África minha
Em todos estes anos que trabalhei com novos autores de língua portuguesa, raramente me vieram parar às mãos livros de africanos. E agora, de uma assentada, apareceram-me dois – e ainda bem, porque têm sido mesmo horas extraordinárias de leitura. De um deles, O Novíssimo Testamento, do cabo-verdiano Mário Lúcio Sousa, já aqui falei ao de leve e voltarei a falar mais perto da publicação; do outro, começo por dizer que é das coisas mais bonitas que li nos últimos tempos (e a autora condiz com o livro, garanto). O romance chama-se Os Pretos de Pousaflores, foi escrito por Aida Gomes da Silva, angolana, e conta a história de uma família (um branco com três filhos mulatos, todos de mães diferentes) que, depois de rebentar a guerra civil em Angola, vem para uma aldeia beata e atrasada de Portugal, encaixada entre serranias, ribeiros conspurcados e um frio de rachar. O choque é brutal (em Luanda a vida era então muito mais cosmopolita do que em Lisboa, imaginem numa aldeola) tanto para os que vêm de África como para os retrógrados da aldeia, para quem um preto é quase uma maldição. Contado a várias vozes (completamente distintas, e aí reside um savoir-faire invejável), deixa-nos acompanhar o futuro sempre periclitante das personagens e é, ao mesmo tempo, poético, comovente, informativo e, por vezes, muito divertido. Tornarei a este livro, claro. Agora foi só para destapar a pontinha do véu.
Isto é tortura, Rosário. Pura tortura:). Não se faz, principalmente sabendo que atravessaremos o Verão sem lhes deitar a mão:).
ResponderEliminare a minha whishlist que cresce, cresce, crescs sempre que venho ao "horas"...
ResponderEliminarnão se faz!
Minha querida, se continuas a sugerir leituras, a esta velocidade, passaremos das horas extraordinárias a quase trabalhos forçados ;-). Mas continua, continua. Beijinhos e obrigada
ResponderEliminarAldeia beata e atrasada..sim, talvez, mas uma aldeia muito querida onde nasci, e que não merecia da sua parte comentários tão depreciativos.Por acaso sabe do que está a falar.Sabe ao menos onde fica.
ResponderEliminarOs Pretos de Pousaflores. Pousaflores é uma terra muito diferente do que para aí se diz: Beata? Talvez uma pequena Vila, com ma pureza natural, onde nasci e que não troco por todo o mundo quer conheço. www.pousaflores.net
ResponderEliminarpois de facto é com muita magoa que leio os seus comentarios em relacao a uma aldeia da minha freguesia.
ResponderEliminarcom certeza nunca foi ou nunca ouvio falar sequer para publicar tais adjectivos!
lamentavel....
serao estes os novos criticos??
Na verdade, ainda não li "Os Pretos de Pousaflores", mas estes comentários despertam-me a curiosidade e prometo que serei uma próxima leitora. Talvez, depois, tenha mais observações a fazer! Lamento, no entanto, que a autora, imbuída que está no mundo civilizado, nunca chegue a passar por aqui o seu olhar, não terá, por certo, tempo para estas "futilidades"! Mas, aqui vai:
ResponderEliminarNão guardo a mesma angústia dos comentadores anteriores, pelo contrário. Orgulho-me de ter nascido nessa terra "Beata". "Beata", sim, pela aura divinal que lá se sentia, "Beata", pelo culto religioso organizado que me unia aos outros da terra e me fazia senti-los a minha família. "Beata" pelos valores que lá aprendi, que todos nós, os da terra, aprendemos e que carregamos entre a distinta "gente civilizada".
"Retrógrada"? Sim. Na simplicidade, na honestidade, na generosidade, no sorriso aberto e desinteressado das gentes. Retrógrada, mas não no interesse pelo mundo que nos rodeava, não na valorização do trabalho, da ciência, da política, das artes e das letras, como comprovam os muitos descendentes deste paraíso, espalhados pelos vários cantos do Mundo.
"Ribeiros conspurcados" é que não! Isso não!
Que água mais límpida e pura poderia correr nos riachos da minha terra?! E que ar mais puro se pode respirar?
Não censuro, apesar de tudo, a autora. Compreendo-a. Vejo-a como alguém que desfaz, amachuca, destrói, vandaliza o que não é seu porque não o ama. Mas a sua intenção de amachucar não dói, acredite, a quem sentiu, sente e ama Pousaflores. Ficou só a sua intenção.
Fica aqui a minha promessa de um dia revelar não só os "pretos de Pousaflores", mas todas as suas cores.
E para provar a minha condição e o meu orgulho de "Beata", aqui vai o meu nome:
Maria de Fátima Jesus S. Deus