Romance ou novela?

Por razões que não interessa aqui explicar, veio parar-me às mãos um pequeno livro de bolso dos anos 50, de um senhor chamado Paul Morand que, apesar de ter pertencido à Académie Française, é praticamente desconhecido em Portugal. Desse livro não falarei, porque mal iniciei a leitura; mas no prefácio encontrei algumas pérolas em defesa da novela (contra o romance?), que era, pelos vistos, o género em que este autor pontificava. Aí vão algumas:


«Ao organismo invadido pela celulite [o romance], prefiro o corpo magro e seco da novela


«Um romance, mesmo medíocre, pode conter boas páginas; uma novela não; como na arte do fresco, por menor que seja, um erro é sempre irrecuperável.»


«A novela é como uma noite num motel americano; recebe-se das mãos do porteiro as chaves do bungalow e depois é tudo self-service e cash and carry. O leitor recebe o tempo e o espaço na mesma embalagem.»


«Num romance a personagem instala-se, deixa de ser o inquilino para se tornar o senhorio. Numa novela, não, a personagem está sempre acampada. A novela é um móvel, o romance um imóvel.»


Se gosta de novelas (ou romances mais curtos), não deixe de ler um maravilhoso livro de Olivier Rolin, Porto Sudão, que a ASA publicou há muitos anos. Procure-o, se for preciso, num alfarrabista.

Comentários

  1. Já tinha lido mais ou menos o mesmo em relação ao conto, e confesso que não deixo de dar razão ao senhor. Principalmente quando leio "romances" que nem o sumo de um conto têm. Curiosamente, ainda ontem ouvi o António Lobo Antunes, ao apresentar o novo livro do Pedro Rosa Mendes, dizer coisas que me pareciam ir no mesmo sentido.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Sem esquecer «Paisagens Originais»: autores romanceados, breves novelas sobre autores?

      Eliminar
  2. Está no link abaixo a 3 aeriozitos:).
    As palavras sobre romance e novela são, efectivamente, pérolas:).
    Então aqui está o "Porto Sudão":
    http://www.leiloes.net/PORTO-SUDAO-----Olivier-Rolin----,name,49068307,auction_id,auction_details

    ResponderEliminar
  3. Maria João Lourenço21 de maio de 2010 às 23:38

    Partilhamos sentimentos, em relação aos telemóveis e às novelas. As vezes que li «Porto Sudão», Maria do Rosário, precisamente por o livro que é, pequeno e palpável, grande literatura, contam-se pelos dedos; o que se calhar já fica por contar é o número de vezes que o dei a ler e falei dele e do Rolin. «Águas Negras», na mesma colecção dos Pequenos Prazeres»: aí tem outro que tal, da Joyce Carol Oates, escritora tão esquecida dos editores portugueses. Quem me dera traduzi-la, eu que a devoro na língua-mãe e tenho uma prateleira da estante cheia de livros por verter para português. Gosto do blogue, vou andar por aqui nos tempos mais próximos. O amor pelos livros cria cumplicidades muito fortes, mesmo à distância.

    ResponderEliminar
  4. olá Rosário,
    tenho esse romance do Olivier Rolin. sempre gostei muito desse livro, é um maravilhoso exemplo da "novela".
    Pena que a palavra "novela", entre nós, esteja associada ao que passa na televisão depois do telejornal...

    ResponderEliminar
  5. Palavras muito interessantes sobre a novela.
    E mais um livro para andar à busca num alfarrabista... ultimamente é o que me acontece...

    ResponderEliminar
  6. acho que sim...

    e se pensar nos livros "modernos" de mais de quinhentas páginas (salvo raras excepções...), as nossas mãos pingam de "banha", muitas vezes da cobra...

    ResponderEliminar
  7. Extraordinário sim, esse livro do Olivier Rolin . A partir daí procurei ler tudo dele, mas nada me satisfez tanto como essa história. Como com a amada, ficou o livro nos lençóis do pensamento nunca mudados. Com seus finos cabelos na memória. E tenho-o autografado, Feira do Livro, ano da Invenção do Mundo. Bem vinda à blogosfera .

    ResponderEliminar
  8. Na verdade, "nouvelle" em francês designa o nosso conto, e somente às vezes a nossa novela. Nao ha em francês um termo para designar o que chamamos de novela. A palavra "conte" refere-se aos contos de tradiçao oral (os de Trancoso por exemplo) ou às "short stories" de E.A.Poe por exemplo. Também se utiliza o termo "conte" para falar por exemplo dos contos de J.L. Borges, talvez por influencia do termo espanhol.
    Assim Pauil Morand compara na verdade o romance e o conto.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. A palavra, julgo eu, era tão depressa nouvelle como récit. Porque o conto dele tinha 120 páginas... Desculpe a imprecisõ, contudo.

      Eliminar
  9. "Port-Soudan" de Olivier Rolin : um inesquecível escaldão metafórico...
    C. Drios

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório