Proust e a minha mãe

Não sou, como algumas pessoas que conheço, doida por Proust. Talvez porque tive de ler os primeiros três volumes de À la recherche… a mata-cavalos numas férias de Páscoa, metida na Biblioteca Nacional enquanto os meus amigos andavam a bronzear-se pelas praias, acho-o apenas extraordinário e, sim, tenho raiva dessa notável capacidade para, sem ser enfadonho, descrever uma igreja ou outra coisa qualquer em dúzias de páginas e associá-la a outras trinta mil coisas que a memória arquivou. Ao mesmo tempo, devo confessar que embirro ligeiramente com Marcel e que, nessas longas, longuíssimas, férias de Páscoa, pensei muitas vezes que lhe fizeram falta uns tabefes (e aqui estou eu agora a dar a face, ou mesmo as duas faces, por tê-lo dito). Ora, a minha mãe é muito dada aos detalhes (palavra que os revisores dizem que é galicismo e substituem sempre por «pormenores», muito mais feia) e, para dizer que atravessou a rua e foi ao Multibanco, conta absolutamente tudo o que viu, ouviu, sentiu, cheirou, supôs, pensou, concluiu… e ainda o que nem tem que ver com essa travessia, mas, por qualquer motivo, aparece naturalmente na conversa. Quando ela regressa de uma consulta médica, é um custo sabermos como está realmente a sua saúde. E, nesses momentos, o meu irmão mais velho, que é o mais impaciente de todos, costuma dizer-lhe: «Deixa lá o Proust e conta só o que interessa.»

Comentários

  1. Com a minha mãe é parecido: em casos tais, vivo a pedir para ela "começar pelo final".

    Ótima história!

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  2. - Mãe, há só uma história!
    - Está bem, filho. Mas é divinal!

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  3. sonia ferreira da silva6 de julho de 2010 às 14:31

    Dei muitas risadas aqui com o comentário do seu irmão, no final do texto. Eu ADORO o Proust. Isso porque insisti em lê-lo novamente, 20 anos depois de ter tentado pela primeira vez (pois minha mãe já adorava-o) ocasião em que achei-o terrivelmente enfadonho com todas aquelas descrições intermináveis. Vejam como tudo é relativo. Hoje eu saboreio essas mesmas descrições e faço marcas a lápis no livro, para depois me deliciar com as metáforas maravilhosas que ele costuma usar.

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  4. Eu e o Proust temos uma relação quase conceptual. Para mim, ele é o culpado e o contraponto de quase tudo na literatura:). Fazemos anos no mesmo dia, já no próximo Sábado, 10 de Julho. Eu pouco mais de 40, ele pouco menos de 140:).

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    Respostas
    1. Acredito na sua relação com Proust. Vejo na sua escrita algo de Proust.Parabéns!

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