Desespero

Um dia destes, a olhar para as minhas estantes, apercebi-me de uma coisa assustadora: havia muitos livros que eu estava certa de ter lido e dos quais lembrava muito pouco ou coisa nenhuma. Já estou na idade em que me faltam os nomes dos actores que entraram em determinados filmes de que até gostei e, pior do que isso, na idade em que, quinze dias depois de ter visto um filme que não me agradou, já não sou capaz de recuperar senão vagos momentos da história. Isso até aguento. Mas com os livros fiquei preocupada, tanto mais que quero ainda ler todos os que puder e estou sem saber se, ao esquecer-me rapidamente deles, valerá realmente a pena lê-los. Ao mesmo tempo, sinto que a partir dos cinquenta entramos numa espécie de contagem decrescente, e não raro dou por mim a planear furiosamente leituras, com medo de que o tempo se acabe e eu não tenha conseguido pôr os olhos em metade do que queria. Disse-me recentemente alguém (o Manuel Jorge Marmelo, acho, mas com esta memória já não tenho a certeza) que, mesmo que estejamos sempre a ler desde pequenos, nunca, no tempo normal de uma vida, conseguiremos ultrapassar os três mil títulos. Não sei se haverá três mil livros imprescindíveis, claro, mas... como terão então feito aqueles que se gabam de ter mais de vinte mil volumes nas suas bibliotecas?

Comentários

  1. Ler não é uma empreitada. Contabilidade fazem os guarda-livros, não os leitores. Ler é uma relação.

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  2. Concordo com o comentário anterior. Ler é uma relação que, pelo menos para mim, é distinta com cada livro que leio. Embora não me atormente esquecer-me do que já li, aborrece-me um pouco, pois tendo gostado, deveria lembrar-me. Mas também acho que pode ser encarado como uma oportunidade: voltar a ler. E nas poucas vezes que o fiz foi uma experiência interessante, já que o mesmo livro criou novos laços comigo.

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  3. Aos 51, sinto-me exatamente como você, Maria do Rosário... É desolador...

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  4. Pois. Na última feira do livro comprei, todo contente, uma versão de bolso, bem velhinha, do Retrato de Dorian Gray. Em casa, percebi que tinha já a mesmíssima edição guardada algures. No mesmo dia, consegui a proeza de adquirir pela segunda vez A Invenção de Morel (como atenuante, acho que mudaram a capa).
    Isso dos 20.000 livros, mesmo distribuído por 60 anos, resulta na leitura de um título por dia. Só mesmo se for leitura à prof. Marcelo...

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  5. Bom... eu "ainda" vou nos intas e já ando assim... Acho que nunca conseguimos despejar as nossas bibliotecas particulares. Fazemos intenções de leitura que, tantas e tantas vezes, não passam disso mesmo: excelentes intenções ou, tranzendo aqui o nome do blog, intenções extraordinárias. Coleccionamos livros. Coleccionamos intenções e coleccionamos o que, de facto lemos e até o que esquecemos.

    (Extraordinário texto)

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  6. Join the club, my dear...

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  7. Lamento, mas não fui eu o informador. Não podia ter sido. Ainda não cheguei aos 40, mas a minha memória já não permite armazenar um número desse tamanho.
    Beijo

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  8. Não gosto nada de olhar para a estante, pegar em determinado livro, ver lá assinalado o mês e ano em que o li e não me lembrar de absolutamente nada do seu interior. Apetece logo pegar-lhe novamente e acertar contas com a minha memória. Mas com tantos e bons livros para ler na vida, eu que ainda vou nos 30 não posso perder tempo com livros que, pelos vistos, não ficaram comigo: os livros também valem pelo tempo que passamos com eles ;)

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  9. Acho que não é dos «entas» nem dos «intas» nem dos «intes»... é mesmo um problema que deve ser comum a quem lê muitos livros.

    Para mim, que ainda estou nos «intas», o cúmulo de não me lembrar do que li é pegar num livro, começar a lê-lo e, lá para o meio, aperceber-me de que aquilo me é vagamente familiar...

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  10. Olá:)

    Ler nunca é um desperdicio! Acho que se tivesse falhas de memoria graves, continuaria a ler sempre...
    Haaa, e aproveita a vida, não penses na idade, nem no tempo. Ok?
    Diverte-te e lê ;)

    xoxo
    Jane

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  11. Esses, os que se gabam de ter vinte mil volumes na biblioteca, são aqueles que muito modestamente se gabam de não se lembrarem mais do que de alguns títulos e, devido à sua já fraca memória, confundem os seus autores; porém, repetem frases do género «este é muito bom!» ou «esta história é giríssima» e fazem-no convictamente, habituados àquelas capas tão familiares das quais nunca se quererão desligar. é uma espécie de elo familiar do mais amigável que há...

