Há ecos e Ecos

Diz-se que o jornalismo vai de mal a pior – e que o jornalismo cultural é cada dia menos culto. Claro que há excepções, mas conheço muitos episódios que corroboram a ignorância e a falta de profissionalismo de pessoas ligadas à comunicação social que cobrem a área dos livros. Contaram-me, por exemplo, que, quando Umberto Eco esteve em Portugal, os jornais e as revistas puseram-se todos em fila para entrevistar o grande mestre que, num hotel da capital, ia recebendo os seus representantes de meia em meia hora – e respondendo, provavelmente, às mesmas perguntas com a maior paciência do mundo. Mas parece que um dos jornalistas (penso que do extinto Independente) se sentou à frente de Umberto Eco e começou a entrevista por: «Que tipo de coisas é que escreve?» O grande senhor recusou-se, claro, a responder ao sujeito, podendo descansar meia hora até à entrevista seguinte. Mas há uma história ainda melhor (ou pior). Marie Darrieussecq escreveu um livro (Estranhos Perfumes) cuja protagonista, para abreviar, se transforma em porca – e a metamorfose, recordo-me, começa justamente pelo crescimento de oito tetas. Ora, estando a autora em Portugal para o lançamento da tradução, conta o seu editor que um jornalista que pedira para a entrevistar lhe terá perguntado se a obra era autobiográfica… Ecos da falta de leitura, suponho.

Comentários

  1. Curiosamente ambas as perguntas poderiam ser interessantes com pequenas alterações, mas para isso convinha de facto ter lido os autores. Ao Eco não seria descabido perguntar "Como classificaria a sua literatura?" e à Marie Darrieussecq perguntar-lhe se aquele relato violentíssimo foi despoletado por algum acontecimento na sua vida.
    Confesso que o "Estranhos Perfumes" foi um dos livros escritos por mulheres que mais me impressionou e de que mais gostei.

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  2. Escrevem sobre livros e não os lêem?

    Um livro estranho, o Estranhos Perfumes. Foi-me oferecido por uma amiga que agora tem funções idênticas às minhas na concorrência.

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    1. É verdade, infelizmente.
      Sobre livros e sobre filmes. Pelo menos. O resto já não sei mas...

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  3. Quatro notas:
    - A maioria dos jornalistas das gerações mais recentes (incuindo os que faziam serviços exteriores há dez anos) cresceu em casas - a maioria delas, no país - sem livros e sem hábitos de leitura e cultivam com grande prazer a ignorância preguiçosa.
    - O "jornalismo cultural" na área dos livros (e, em grande medida, do cinema) extinguiu-se.
    - A "crítica literária" (pressupondo que os seus autores liam, honestamente) também se ausentou e/ou foi expulsa dos jornais e das revistas.
    - Lembremo-nos, com o adequado e cauteloso saudosismo (para não parecer mal...), dos "suplementos literários" e das secções de artes e livros do DL, da República, do Diário Popular, do DN, do Seculo, até de A Capital e de o diário.

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  4. Ignorância? Falta de cultura? Ou apenas vontade de "dar nas vistas"?
    Normalmente, quem tem destas falhas não as revela tão aberta e laconicamente. O contrário é mais usual: o usar de mil e um subterfúgios para disfarçar a falta de leitura...

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  5. Querida Rosário,

    1) não me parece que, tendo assim sucedido, o grande Eco tenha tido a melhor atitude, precisamente porque a que lhe surgiu era uma oportunidade de ouro, não para humilhar, mas para ser humilde e elevar o nível. Vejo mal isso do estatuto na arte, muito mal.

    2) e sobre o (ausente) jornalismo cultural muito haveria a dizer, mesmo muito. Curiosamente, se já andava atento ao fenómeno, mais fiquei quando, recentemente, alguém me disse que os lançamento de livros, praticamente, não têm jornalistas. Só os grandes, exactamente os que não precisam, ou precisam menos. E fiquei de lutar no meu talhão para que esse estado de coisa mude um bocadinho.

    Beijinhos muitos, P

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  6. É verdade que uma das entrevistas mais constrangedoras que vi na televisão foi a Luís Sepúlveda aqui há uns anos. As perguntas eram tão descabidas que o desgraçado tinha franca dificuldade em arranjar assunto para lhes responder de forma coerente.

    Foi quase tão mau como quando a Judite Sousa entrevistou o Bill Gates , meu Deus.

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  7. Sei que é triste e, da minha parte, até um pouco sádico... mas adoro quando se apanham as pessoas em tropeços destes...

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  8. É cómico e, ao mesmo tempo, trágico! Isto vai de mal a pior, realmente...

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  9. Façam o favor de ver o filme Notting Hill , nas cenas onde o Hugh Grant , fazendo-se passar por um repórter do Horse &Hound, é "obrigado" a entrevistar os actores do filme onde a "Anna Scott" entrou. E comparem com a(s) cena(s) aqui descritas.

    Não é só em Portugal e não é só sobre livros que essas cenas acontecem, de forma a que até são caricaturizadas em filme.

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