O regresso

Depois de há três anos ter publicado o seu quarto romance com a Casa das Letras chamado Velhos Lobos, Carlos Campaniço regressa com uma história claramente alentejana. Pouco depois do 25 de Abril, os trabalhadores rurais do Sul ocupam a terra dos latifundiários para quem trabalharam como escravos ao longo de décadas. Em Aldeia Velha – o lugar onde decorre a acção deste romance – a sociedade depara-se de repente com as mudanças criadas pela Reforma Agrária, mas também com as consequências do fim da Guerra Colonial e as novas liberdades trazidas pela Revolução. Veremos, por isso, como reagem os que perderam as propriedades (e se insurgem ou resignam com a situação) e os que continuam a trabalhar de sol a sol, embora agora para seu próprio sustento. E também os que, depois de terem lutado anos pela democracia, são agora membros do Partido e ocupam funções de relevo, ou os que acreditaram no mundo perfeito e vêem os seus sonhos esfarelar-se todos os dias. Mas há também coisas que nunca mudam, por mais que os tempos tenham mudado: a bisbilhotice, a mentira, a má-língua, a maldade, o sofrimento. Num romance em que a verdadeira personagem é a própria aldeia, é curiosamente o carteiro o elo de ligação entre todos, trazendo-nos a forma como cada um assimila os novos tempos e perspectiva o futuro. Porém, o muito que este homem cala é talvez aquilo que mais importa. Carlos Campaniço, no seu estilo inconfundível e com uma linguagem que é um tremendo veículo sensorial, oferece-nos com A Cinco Palmos dos Olhos uma obra profundamente original sobre o período da Reforma Agrária.index.jpg

Comentários

  1. Fiquei com "água na boca"...
    Boas leituras
    PS: A ler:
    La guerre de l'information - Les États à la conquête de nos esprits
    David Colon
    Tallandier Essais

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  2. António Luiz Pacheco6 de outubro de 2025 às 03:43

    "... os que continuam a trabalhar de sol a sol, embora agora para seu próprio sustento?"
    Peço muita desculpa, mas isso já acontecia antes das ocupações, aconteceu durante - se bem que só para alguns, pois outros se aproveitaram e bem (à custa do esforço dos outros)! - e continuou a acontecer. Sempre se trabalhou para o sustento próprio!

    Gosto da escrita de Carlos Campaniço, e irei ler mais este romance. Ele mostra bem o nosso Alentejo profundo, aquele que eu conheço até muito bem e revejo na sua escrita tudo o que vi, vivi ou ouvi contar, aos mesmos personagens... ainda recentemente referi aqui o livro do meu Amigo Mestre Joaquim Santos, homem do campo, caçador, matilheiro, operador de máquinas agrícolas, guarda de caça, que no seu modo simples e directo nos traz esse Alentejo que poucos conhecem, pois não é o das lendas e narrativas coloridas pelas ideologias ou pelos saudosos imaginosos que desde Lisboa escrevem sobre as suas fantasias, é o verdadeiro, aquele que encontro igualmente em Carlos Campaniço. E são as mesmas pessoas com as mesmas mágoas e angústias e os mesmos problemas e desagravos por resolver, os mesmos ódios ancestrais, pois no Alentejo remói-se por gerações e a vingança leve gerações!

    Saudações cá desde o Bairro Ribatejano.

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  3. "Mas há também coisas que nunca mudam, por mais que os tempos tenham mudado: a bisbilhotice, a mentira, a má-língua, a maldade, o sofrimento".
    Nada mudou no Alentejo.
    Deixaram de acreditar nos amanhãs que CANTAm para acreditarem nos amanhãs que CHEGArão.

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