Um episódio

Numa livraria do meu bairro, em vésperas de início de mais um ano lectivo, um adolescente perguntou ao «livreiro» se tinha, por acaso, um livro de Filosofia chamado Siddharta. Eu sorri para logo me arrepender: o livreiro disse-lhe que não havia nenhum livro de Filosofia com aquele nome e que o rapaz devia ter copiado mal a lista de livros escolares a comprar… Bem sei que hoje também há muitos leitores que nem sabem o autor do livro que andam a ler, mas, se os professores de Filosofia da Escola Secundária aconselham a leitura deste livrinho de Hermann Hesse, não deveriam sabê-lo os que vendem livros, até para se apetrecharem e poderem facturar? Ajudei o aluno, mas o livro não estava disponível. Em todo o caso, esta história serve-me para duas coisas: a primeira para confessar que, apesar da tradução estranha (onde se encontram palavras como «amorável» e outras esquisitices), prefiro claramente Narciso e Goldmundo a Siddharta – um livro que também é sobre a amizade (e que serviria aos professores de Filosofia para ensinar muita coisa, garanto); a segunda é que tenho saudades dos livreiros cultos. Agora existem poucos assim – e dizem-me que um deles está na Pó dos Livros (parece que é especialista em Camilo, ainda por cima). Vão lá e aproveitem para conversar – e, se nunca leram Narciso e Goldmundo, aproveitem também para o ler.

Comentários

  1. Bem... o livreiro devia ter o livro, vendê-lo ao miúdo, e deixá-lo descobrir... enfim... Não sei porquê, mas estou a imaginar o livreiro "de trombas" a dizer: «não temos!»

    A Pó dos Livros... hum... :)

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  2. Um sonho:
    Em cada editora uma livraria aberta à presença dos responsáveis pelos livros, nomeadamente os autores, aberta ao diálogo informado com os compradores... com os leitores informados e críticos... ou ingénuos...
    Ou,pelo menos,uma qualquer espécie de canal directo/presencial entre editor e leitor...

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  3. boa tarde. duvidas... o que é um livreiro culto? como é que se pode "formar" um?
    cumprimentos
    rui

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    1. Faz muito bem em colocar a questão, até porque nada garantiria que um catedrático a trabalhar numa livraria encontrasse ou soubesse de todos os livros pedidos pelos clientes. Mas talvez pudesse haver nos grandes espaços uma espécie de «livreiro à antiga» que acompanhasse a saída dos livros, os programas de ensino, tivesse lido bastante (livros ou sobre livros) e pudesse prestar esclarecimentos aos clientes se um jovem vendedor não soubesse responder.

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    2. divagando... acredito que nos grandes espaços pudesse existir uma pessoa com essa função todavia... custa me a crer que alguma empresa tivesse interesse em ter um empregado cujo trabalho não se pode quantificar em euros. eu, pessoalmente, quando encontro um livreiro à antiga perco me a conversar com essa pessoa. encontro uma dificuldade enorme para o livreiro à antiga, pois hoje são editados muitos livros diariamente e não seria simples absorver tudo o que sai para o mercado.
      cumprimentos

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    3. Quando trabalhava em Lisboa e ainda existia a Parceria A.M.Pereira, quase todos os dias por lá passava. Nas secções que me interessavam sabia quase todos os livros que lá estavam e não me escapava uma novidade. Para quem lá “vivia” era ainda mais fácil.
      No Porto, chegava à Leitura e era só perguntar pelo livro x ou y e imediatamente alguém me dizia onde procurar. Há umas semanas fui lá e pedi um livro. Desconsolo dos desconsolos: o funcionário (não posso dizer livreiro) teve que ir ao computador. E não era um desses jovenzitos a recibo verde para além de o livro ser de um autor mais que conhecido.
      Dramático: Há três ou quatro anos, na Bertrand do Chiado procurava um livro de poesia da Maria Rosário Pedreira. De quem? E lá foi ver ao computador. Não tinham.
      Surpresa das surpresas: Na FNAC do Mar-Shopping, um jovem de talvez vinte anos, ao perguntar-lhe por um livro, simplesmente dirigiu-se para a prateleira e trouxe-mo. Melhor ainda, sugeriu-me um outro que no seu entender era melhor e ainda me falou de mais dois. Ainda há esperança.

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  4. Joao Tomas Castro Melo26 de maio de 2010 às 15:27

    Essa dos "livreiros cultos" revela assim, como dizer isto, uma certa inocência do saber... Quem iria definir o que era um livreiro culto? A Maria do Rosário? Eu acho que quando diz livreiro culto, refere-se a um tipo de pessoa que simplesmente gosta de livros, e além disso, gosta de falar sobre eles... acho que é mais ou menos isso. Se for isso, aí já concordo plenamente consigo. :)

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  5. olha que giro! o Narciso e Goldmundo é um dos meus livros mais que tudo. li ambos e claramente também prefiro a história de vida dos dois amigos que me faz chorar que nem uma madalena cada vez que o acabo, fico inconsolável. tentei o jogo das contas de vidro mas talvez quando for grande, que agora não tenho muito tempo e é tramado de se entrar nele.
    a propósito de livreiros incultos, deixo a sugestão, http://melroazul.wordpress.com/2010/04/06/gutha/
    estes casos acho-os mais bicudos, e tristes...

    saudações literárias desta que há muito que não lê nada de uma ponta à outra e agora se despede

    melro azul

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  6. Parabéns pelo blogue - que só ontem descobri e linkei ao meu!
    Continue!

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  7. Embora não seja frequentadora de blogs e o trabalho de tradução dê poucas tréguas, tenho encontrado sempre tempo para ler os seus textos. Obrigada pelo alerta, querida Rosário.

    Quanto a livreiros, encontrei um na «Bulhosa» do Campo Grande que ainda não sei se é «culto» - embora suspeite que sim - mas que, pelo menos, é prestável e interessado e não vende livros como se fossem batatas, o que já vai sendo raro.

    Ana Falcão Bastos

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    1. o ultimo comentaria diz algo muito importante.
      "e não vende livros como se fossem batatas." entendo que isto é o que poderá diferenciar os livreiros. a forma como tratam os livros. de uma forma mercantilista ou com prazer da profissão que exercem

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  8. A propósito de vende batatas trabalhei muitos anos com um “Livreiro” que tinha como máxima: “Vender livros é como vender batatas”. Provavelmente tinha razão, até porque fez fortuna. Mas também é verdade que engordou muito com excesso de puré e batatas fritas. Enquanto, eu fiz dieta com sopa de letras.

    Já agora o livreiro culto e especialista em Camilo chama-se Carlos Loureiro.

    Jaime Bulhosa

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  9. Também pensava em livreiros "à antiga" até conhecer o João da Ler Devagar. Tem vinte e poucos anos, uma cultura enorme, gosta de ler (e lê).

    Talvez não seja muito objectivo (o meu escritório é na LD) mas tenho a vantagem de o ver quase todos os dias e confirmar esta opinião com uma frequência que ao princípio me surpreendia muito, e agora um pouco menos.

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  10. Recomendo este livreiro: http :/ chapeuebengala.blogspot.com /

    (e sabe tudo o que lhe perguntamos sobre livros)

    ~CC~

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  11. Vou bastante a livrarias, mas não converso muito com livreiros. Tenho-lhes uma admiração guardada, como se o simples estar perto dos livros os faria diferentes e 'do bem', mas não converso muito. De um modo ou de outro, apesar de estar do outro lado do Atlântico, leio regularmente o blog da Pó dos Livros e creio, se estivesse em Lisboa, acho que passaria a conversar com livreiros.

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