Coisas más muito boas
Sim, custa-me um bocado dizer isto, mas tenho esta fraqueza imperdoável: adoro as personagens más dos bons romances. Não, não estou a falar em personagens que o autor tenha deixado por incompetência a duas dimensões, estou mesmo a falar de maldade pura e dura. A maldade de uma personagem, sobretudo quando é subtil e inteligente – que querem? –, apaixona-me como leitora; e admiro os autores que conseguem pôr-nos logo do lado dos maus, porque os desenham tão geniais que não somos capazes de resistir-lhes. Em Uma Barragem contra o Pacífico, de Marguerite Duras – livro que toda a gente devia ler a par de O Amante (os dois, aliás, confundem-se na minha memória) –, a mãe da protagonista é uma má admirável (e a protagonista também não é muito melhor). Inesquecível a cena em que a mãe atrai um amante para a filha – porque precisam desesperadamente do seu dinheiro – mas, no dia em que ele lhes traz um presente enorme (na verdade, um gramofone), este fica durante toda a visita embrulhado e pousado numa mesa, sem que nenhuma delas pergunte sequer o que é.
"Sim, custa-me um bocado dizer isto, mas tenho esta fraqueza imperdoável: adoro as" pessoas inteligentes e subtis e nem páro para pensar se fazem mal e nem é só nos "bons romances."
ResponderEliminarMaria Rosário Pedreira descobri o seu blog através do Natureza do Mal e tive uma dose de reforço através do Mar Salgado mas nem precisava.
Conquistou-me no primeiro post. É para mim uma utilidade e uma delícia o seu blog.
Mulher inteligente e culta a fazer-me descobrir livros. Isto é serviço público.
Para isto (e não para pagar bancos) já daria os meus +1,5% de impostos.
Eu também adoro as personagens más.
EliminarObrigada! Acredite que os comentários também me ajudam muito. Um abraço.
EliminarTenho estado calado, mas, sentado ao fundo da sala, nadame tem escapado... Obrigado por tudo: pelo conteúdo e pela forma. Um regalo.
ResponderEliminarComo dizia o outro (acho que era o Oscar Wilde), «a estética é superior à ética»?
ResponderEliminarPassava os olhos pelo "Caldeirão Voltaire" quando leu que tinham começado as "Horas Extraordinárias"
ResponderEliminarSeria possível?
No início do ano, na caixa de comentários de um blogue ,deixou escrito:
"Numa entrevista Luis Sepulveda disse: “A vida em sociedade torna-se estranha quando nos aproximamos dos 60 anos; eu falo de livros que os outros não leram e os outros falam de livros que eu não tenho nenhuma vontade de ler.”
Concordou plenamente. Mas um dia surge a tal excepção. Em conversa com um jovem, este fala-lhe da poesia da Maria do Rosário Pedreira. Ele desconhece completamente. “Pois não sabe o que está a perder!”, atirou-lhe o jovem.
Maria do Rosário Pedreira é uma descoberta tardia. Uma maravilhosa descoberta.
“São assim as mais pequenas histórias do mundo”, tal como ela diz num dos seus poemas"
Um abraço.
Agradeço-lhe ter-me feito lembrar de uma autora que não leio há muito, talvez por ter sido uma verdadeira obsessão há coisa de 15 anos, A Duras tem dessas coisas, misturam-se-nos várias obras na memória.
ResponderEliminarQuanto às personagens más, bem, deverá ser como na vida, os homens e as mulheres mornas agradam a muitos poucos.
Uma personagem mázinha que muito me apraz, permita-me partilhar, é esse abrutalhado do Heathcliff
Dois livros tão extraordinários!
ResponderEliminarQue venham mais horas dessas/destas.
~CC~
A maldade é uma personagem que se lê em vários eixos. Um daqueles sólidos complexos que aprendemos a projectar em Rn. Custa-nos visualiza-la. Mas no final, depois de a interpretarmos nunca mais esquecemos a sua forma.
ResponderEliminarComo eu te entendo e, por outro lado, como eu te leio.
ResponderEliminarBeijinhos
na duras, não há personagens "boas". é, aliás, uma das questões centrais que atravessa toda a obra: o mal existe, seja na figura da mãe, na do irmão (tão dolorosamente amado), no amante chinês, no homem sem nome da maladie de la mort , na lol v.steiner , na mulher do camion , na anne marie stretter e mesmo na própria duras, quando, em registo autobiográfico, nesse espantoso livro la douleur , conta como ultrapassou todos os limites (do que entendemos por ética do Bem) para, segundo diz, atingir o sublime, na concepção dum bataille ou dum leiris .
ResponderEliminar