Auto-ajuda

Sempre me intrigaram os chamados livros de auto-ajuda; das muitas vezes que estive deprimida, triste, com um tédio profundo e por aí além, preferi sempre a ajuda dos outros à auto-ajuda. E li, claro, livros que me ajudaram a esquecer a neura, mas eram sobretudo obras de ficção e poesia. Não era claro para mim como podia alguém acreditar que, só por ler os conselhos de um suposto especialista, curava as mágoas e afins; e tinha dificuldade em compreender porque faziam tanto sucesso alguns títulos e autores. Até que, quando estava na Temas e Debates e editávamos parte do catálogo da editora Rocco do Brasil, veio parar às minhas mãos uma série de livros intitulada «Marte & Vénus», de John Gray (um tipo com carinha de parvo que dedicava todos os livros a «Bonnie, my wife»), cujo primeiro volume, Os Homens São de Marte, as Mulheres de Vénus, esteve 259 semanas seguidas no Top Ten da New York Times Review of Books. E então percebi que este género não faz mais do que repetir e registar todas as coisas que toda a gente sabe, mas pensou que não tinham passado pela cabeça de mais ninguém (por exemplo: que, quando preocupados, os homens preferem ficar calados e as mulheres desabafar). É numa espécie de identificação com o leitor comum, que se sente menos só nas suas cismas e descobre que, afinal, não é burro porque os «especialistas» pensam exactamente como ele, que me parece residir o segredo do sucesso. Eu continuarei a preferir os amigos, os outros livros e até, se for preciso, os psiquiatras…

Comentários

  1. Sim, sim há montanhas de livros de auto-ajuda, só não são os de auto-ajuda...

    ResponderEliminar
  2. Também para mim os livros de auto-ajuda são sempre livros que não se intitulam como tal. Um bom romance, uma banda desenhada, uma novela gráfica (género que tenho andado a descobrir)...

    E os amigos, a família, um bom filme, um grande gelado ou os meus animais de estimação. :)

    ResponderEliminar
  3. Sim, sem dúvida: os amigos e a poesia, claro! E a escrita... porque um bom desabafo para o papel ajuda-nos a ver tudo numa outra perspectiva, não concorda? E, mais tarde, quando relemos podemos sempre rasgar ou fechar numa gaveta para voltar lá quando nos apetecer sofrer mais um bocadinho.

    ResponderEliminar
  4. No fundo, essa é uma das estratégias dos próprios psiquiatras e psicólogos: mostrar-nos que não estamos sozinhos com os nossos problemas. Porque, na maior parte das vezes, pessoas com distúrbios psicológicos e/ou depressões sentem-se sozinhas e incompreendidas e basta mostrar-lhes que essas coisas também passam pela cabeça dos outros para se sentirem um pouco melhor. "Empatia" e "identificação" são as palavras-chave, verdadeiros bálsamos para a alma.

    De qualquer maneira, concordo que esse tipo de livros consiste apenas num truque para ganhar dinheiro, pois todos repetem a mesma fórmula com palavras diferentes e, se nos fazem sentir um pouco melhor, acabam por não nos dar soluções para aquilo que realmente nos apoquenta.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. ridículo...:) $?????????n tem nad a ver com ajuda. nada compra a ajuda

      Eliminar
  5. Sim, tenho a impressão de que os livros de "auto-ajuda" ajudam apenas aqueles que os escrevem; pior são aqueles livros que nos oferecem "100 dicas para melhorar a sua vida" quando uma só bastaria. Sentar à mesa de um bar e beber cerveja com os amigos: taí a melhor dinâmica de grupo que conheço.
    :- )

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Seria "in casu" puro machismo "brasileiro", embora eu, que não me afino nem pelas questões de gênero, nem pela literatura comparada, acredite que tanto os amigos quanto a cerveja sejam dons universais.
      :- )

      Eliminar
  6. não seja fundamentalista, há leituras para todos os gostos.byby

    ResponderEliminar
  7. Olá Maria do Rosário, se calhar é melhor começar a filtrar os comentários... :)

    ResponderEliminar
  8. Tenho um colega que diz "dar bons conselhos"; se os conselhos fossem mesmo bons não se davam vendiam-se.

    ResponderEliminar
  9. Eu gostei do seu texto. Alguns livro de auto ajuda nos ajudam a entender como superar nossos limites.
    http://bit.ly/11Ke2HQ

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório