A vida é bela

Fui sempre uma pessoa de letras e, nos meus tempos de estudante, as minhas notas a Ciências da Natureza eram apenas sofríveis (embora adorasse Botânica) e raramente tinham dois dígitos as que conseguia a Física e Matemática. Só descobri que a ciência podia, de facto, ser uma coisa apaixonante quando comecei a trabalhar no mundo da edição e me estreei numa editora que se dedicava especialmente à divulgação científica. Mas, entre todos os livros cuja revisão acompanhei nessa altura, houve um que me marcou para sempre – talvez até por estar ligado ao destino da espécie humana e à dose de acaso que fez com que pudéssemos aqui estar hoje, quando os dinossauros, que eram infinitamente maiores do que as pequenas criaturas donde provimos, foram extintos e passaram a lenda. Esse livro chama-se A Vida É Bela e foi escrito por um cientista, Stephen Jay Gould, que infelizmente morreu há alguns anos. Está maravilhosamente escrito, é de uma extraordinária clareza e lê-se como um romance de aventuras. Além disso, tem umas ilustrações belíssimas de uns seres assustadores que conviveram com os organismos nossos antecessores e que teriam dado cabo deles se não tivessem desaparecido mesmo a tempo. Vale a pena, ainda que nos consideremos pessoas de letras.

Comentários

  1. A colecção Ciência Aberta há muitos anos que publica livros que provam que a Ciência é Bela. Mais, recentemente surgiu a colecção Filosofia Aberta que faz o mesmo em relação à Filosofia.

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  2. A ciência tem o poder de nos fazer apaixonar pelo mundo com outros olhos. Os olhos de quem descobre como funcionam as leis da física e da química. De quem traduz essa língua universal que é a matemática. Quando as aprendi, porque sou de ciências, achava que eram apenas números. Equações que se equilibravam em ambos os membros. Hoje olho para esses números como uma forma de descodificar o mundo. Mais uma forma de poesia.

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  3. ... sobre homens de letras e a sua relação com a ciência, recordo sempre esse maravilhoso texto borgesiano " (outro adjectivo literário - e este é-me especialmente querido, por ser borges também) incluído na "história universal da infâmia":

    «Sobre o Rigor na Ciência

    …Naquele império, a Arte da Cartografia alcançou tal Perfeição que o mapa de uma única Província ocupava uma cidade inteira, e o mapa do Império uma Província inteira. Com o tempo, estes Mapas Desmedidos não bastaram e os Colégios de Cartógrafos levantaram um Mapa do Império que tinha o Tamanho do Império e coincidia com ele ponto por ponto. Menos Dedicadas ao Estudo da Cartografia, as gerações seguintes decidiram que esse dilatado Mapa era Inútil e não sem Impiedade entregaram-no às Inclemências do sol e dos Invernos. Nos Desertos do Oeste perduram despedaçadas Ruínas do Mapa habitadas por Animais e por Mendigos; em todo o País não há outra relíquia das Disciplinas Geográficas.»

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  4. adorei esse livro. tenho-o ali e por causa dele comprei uma série dos da Clara Pinto Correia (a associação é possível por causa da publicação simultânea) . O Ovário de EVA faz referências ao autor

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  5. Há um outro livro de Jay Gould muito bom também, e com um título magnífico: O Sorriso do Flamingo. Porque aquela forma particular de ele comer tem os seus quês... uma maravilha. Curiosamente, a partir de um texto de Jay Gould, escrevi um conto. A ciência também ajuda a literatura.
    Parabéns, Rosário, por estas suas pequenas pérolas, todos os dias.
    Um amigo

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