Crianças desaparecidas
Quando Maddie desapareceu e, durante meses, não se falava de outra coisa em Portugal, estranhei que não tivesse renascido nas livrarias essa maravilha intitulada A Criança no Tempo, de Ian McEwan. Li tudo do autor (menos Solar, mas já o tenho) e, se me puser a pensar, continuo a dizer-me que não há outro livro do autor tão bom como esse. É certo que poderá ser um texto um pouco datado – e que quem não tenha vivido a era Thatcher, dificilmente atingirá na sua plenitude; é certo também que, apesar da tradução belíssima de Fernanda Pinto Rodrigues, o livro em português fica aquém do original (até porque Prime Minister não tem sexo – e em Portugal tem, e é masculino). Mas a história do homem que vai ao supermercado com a filha de três anos e a perde para sempre num instante de distracção é só o ponto de partida para um dos mais profundos romances que li sobre desespero, culpa, educação, tragédia, remissão, amor e política. No tempo em que o livro foi publicado, os computadores ainda estavam na pré-história e não apresentavam retratos aproximados de crianças desaparecidas ao longo dos anos; mas este pai de A Criança no Tempo nunca desiste de procurar a filha nos rostos de todas as crianças que têm a idade que ela vai tendo na sua ausência. E, simultaneamente (que ironia!), a sua ocupação é colaborar na realização de um manual estatal para a educação das crianças, que é um logro no qual um pai dilacerado não merecia ter caído. Sublime em todos os sentidos.
Olá
ResponderEliminarCheguei aqui através do nosso Amigo comum Jorge Reis-Sá. E em boa hora segui a recomendação dele.
Li "A Criança no Tempo" há muitos anos, quando estava a trabalhar na Comissão dos Direitos da Criança. Para mim, é um dos melhores romances de Ian McEwan, bastante melhor do que Amsterdam (cujo fim achei apressado e quase denotando enfado do autor para com a obra).
Há um filme português (neste momento não me recordo do nome) sobre o mesmo tema.
Se a morte de um filho é devastadora, o desaparecimento consegue ainda descer mais às profundezas do Inferno.
Abraços
O filme será «Alice» de Marco Martins?
ResponderEliminarLi num blog que Ian McEwan era pseudónimo de David Lodge. Isso é verdade? Se for os escritores são mesmo uns farsantes.
ResponderEliminarMas não pode ser, não quero que seja. Se Ian McEwan for David Lodge não leio mais nada de Ian McEwan...pelo menos até perdoar.
São dois escritores, muito diferentes na escrita e ao vivo! Garanto, pois já estiveram ambos em Portugal!
EliminarE se não fossem mesmo dois? Nenhum deles seria pseudónimo de nenhum deles, porque os dois são excelentes escritores. E essa dos "escritores farsantes" tem muito que se lhe diga, Henedina!
EliminarObrigada Rosário.
ResponderEliminarNão, seria um heterónimo Francisco.
E seria um excelente escritor (mas farsante conheço a cara dos dois).
Fui ler outra vez ao blog e realmente solar tem algo das trocas e do mundo é pequeno do Lodge.
ResponderEliminarPode ser intertexto.
troca
EliminarVou ficar atento às recomendações. Para já, algumas afinidades despertaram-me a curiosidade. Boas leituras!
ResponderEliminarPrimeiro assustei-me. Pensei: como é que uma mensagem do meu correio electrónico foi parar ao blogue da Maria do Rosário? Depois respirei fundo e pensei melhor. Sou míope, mas vejo bem ao perto, demasiado bem, por vezes. Acredita que escrevi um texto muito parecido a um amigo, e que já por mais de uma vez contei a história a quem me quis ouvir. Sou leitora fiel do Ian McEwan, adoro «A Criança no Tempo», ao ponto de o livro apresentar sinais desse desvelo que podem ser confundidos com descuido. Tantas e tantas vezes dei por mim a reflectir sobre essa questão, precisamente desse ponto de vista, que é como quem diz, a partir do caso Maddie, que ao deparar com o seu post tomei-o como se pudesse ser meu. Também eu me espantei por nunca ninguém, nenhum jornalista, ter abordado o caso pegando no livro do autor inglês, um manual extraordinário sobre a perda e não só. Estranho e delirante, sim, mas interessante para análise. Depois de cobiçar o nome do blogue, revejo-me na escrita e partilho temas e debates. Haverá psicanalistas que já começam a analisar casos destes? Por mim, prefiro desdramatizar e sugerir um almoço na cantina ou na «piscina seca», um dia destes...
ResponderEliminarmjl
Desse autor só li mesmo Amesterdão, mas confesso que tendo um filho pequeno não é história que me apele nos próximos tempos...
ResponderEliminarEscrevo-lhe porque na passada sexta falei justamente disto com um colega de trabalho: qual será o número real e concreto de crianças desaparecidas? Maddie foi um caso extraordinário de mediatismo, mas haverá assim tantas crianças desaparecidas hoje, no 1º mundo (na América Latina corta o coração ver retratos expostos nas vitrinas comerciais com apelos pungentes...)? Como diz o Dr Mário Cordeiro é mesmo o inferno, por não se poder fazer o luto...
Oxalá que esta triste realidade se confine cada vez mais à literatura!
Li "Primeiro amor, últimos ritos", de Ian McEwan , já lá vão mais de vinte anos!!! O tempo voa...também me lembro do "Jardim de Cimento", que era uma história assim um bocado macabra, perturbante, e que permanece connosco para o resto da vida.
ResponderEliminarO filme era "Alice" - exactamente.
ResponderEliminarLi «A criança no tempo», acho que todos os outros de McEwan e agora «Solar» (há tensão, mas não tanta como nos outros).
ResponderEliminarLeio agora algo que tenho recomendado a muita gente, também com uma criança como protagonista: «Como Deus manda», de Niccoló Ammaniti: muito violento mas muitíssimo intenso e bem escrito. Daqueles que, como gosto, me fazem sair de casa com vontade de chegar depressa à noite para lhe voltar a pegar.
Eu não me espanta que nenhum jornalista tenha pegado nesta questão de outra perspectiva. A mais poderosa e uma das mais irresponsáveis profissões dos nossos tempos, que subsiste sem uma regulação decente e sem reflectir, verdadeiramente, sobre si própria (e quando tenta, nunca o faz humildemente), não lê ou lê pouco e mal. O "fundo da questão" e a reportagem já não se usam. Então, se é possível fazer muito dinheiro com a maior porcaria...
ResponderEliminar