Traições
Chamam muitas vezes «traidores» aos tradutores – e alguns são-no verdadeiramente. Ao longo de vinte anos a trabalhar no mundo editorial, encontrei de tudo: traduções excelentes, feitas por pessoas que pareciam ter nascido para a tarefa; boas, feitas por gente competente e trabalhadora; médias, a maioria; más, sobretudo as que mostravam permanentemente a língua de origem; e calamitosas, que não se deixavam ler e iam para o lixo por não terem salvação possível. Entre estas últimas, lembro-me, por exemplo, de um dos primeiros livros que veio à minha mão para eu rever (já lá vão mais de vinte anos) e cujo tradutor sabia tão pouco inglês que conseguiu traduzir «shake hands» por «sacudir as mãos». (Hoje o inglês entrou de tal maneira pelo nosso quotidiano que seria impossível alguém ir tão longe.) Mas até os tradutores competentes caem muitas vezes em esparrelas, e sabe-se que um dos nossos mais conceituados tradutores de castelhano, levado talvez pela pressa, cometeu o erro de traduzir «palomitas» (pipocas) por «pombinhas» (e, como se tratava de comer no cinema, o leitor estranhava). Também me contaram que, numa tradução brasileira, apareceu a expressão «vendedores de bestas» para traduzir «best-sellers». A ser verdade, uma traição maior.
«vendedores de bestas», delicioso... e mais uma vez tudo extraordinário!
ResponderEliminar"Escribir es corregir la vida, es la única cosa que nos protege de las heridas y los golpes que da la vida" Enrique Vila Matas.
ResponderEliminarSe traduzir for introduzir novamente o erro então anula a função da escrita.
... «best-sellers», «vendedores de bestas»!?
ResponderEliminarUhm! Às vezes, deus escreve direito por tradutores tortos.
concordo com a maria soares!
ResponderEliminar:- )
"Best sellers"" por "vendedores de bestas" é um verdadeiro "must" (ou em português "um mustang" da tradução).
ResponderEliminarCom toda a amizade, querida Rosário, permita-me que lhe diga que a culpa principal das famigeradas traições (por favor, não confundir com traduções) é dos editores, e da ligeireza com que escolhem os "tradutores" e aceitam as "traduções". Claro que a carapuça não serve a todos os editores, mas eu diria que tende a ter um tamanho único!
ResponderEliminarJá me aconteceu, mais que uma vez, apanhar erros tão primários que fiquei a pensar se não seria possível reclamar e pedir o dinheiro de volta. Se compramos um produto com defeito, e por lei, temos o direito de o devolver ou trocar por outro, porque não se passa o mesmo com um livro? É que há traduções que mereciam ir directamente para o lixo. Acho isto um escândalo!
ResponderEliminarNão é de livros, mas do cinema. Uma vez, a ver um filme de Pedro Almodóvar, dei com uma personagem que falava do tipo de sangue de uma pessoa hospitalizada: O+. Nalguns países usa-se 0 (zero) em vez de O, e aquela personagem dizia que o tipo de sangue em causa era zero positivo («cero positivo»). Na legenda aparecia que a pessoa hospitalizada era seropositiva.
ResponderEliminarPodemos dizer que se trata de um erro crasso, mas convém que se fique a saber que, maior parte das vezes, os tradutores/legendadores não dispõem de guião, podendo apenas confiar no seu ouvido...
EliminarRelativamente às más traduções, não deveriam os coordenadores editoriais testar a competência dos candidatos, atribuir-lhes prazos concretizáveis e pagar o preço justo?
O que acontece muitas vezes, e é esta a voz de uma tradutora, é que os tradutores que por aí existem não são tradutores especializados, os verdadeiros tradutores são abordados com prazos inexequíveis e pagos a valores que depreciam o seu empenho e diligência.
