O editor e o marketing
A edição mudou imenso nos últimos vinte anos, e costumo dizer que, se quando comecei a trabalhar como assistente editorial eram os autores que estavam no centro de tudo, pois agora parece que são os leitores que comandam as escolhas dos editores, levando-os, inclusivamente, a encomendar livros que julgam agradar a uma grande parcela da população. Talvez seja, porém, excessivo pôr as coisas nestes termos, pois, em alguns casos, terá sido sempre assim. Digo-o por causa de uma história que o Manel me contou, lida num ensaio francês sobre o marketing do livro. Ela aí vai: O senhor Hachette (esse mesmo, o fundador do monstro editorial Hachette) fazia, pela primeira vez, a viagem de comboio entre Paris e Deauville e, observando os passageiros calados e levemente entediados, chegou à conclusão de que aquele era um verdadeiro tempo de leitura, tanto para adultos como para crianças. Perguntou então à senhora que o acompanhava, ainda jovem, se seria capaz de escrever uma colecção de histórias para crianças. E a dita senhora – que não era senão a Condessa de Ségur – aceitou, nascendo dessa pergunta uma das colecções de livros para raparigas mais famosas de sempre. Como se vê, não é só hoje que os editores (espicaçados pelos directores de marketing) encomendam livros sobre este ou aquele tema a esta ou àquela pessoa. Na verdade, muitos editores já faziam marketing há décadas, mesmo sem conhecerem bem o que a palavra queria dizer.
Mas conhecerão os nossos editores a realidade portuguesa e os reais e/ou potenciais hábitos de leitura dos nossos compatriotas que ainda entram em livrarias, que páram nas secções de livros dos supermercados, que têm a experiência de ter lido ou folheado um livro e que têm dinheiro para comprar, pelo menos, um livro? Talvez devessem frequentar mais os transportes públicos lusitanos do que as feiras internacionais...
ResponderEliminarTalvez de tudo um pouco. O livro não deixa de ser um negócio, que dá de comer e beber a muita gente...
ResponderEliminarhá uma história semelhante que envolve o senhor allen lane, alguém que verificou nos anos trinta que muita gente gostava de ler nos comboios para londres, mas não havia edições de bons títulos num formato de bolso e a preço acessível.
ResponderEliminaro senhor lane pôs a ideia em prática, fundou a penguin books em 1935 e consta que um ano depois já tinha vendido mais de um milhão de livros - e sobretudo clássicos.
Bom dia
EliminarAbençoado Sr Lane. Sou fã dos livros de bolso e fico feliz por ver que, finalmente, começa a haver alguns destes livros em Portugal. Por enquanto ainda estou na fase de já ter, noutras edições, a maioria desses livros. Espero que este mercado tenha sucesso. Editores, escritores e leitores irão ganhar com isso.
Boas leituras
Seve disse...
ResponderEliminarMarketing......então não passou o sapateiro a ser um manufactor de calçado....
Li meses atrás um artigo de Regina Dalcastagnè chamado "A personagem do romance brasileiro contemporâneo", resultado de uma pesquisa através da qual ela identifica características de autores e personagens (sexo, faixa etária, orientação sexual, cor, etc.) de romances publicados a partir de 1999 pelas 3 maiores editoras brasileiras.
ResponderEliminarUma de suas conclusões foi: "Falta ambição à nossa literatura. Falta ambição na acomodação com a temática modesta, com o insulamento no mundo doméstico das classes médias brancas, com o apego referencial à realidade mais imediata".
Ao final da leitura, anotei à margem do texto: esta "falta de ambição" não seria mais dos leitores do que do escritor proprimente dito?
Pertinente a minha dúvida?