Paul Auster sem espinhas
Essa coisa de ter um peixe inteiro no prato – com cabeça, rabo, espinhas e, por vezes, até o olho arregalado e gelatinoso –, não é para todos. Aos portugueses, habituados ao mar, às varinas e aos mercados, não faz mesmo nenhuma confusão. Mas, quando pedem a um menino de Nova Iorque para desenhar uma galinha, ele representa-a normalmente depenada e sem cabeça como a vê no supermercado – e, de peixe, também quase só conhece a posta de salmão e os filetes sem escamas e todos do mesmo tamanho que vê na prateleira dos congelados. Os peixes, tal como são enquanto vivos, raramente aparecem no prato de um norte-americano e, de uma das vezes que Paul Auster esteve em Portugal, ainda o Manel era editor dele na ASA, fomos comer peixe a um pequeno restaurante do Bairro Alto a seu pedido. O linguado tinha um ar fresquíssimo e o empregado aconselhou-lho vivamente. Mas, quando o trouxe no prato – de cabo a rabo, e não em lombos – e o pôs à frente do escritor, ele ficou estarrecido a olhar e perguntou, aflito: «Como é que isto se come?» A Paul Auster nem me custou muito tirar-lhe as espinhas…
Autor soft, literatura soft, atitude soft perante a vida mais hard...
ResponderEliminarSeve disse...
EliminarEsta do Paul Auster ser um autor soft dá que pensar...afinal sou um ganda camelo........perante tanta intelectualidade
Bem, os alemães também têm horror à cabeça do peixe. Ficam extasiados quando nos vêem meter à boca sardinhas pequeninas fritas de uma vez. E as espinhas, na sua opinião, são altamente perigosas. Até me chegaram a perguntar, depois de eu ter aberto uma lata de sardinhas e me preparava para as comer, se eu não queria tirar as espinhas primeiro!
ResponderEliminarEnfim, hábitos...
Outra coisa que horroriza os alemães são os "olhinhos" do polvo, a maior parte deles é incapaz de comer polvo!
os seus títulos é que são extraordinários (o resto também, como é claro) gosto e sigo
ResponderEliminarObrigada!
ResponderEliminarEste texto lembra-me os meus meninos, que me pedem sempre para ver os dentinhos e os olhos do peixe no meu prato (no deles já aparece o peixe devidamente processado e sem espinhas, claro).
ResponderEliminarConfesso que a única vez que comi umas avezinhas de caça (creio que codornizes) me fez imensa impressão vê-las ali quase inteiras no prato. E, no entanto, ajudei a estripar muitos coelhos e a depenar algumas galinhas...
E tudo isto me fez lembrar aquele poema de Sophia
ResponderEliminar«As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas...»
que, em boa verdade, não tem muito a ver com o assunto.
e o Paul gostou?
ResponderEliminardo linguado, claro...;)
Gosto tanto do Paul Auster que estou disposta a perdoar-lhe essa falha. E, pensando bem, muitos de nós talvez não conseguissem dar cabo de uma "rib" nova-iorquina com a mesma destreza de um nativo.
ResponderEliminarAproveito a deixa para lhe agradecer as horas extraordinárias que me tem proprocionado. Sinto desenharem-se-me sorrisos na cara quando leio os seus posts.
Obrigada
Seve disse...
EliminarVERTIGO foi o último que li do Paul Auster; já leste?
É um dos meus preferidos, em empate técnico com o "Palácio da Lua" e o "Leviathan".
EliminarMaria do Rosário porque não deixou esse trabalho para o Manel? Afinal não era o Manel o editor? Aí papeis femininos papeis masculinos quando nos deixam?
ResponderEliminarPelo Paul Auster, a mim também não me custaria nada! Apesar de detestar ver no prato peixes com cabeça e os dentinhos à mostra...
ResponderEliminarFora de brincadeira, o que lhe pareceu o escritor pessoalmente?
Seve disse...
ResponderEliminarPALÁCIO DA LUA, ainda não li....mas fiquei curioso. Obrigado pela sugestão
Muito bom post, by the way
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