O amor
Na semana passada, aconteceu-me no mesmíssimo dia assistir a duas esplêndidas declarações de amor. Uma delas foi a entrevista de Pilar del Río, viúva de Saramago, a Constança Cunha e Sá na TVI 24: brilhante, forte e comovente. A outra, um agradecimento de Helena Marques ao marido no final da sessão de lançamento do seu mais recente romance, O Bazar Alemão: sincera, cúmplice e engraçada (o marido estava escondido na sala, presumivelmente corado). Fico sempre com a lágrima ao canto do olho e ao mesmo tempo cheia de fé nas pessoas quando ouço alguém falar sem problemas da pessoa de quem gosta, porque os portugueses, habitualmente contidos, parece que têm vergonha de mostrar o que sentem, e a excepção é realmente uma lufada de ar fresco. Deve ter sido por isso que, quando publiquei um dos meus livros de poesia, alguns críticos escreveram que aquele era um acto de grande coragem. Pois não acredito que nenhuma destas duas senhoras tenha precisado de coragem para falar dos amores da sua vida. E eu também não.
Não tinha lido a tua entrada do dia, quando escrevi sobre um certo jardim daqui a quinze anos. É muito bonito falares do teu amor no teu dia. Porque, ao contrário do que dizia o Sherwood Anderson do seu Enoch Robinson (Winesbrug Ohio, Ahab), não tens de dispensar a tua essência para viver na realidade:). Um bom dia, melhor Inverno e via sempre boa:).
ResponderEliminarE não será necessária coragem simplesmente para amar? Amar todos os dias, apesar dos contratempos, das rotinas, das tarefas. Para lá do romance, da fantasia, do namoro, da conquista?
ResponderEliminarCoragem para continuar a amar, depois da dor? Aquela que se instala de rompante e nos sacode. Que nos faz duvidar de tudo. Que nos cola à alma uma tristeza que parece não ter fim. Mas tem. E sabemos disso, por isso continuamos a amar. Também porque sabemos que não há nada melhor do que o amor.
Quanto a parecer que temos (portugueses) vergonha de mostrar o que sentimos, nós, mães e educadoras de afectos, podemos e devemos fazer algo que contrarie isso. Todos os dias digo aos meus filhos o quanto os amo e ouço da parte deles o seu amor por mim. Até já ouvi um «adoro-te» do meu filho de dois anos!
Se eu fosse um livro era "A casa e o cheiro dos livros", é uma declaração de vida, com tudo o que ela tem de melhor e de mais intenso. É um acto de coragem colocar em palavras, e dar essas palavras a ler aos outros, os sentimentos. Porque cada um sente como sente e aos olhos dos outros tudo pode ser distorcido, banalizado, ultrajado até.
ResponderEliminarAs declarações de amor, em público, têm esses dois lados: a manifestação de um sentimento que só nós percebemos; o risco que se corre que os outros não o percebam como nós, que o desvalorizem, que o maltratem, que o magoem.
Acima de tudo, vale sempre o que realmente se sente. E aí é território privado. E aí só sente quem sente, só sabe quem é.
vi a primeira, que me cativou como há muito nada me cativara; não a segunda, pois não estive presente.
ResponderEliminarcoragem coisa nenhuma. que tonteria, sequer colocar a questão nesses termos.
"Quem nunca escreveu uma ridícula carta de amor?" Fernando Pessoa
ResponderEliminarEu nunca escrevi uma ridícula carta de amor.
Um amigo meu este verão disse-me "vai muito a tempo de o fazer".
Julgo que email ou anexos não contam, pois não?
E quando a Pilar, admirar um homem, ser persistente e acabar por partilhar a vida com quem amamos, admiramos e nos faz melhor, mais capaz, mais culta, mais calma, mais completa e poder apaziguar e acarinhar o homem que amamos deve acontecer uma vez num milhão.
ResponderEliminarJá é bom saber que uma vez aconteceu.
Como será partilhar a vida com um homem que não admiramos?
Como será viver com um homem que não nos admira?
EliminarNão viva, deixe-o.
ResponderEliminarSe alguém amar como descrevi e ele não a admirar desista.
Afinal não o devia ter admirado, não a merece.
"Como será viver com um homem que não nos admira?"
ResponderEliminarÉ como amar um homem que não nos ama.
Pura perda de tempo.
Álvaro de Campos
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