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  12. Eis um post inquietante.
    Várias vezes, em livrarias, interrogo-me se, de facto, já/ ainda tenho determinada obra - muitas emprestei e algumas nunca vieram devolvidas, e entretanto, já nem sei bem quem as terá.
    Também já comprei livros que já tenho, sem saber.
    Angustio-me quando penso na quantidade de obras que gostaria de saborear e que vão ficando à espera, e penso que qualquer dia, serei como alguns velhinhos que têm escrivaninhas e mesas de cabeceiras acasteladas de livros que os esperam, ou que eles esperam.
    E há o problema do espaço, esse drama. Mas continuo a comprar, a acumular, a ler tão lentamente como gosto, mas com menos regularidade do que gostaria.
    Gosto de pensar que algumas personagens ficarão "para sempre" comigo, ou seja, que enquanto me lembrar daquilo que muito amo, poderei evocá-las. Mesmo que nessa altura a leitura já seja bem penosa enquanto actividade.
    Mas poder acolhê-las, num reduto precioso da memória é um pensamento feliz. Muito feliz.

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  13. Eu tenho pouco mais de metade da sua idade e não me lembro de muitos, incluindo alguns de que gostei (pelo menos disso lembro-me). Não me preocupa. Um livro não deixa apenas uma personagem, uma história ou certas passagens. Deixa sumo. E esse sumo entra-nos no corpo e vitamina-o. Os efeitos vêem-se a médio e longo prazo. Acredito nisso.

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  14. Já comprei títulos repetidos mas nunca primeiras páginas repetidas. Se começar a ler não me engano. Leio muito de pressa, numa feira do livro li quase todo o livro do Gabriel G.M..."a história de uma puta triste"... Comprei-o por vergonha, já o tinha lido.
    Num passado distante um homem para ver se eu lia perguntou-me o que estava a ler. Eu não sabia completo o autor, o título e só poderia contar a história, a sensação, a cadência e o prazer e disse que não sabia. Uma amiga que ouvia disse-me parece impossível dava ideia que nem lias qdo eu não conheço ninguem que leia mais. Mentira, esse homem lia mais que eu. Mas como por premonição que se veria a acontecer só muitos anos mais tarde eu sabia que isso não bastava tinha de ser padronizada para discutir literatura. É por isso que continuo como sempre a não saber mas a sentir o prazer de igual forma e as vezes por respeito com os autores tento transformar o meu Alzeimer de sempre em nomes audíveis e legíveis por todos.
    E para uma mulher 50 é metade da vida, sim porque as mulheres vão durante até aos 100 e os homens ate aos 90. Resta muito tempo pela frente, veja lá que não se aborreça.
    Leia e escreva, como sempre.

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    1. durar (depressa, devia ler antes de enviar)

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  15. com a mesma idade, mas já há muito que me acontece o mesmo e leio muito, muito, menos do que a Rosário. e não é só com livros, é com filmes, nomes de pessoas, conversas, etc. também já comprei um ou dois livros repetidos. quando me pedem para dizer, por exemplo, os dez livros ou filmes de que mais gostei, não consigo. e tenho pena, porque houve obras que sei que me marcaram bastante na altura. mas lembrar-me do seu conteúdo? das personagens? às vezes, tenho uma ideia vaga, às vezes nem isso. sem falar nos livros em lista de espera... sempre me impressionaram e intrigaram muito os comentadores (pois, O Marcelo de Sousa) e críticos literários ou cinematográficos ou musicais, etc, que dissertam fazendo toda uma série de referências bibliográficas e análises comparativas; e eu penso... mas sabem mesmo sobre todos aqueles livros, filmes, músicos, pintores,...? também penso no Borges, seria uma excepção?

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  16. Mas é claro que o Manuel Jorge Marmelo tem toda a razão. Mesmo que não fizéssemos mais que ler livros, não é fisicamente possível. Bastará fazer as contas ao tempo que demoramos a ler um livro com, digamos, 250 páginas.
    Os que têm 20.000 livros fazem leitura por osmose. Tocam no livro e já está.
    Quanto ao esquecimento, podemos sempre ver o caso pelo lado positivo. Gastamos menos dinheiro em livros porque podemos sempre reler os que já temos. Alguns que tenho já reli várias vezes e há sempre um prazer renovado e aumentado. Reler, por exemplo J.L.Borges é sempre viver um tempo agradabilíssimo. É como encontrar velhos amigos com quem já algum tempo não falamos.
    Evita-nos as surpresas desagradáveis.
    Coisas de pré-velhice. Ou talvez já de velhice.
    João Raposo

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