Estantes que falam

Casei-me com um editor (muitos sabê-lo-ão) mais velho do que eu (mas muito mais jovem do que eu). Na nossa casa há, como podem calcular, estantes cheias de livros: as dele, as minhas e a nossa (mais dele do que minha porque eu, dada a falta de espaço, já só compro livros que tenho a certeza de vir a ler). No fim-de-semana passado, durante um telefonema da minha mãe demasiado longo a que já não conseguia prestar atenção, reparei que os livros das nossas estantes contam muita coisa sobre nós, incluindo a diferença de idades (que não nos separa). A estante do Manel tem imensos livros franceses (é a geração que aprendeu com a cultura francesa), a minha tem inegavelmente mais autores anglo-saxónicos (muitos são poetas). A do Manel tem todos os clássicos portugueses (e lidos), a minha é de uma pobreza confrangedora nesse sentido (vê-se bem que já havia televisão quando eu era adolescente, com séries à hora de almoço e tudo). A do Manel tem um sem-número de ensaios políticos (muitos pró-soviéticos e hoje datados e ilegíveis) que denunciam o seu passado interventor, na minha alinha-se uma série de títulos de divulgação científica (género que teve o seu apogeu nos anos 90 a par da transmissão de séries televisivas como Cosmos ou O Homem Verde e que também revelam os meus primeiros passos na edição, pois foi na Gradiva que comecei). A do Manel tem prateleiras só de teatro, a minha está cheia de guias turísticos dos tempos em que eu andava por aí a coleccionar países desenfreadamente. Temos, claro, livros repetidos (esses são as nossas afinidades). De vez em quando, dizemos um ao outro que todos os livros que existem nesta casa (e o resto) são dos dois; mas alguém um bocadinho mais culto, se olhar as estantes com atenção, saberá imediatamente de quem é o quê.

Comentários

  1. Ricardo Miguel Costa28 de maio de 2010 às 02:25

    "De vez em quando, dizemos um ao outro que todos os livros que existem nesta casa (e o resto) são dos dois;"

    Uma frase que é uma biblioteca inteira.

    (Fico feliz com o blogue sereno e sincero, Maria do Rosário. Cumprimentos.)

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  2. Como eu lhe invejo, minha amiga, essa certeza de já só comprar livros que tem a certeza de vir a ler! Não tanto pelo dinheiro que poupava como pelo tempo que ainda tinha para ler o que já não posso devolver às FNACS,AMAZONS e outros antros de tentação. Mas como a inveja não é boa conselheira, reformulo o que comecei por escrever: como eu fico feliz por si!

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  3. As escolhas das leituras não têm de estar forçosamente determinadas pelo contexto epocal. Pode sempre romper-se com as circunstâncias e ler, por exemplo, Os Indiferentes de Alberto Moravia ou Os Moedeiros Falsos de André Gide que andam esquecidos...
    Não ser circunstancial não significa não ser actual...

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  4. ( Que bom descobrir esta prateleira ... )

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  5. como eu gostava de conseguir comprar apenas os livros que sei que vou ler...

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  6. Adorei o post. Pelo delicado da relação ao telefone e pelo que passamos a fazer, pelo bonito da relação de casal, mas sobretudo pelo tanto de história que há aqui...

    Foi um olhar de historiador amante dos livros que vi ser tecido em suas palavras... Adorei!
    :)

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  7. Excelente post . Acontece-me o mesmo com a Teresa: a estante de poesia é a minha; a de ficção é a dela. É um jogo interessante descobrir coisas e de roubar livros à estante dela.

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  8. É bom ter visto a estante quando ainda é tempo e podemos celebrar-vos. Quando vi a estante do Régio, em Vila do Conde, onde passei tempos infinitos, encantado, senti-me descompensado. Não vou usar o estafado cliché de que esperava o pequeno grande homem no jardim, velhinho, para conversar. Mas já não é a primeira vez que sinto falta disso. Apesar de tudo, bons tempos estes em que a privacidade, de vez em quando, cede. Afinal de contas, somos todos de uma complexa e bela simplicidade. E tão parecidos.

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