O lugar do morto

Conheço muitos escritores, não só dos livros, mas da vida – pois, como editora (e poeta às vezes), já estive com dúzias deles nas minhas várias salas de trabalho, em lançamentos, acontecimentos oficiais, festivais e encontros literários quer em Portugal, quer no estrangeiro. E há de tudo, evidentemente, porque, antes de serem escritores, são seres «humanos» como todos os outros e, portanto, não constituem excepção na diversidade. Alguns surpreenderam-me pela positiva, conservando uma admirável modéstia quando a obra já os consagrara como génios; outros, porém, apresentaram-se muito diferentes do que os imaginei enquanto lia os seus livros e revelaram egos tão gigantescos que quase senti ter sido melhor não chegar a conhecê-los pessoalmente. Mas houve uma história que me fez deixar de ler definitivamente um certo autor. Trabalhava eu então no escritório que organizava a presença de Portugal como país convidado da Feira Internacional do Livro de Frankfurt em 1997 quando fomos informados de que o poeta Al Berto (um dos convidados) tinha morrido. Pois no meio de uma consternação que durou semanas, se não meses, chegou uma carta de um escritor que não fora escolhido para ir à Alemanha, dizendo – vejam só – que, como Al Berto já não se poderia deslocar ao certame, ele próprio estava disponível para o substituir. Ficou em Portugal, bem entendido.

Comentários

  1. O título do post está "bem apanhado". Parabéns!

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  2. Quando esse autor (o tal que pretendia substituir o Al Berto) não puder, eu posso ir no lugar dele. Não sou escritor (pelo menos que eu saiba), mas posso ajudar a desembalar os livros e aproveito para passear.

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  3. divinamentente absurdo - há mesmo pessoas assim???

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  4. Pois no espaço académico é exactissimamente a mesma coisa. Igualzinho!

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  5. Por acaso também gostava de ir a Frankfurt, já comecei a escrever e tudo, posso candidatar-me?

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  6. In illo tempore…

    O POETA MORTO

    Barbearam-no e vestiram-no de preto,
    Calçaram-lhe sapatos de verniz,
    Moscas varejas chupam-lhe o nariz,
    E ele mantém-se pálido e correcto.

    Cheira a cera no quarto, já repleto
    Do que há de mais distinto no país:
    ... Um general, dois lentes, um juiz...,
    Com ar triste, imbecil, grave e discreto.

    Logo, os críticos sérios e carecas
    Folhearão no pó das bibliotecas
    Um livro caluniado enquanto vivo.

    Esse a quem chamam hoje ilustre e augusto
    Porque... porque ele, agora, é inofensivo
    Como qualquer estampa ou qualquer busto!

    José Régio

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  7. Sobre Al Berto havemos de falar. Estava eu em Coimbra quando me foi contada uma cena homofóbica acontecida no Bar Dom Dinis, lá perto, numa sessão em que o próprio lia a sua poesia. Esse momento, pelo absurdo e pelo obtuso, foi destilado e simplificado, para não morrer, como ele. Em palavras, claro.
    Sobre Al Berto havemos de falar.
    Mas deixar este marcador.

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