aprendido alemão durante quatro anos, não tinha a noção de quão descritiva era aquela língua e que dificuldade sentiam no escritório de Frankfurt os tradutores para verterem para alemão textos aparentemente tão simples. Só para terem uma ideia, em Portugal temos as palavras “doente”, “hospital” e “ambulância” (todas de raízes diferentes) que, numa tradução literal, têm os correspondentes alemães “doente”, “casa do doente” e “carro do doente”... Numa tarde em que precisávamos de um texto sobre o stand de Portugal rapidamente traduzido, tivemos de andar com mensagens de fax para cá e para lá (sim, ainda era o tempo do fax) por causa da expressão “quiosque multimédia”. Parecia óbvio, mas para os alemães colocarem tudo numa palavra (ou em duas) tiveram de saber o formato exacto do quiosque, se servia café, se era de livre acesso, quantos computadores tinha e muitas outras ninharias que, pelos vistos, eram fundamentais para uma tradução correcta. Estivemos horas naquilo e, no fim, o resultado foi surpreendente: qualquer coisa como Kiosk multimedia (ou vice versa, agora já não me recordo). Tanta pergunta para quê?
Esta história fez-me lembrar uma entrevista a Saramago a propósito do livro "As Intermitências da Morte" cujo título parece ter sido muito difícil de traduzir em alemão.
ResponderEliminarAparentemente não existe um sinónimo genérico para intermitência, só quando esta é aplicada a alguma coisa, por exemplo a "intermitência da luz" termo que usam para o pisca-pisca.
Bem, pisca-pisca em alemão diz-se "Blinklicht", que não tem nada a ver com as traduções possíveis de intermitência: Stockung, Aussetzen, Ausbleiben, Unterbrechung.
EliminarA expressão "Intermitência da Morte" também é esquisita e inabitual em português e muitas vezes os títulos são difíceis de traduzir. Isso acontece com qualquer língua.
Pode dar-se o caso de o Saramago estar a fazer literatura fora dela ou de a minha memória me ter traído.
EliminarÉ uma pena quando os factos estragam uma boa história. De resto o alemão não tem culpa de nada e é a língua de muitos grandes: Kleist, Kafka, Mann, Musil, Hesse, Grass...
Consegui encontrar a tal entrevista dada ao DN:
Eliminar"É a morte a jogar o seu jogo, o que por sua vez justifica um jogo de palavras?
É. Escrever "máphia" com ph deu--me um certo gozo. É um anacronismo. Não sei como é que as traduções vão resolver a questão. Provavelmente não podem. Por exemplo, em alemão os substantivos escrevem-se com letras maiúsculas. Eu andei a pôr os nomes das pessoas com minúsculas, tudo minúsculo. Para manterem essa lógica, teriam de transgredir as suas próprias regras. Não creio que o tradutor esteja disposto a isso porque não seria compreendido, mesmo que explicasse que seguia o original. Nem sei se a questão de traduzir o título para alemão já está resolvida.
Então?
Eles usam a expressão "luz intermitente", mas não têm uma forma para dizer As Intermitências da Morte. Pelos vistos o português é muito mais rico em cambiantes e nuances. A nossa língua tem uma plasticidade que algumas vezes falta a outras e que permite jogos… "
Ora bem, depois de escrever o comentário, reflecti sobre o assunto (os comentários têm por vezes este defeito de serem escritos à pressa). "Blinklicht" (pisca-pisca) quer dizer "luz intermitente", mas não "intermitência da luz". O verbo "blinken" alemão também pode ser usado como substantivo, mas aplica-se exclusivamente à luz ou a sinais luminosos. Para usar "intermitência" noutros contextos, teriam que ser usadas outras traduções.
EliminarNão sei como foi traduzido o título, hei-de pesquisar. De qualquer maneira, acho que Saramago foi infeliz ao dizer: "Pelos vistos o português é muito mais rico em cambiantes e nuances. A nossa língua tem uma plasticidade que algumas vezes falta a outras e que permite jogos…"
Todas as línguas têm a sua plasticidade que permite jogos, eles podem é ser diferentes de língua para língua. Também há palavras ou expressões alemãs que eu me vejo aflita para traduzir para português. Neste caso, o nosso Prémio Nobel, na minha opinião, caiu no lugar-comum de exaltar a língua portuguesa sobre todas as outras.
Lembro-me agora de um título inglês de um filme/livro: "Girl interrupted". Como se há-de traduzir? "Rapariga interrompida"?!
Walser, Sebald, Herta Müller...
EliminarO que se me oferece dizer é que por esta pequena amostra se vê o trabalho de um bom tradutor, actividade pela qual tenho cada vez mais respeito, agora que preciso dos nórdicos como de pão para a boca, e não há forma de intuir sueco, norueguês ou finlandês (só um pedacito de dinamarquês, por ter algumas parecenças e comunidade de raízes com o inglês arcaico - já tentaram ler o poema Beowulf no original?:). É mesmo preciso saber tudo isso e muito mais.
ResponderEliminarSim, as línguas escandinavas ainda são piores do que o alemão (para nós). Também não fui longe, quando tentei aprender sueco...
EliminarOh, o Islandês é tão giro. :) E bem mais fácil que o alemão.
EliminarOlha, não sabia... ;)
EliminarO alemão é uma língua muito rica e flexível (o que a torna complicada para estrangeiros) e permite criar substantivos ligando dois ou três, dispensando o uso da preposição. Por isso se diz Krankenhaus para hospital, que realmente quer dizer casa de doentes, assim como Krankenwagen para ambulância (carro de doentes).
ResponderEliminarIsso dá que, em alguns casos, se criem palavras muito específicas para denominar uma coisa em concreto, que só é válida para aquela coisa ou aquela situação (imagine as possibilidades que isso dá a um escritor!!!).
O caso com quiosque é caricato, mas admitamos que a expressão quiosque multimédia também é incomum. Podia-se usar, por exemplo, cantinho multimédia, ou loja multimédia, ou espaço multimédia, ou café multimédia (caso se servissem bebidas e café), etc., etc. Talvez por isso eles tivessem pedido tantos pormenores, a ver se encontravam a expressão exacta, para que ninguém tivesse dúvidas do que se tratava. No fim, ficaram-se pelo Kiosk, enfim...
É conhecido que os alemães são uns fanáticos do pormenor, mas acredite que isso, em muitas situações, dá muito jeito.
P.S. Com uma aprendizagem de quatro anos de alemão realmente não vai longe... Eu sou licenciada em LLM inglês e alemão e, quando aqui cheguei há 18 anos, mal conseguia conversar com as pessoas e era incapaz de ler a maior parte dos livros!!!
Obrigado, Kássia, pela exposição. Tenho dois anitos de Alemão e só dá para brincar, não estranhar os filmes, rir-me com os turistas e gostar (muito) da língua:).
EliminarWeil so sind wir... :) Logisch!
ResponderEliminar(vocês não sabem é o que custa o Português, Gott!)
Só para dizer: o que eu aprendo neste blogue!
ResponderEliminarObrigado, M R. Pedreira - também pelos seus poemas...
Lá se vai o mito da produtividade alemã.
ResponderEliminarIncrível
ResponderEliminarÉ melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível filosofar em alemão
Se você tem uma idéia incrível
É melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível
Filosofar em alemão
caetano veloso
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