Traduzir implica conhecimentos profundos da língua e cultura de partida, a aptidão de um escritor e a procura incessante daquilo que não se conhece de modo a poder trazer ao leitor as intenções do autor original. Sim, porque o tradutor é um autor.
Os exemplos apresentados são aterrorizadores e, de facto, há péssimas traduções. Eu própria terei cometido e poderei vir a cometer os meus erros, mas o que sei é que enquanto o nosso trabalho for visto como aquela coisa simples que qualquer tradutor automático pode fazer, a qualidade dos trabalhos dificilmente poderá ser exímia.
Traduzir é difícil... e trabalhar como tradutor/a também!
Obrigada, cara 'bloguista', por lançar a discussão.
Pois é! Eu sou editor de livros de não ficção, mais vulgarmente ditos do conhecimento. Porque não juntar os autores aos tradutores? Têm um estatuto especial porque são autores (autoridade)? Na minha vida editorial já me apareceram livros cujos autores ultrapassam as calinadas atrás referidas dos tradutores. E estas bem mais graves, pois seria suposto de todo não existirem. E não falo de livros de ensaio onde podemos ou não concordar com a opinião do autor. Falo de acontecimentos, conceitos, etc. expostos de um modo completamento errado. Já me sucedeu, ao traduzir livros, ter que entrar em contacto com autores para lhes chamar a atenção de verdadeiros erros.
ResponderEliminarComo revisora, passam-me pelos olhos diariamente dezenas de erros de tradução. Um dos primeiros que corrigi, há anos, e que nunca esqueci por ser tão inusitado foi a tradução da expressão “effing the ineffable” por “a queca inefável”. Um dos mais recentes foi a tradução de “Not Dogs” por “Não Cães”. Com o passar dos anos nada mudou. Continuo a ler pérolas de gente que se diz tradutora profissional e traduz nas horas vagas, porque tem como actividade principal a docência, ou de outros que estão dispostos a tudo para ter um rendimento suplementar, para ganhar experiência e currículo, ou para ganhar alguma coisa, enfim, pois nos dias que correm não está fácil. Os casos mais curiosos são os casos dos “tradutores” que, confrontados com a falta de qualidade do trabalho que apresentam, adoptam uma atitude de defesa e se desculpam com o “estilo do autor”, com “opções de tradução” ou com “até aqui ninguém mais se queixou”. Os culpados somos todos: quem revê os textos destes “tradutores” e lhes corrige a incompetência a troco de quase nada, pois um salário de revisor é pouco mais do que miserável e frequentemente nem nos é permitido colocar o nosso nome na ficha técnica; quem escolhe estes tradutores, pois só lhe interessa a rapidez e, mais uma vez, as baixas remunerações; quem compra os livros e não reclama quando o produto tem defeito, e sim, uma má tradução é um defeito. Mas este é um país muito pequeno e todos precisamos de trabalhar e ganhar algum ao fim do mês, não é? Por isso quem escolhe os tradutores acredita em tudo o que lê nos currículos, ou contrata os amigos recomendados pelos amigos… Por isso estes tradutores fazem o melhor que sabem e que podem, nos prazos que lhes dão… Por isso os revisores aceitam trabalhar por valores irrisórios e fazem o melhor que podem, no tempo que têm… e recebem o mesmo façam um bom ou um mau trabalho.
ResponderEliminarOu eu tenho muito azar, ou tudo continua na mesma. Ou pior.
Já traduziu? Concordo com maior parte das suas afirmações, mas gostaria de saber se já fez trabalho de tradução: se já cumpriu os prazos 'a correr' de que fala ou se já foi paga miseravelmente por fazê-lo.
EliminarObrigada
Contrariamente ao sentido da maior parte dos comentários sobre este post eu tenho um elogio a fazer.
ResponderEliminarOs meus parabéns ao extraordinário trabalho de tradução e, porque não "translação" do tradutor de Meridiano de Sangue de Cormac Mccarthy editado pela Relógio d'Água.