Começar bem a semana
Sei que a maioria dos leitores deste blogue não costuma ler poesia. Sei-o até pela ausência de comentários quando é sobre poesia ou livros de poesia o post que aqui escrevo, mas não desistirei nunca de a mencionar, até porque acho que, em muitos casos, existe apenas preconceito e que a leitura de certos poemários tirarariam da boca de muitos o tal «não gosto de poesia» que tantas vezes vejo escrito ou ouço. O livro que hoje vos trago é, de resto, obrigatório para quem queira passar uma horas boas ou simplesmente espreitar de vez em quando. Porque reúne o melhor, a nata da nata, de muitos pequeninos livros dispersos por editoras várias e nem sempre fáceis de encontrar. Falo de Taludes Instáveis (Poemas Escolhidos), de José Carlos Barros (autor que já ganhou o Prémio LeYa com o romance As Pessoas Invisíveis), que foi prefaciado por Francisco José Viegas, outro autor de poesia e prosa e, além disso, um conterrâneo, uma vez que ambos os escritores são transmontanos e entendem muito bem a Natureza de que falam. José Carlos Barros, que foi um do autores descobertos pelo DN Jovem (como Riço Direitinho, José Luís Peixoto e tantos outros) é, quanto a mim, um dos poetas mais significativos da contemporaneidade e foi um prazer poder fazer este livro com ele. Já está, de resto, na minha cabeceira. Para ler e saborear aos poucos. Imperdível. Deixo-vos a capa e um cheirinho:
Pedia-te apenas
Lembro-me desse tempo em que dizias
«faço tudo por ti meu amor».
E eu pedia-te apenas que te suspendesses das nuvens
ou que caminhasses vagarosamente sobre as águas
dos grandes lagos
da península.

José Carlos Barros é, sem dúvida, um grande poeta. Quanto a mim, é na poesia, e não na narrativa, que ele encontra a Palavra. Não deixe de mencionar a poesia. Ainda há leitores que, ainda que não comentem, acreditam nas palavras de Vinicius: "Só a poesia pode salvar o mundo de amanhã".
ResponderEliminarA poesia parece ser algo para uma imensa minoria, não compaginável com a velocidade do dia a dia. Sonhar acordado é cada vez mais um luxo ontológico. Mas não terá sido sempre assim?
ResponderEliminarEu, leitor inculto, confesso a minha dificuldade em encontrar poesia que me cative.
Boas leituras
PS: O título da obra parece decalcado da noite eleitoral de ontem...
Esta poesia, não faz o meu género e nem me diz nada.
ResponderEliminarDefeito meu, mas é assim que são as coisas... o que não quer dizer que não me interesse pontualmente sobre notícias com ela relacionadas. Por mim, não deixe de a trazer a este espaço Extraordinário.
Uma boa semana, estou em recuperação e espero que o país também, todos nós!
Saudações cá da Cidade Morena, de onde devo dizer com satisfação que, mercê do muito barulho feito e dos muitos e-mails a partidos, CNE, ministério dos NE, secretaria de estado das comunidades, embaixada e consulado, conseguiu-se este ano VOTAR aqui no consulado em Benguela, como deveria sempre ter sido! Vale a pena fazer barulho, e, devo dizer que houve um partido que me deu particular atenção e sei que ajudou a fazer pressão para algo que afinal é tão simples... trata-se de ter os boletins e os envelopes próprios e o pessoal a postos, mais nada.
"Desmoronamento: um amor instável"
ResponderEliminarI.
Em declives íngremes da memória,
ecoam promessas de terra firme,
"faço tudo por ti, meu amor",
murmúrios que se desfazem em deslizamentos.
II.
Pedras frágeis, palavras dissolvidas no ar,
"suspende-te das nuvens", um sonho inatingível,
equilíbrio precário em terreno movediço.
III.
Lagos serenos escondem correntes traiçoeiras,
"caminha sobre as águas", um convite ao abismo,
superfície ilusória que esconde o perigo.
IV.
Península de afectos fragmentados,
memórias desmoronam sob o peso do passado,
promessas vazias soterradas em solo instável.
V.
Eco distante de um amor que se esvai,
"faço tudo por ti", uma promessa quebrada,
escarpa da paixão reduzida a pó e lembrança.
Mota, Gil. Fragmentos Feitos: Reflexões sobre Acções Antrópicas. 1ª ed. Porto, Portugal: Edições Abismo, 2023. (Edição de autor, numerada e limitada a 100 exemplares).
Talvez sejamos a minoria silenciosa.
ResponderEliminarDescobri o blogue por acaso aqui pelo Sapo, precisamente depois de ter passado umas horas boas com a sua poesia reunida e ter reconhecido o nome de algum lado.
Agora vou passando por cá e apontado algumas sugestões num caderninho para depois.
Cumprimentos e tudo de bom!
A capa é muito bonita.
ResponderEliminarO que podemos dizer do poema senão que só em poesia se pode pedir à amada uma suspensão nas nuvens ou que caminhe sobre as águas. Pedir a uma mulher que seja divina é mania de poeta, realmente. O desejo é sempre chama.
E não é verdade que as pessoas não gostem de poesia (bom, há muito ser masculino que nega o gosto à poesia numa de marialvismo ou coisa assim).
Os comentários serão menos por outra razão. Se o poeta é aquele que mais se aproxima da verdade, como rebater/comentar o dito?! Talvez só os poetas saibam conversar uns com os outros sobre poesia. Os restantes farão como eu agora, mandam um bitaite que dá logo a entender que andamos à volta e não chegamos lá.
Mas gostar, gostamos. Pode crer.
Gostamos sim, e até temos poetas e poetisas de preferência. Ainda há dias descobri a maravilhosa poesia de Hélène Dorion, sem tradução por cá.
ResponderEliminarJá aqui foi deixado o desejo, a ânsia até, pela divulgação de poesia. É verdade que ela foge de nós... como que, através do pré-concebido que pertence a uma minoria, se estreita mais o canal do fúnil. Quem tem apetite pela mesma, locais como este são a esperança de conhecer novos livros, poemas gratuitos que nos levarão a patamares até ao momento desconhecidos, a quem a sonhe, a ame e pense e depois divulgue. E poisos assim, montras como esta podem ser, serão, um canal perfeito para que a apetência cresça, uma bola de neve para autores e ávidos de os/as lerem. Não se acanhe p.f.... reforce a diferença. Quanto a podermos gostar mais de um estilo ou de outro, é como na literatura e como em tudo que nos rodeia.
ResponderEliminarGosto e leio poesia. Mesmo que sem qualquer pretenciosismo e com falta de talento, ou inspiração, ou as duas coisas, também lá vou fazendo umas pobres tentativas de poetisar. De resto até tenho publicado um livro de edição de autor.
ResponderEliminarMas também não gosto de toda a poesia, dita moderna ou surrealista, e creio que há muita poesia que nada diz, não passamdo de amontoados aleatórios de palavras e metáforas sem sentido, mas como "o rei vai nu" e ninguém o quer contrariar, lá vai seguindo em procissão.
Passarei mais vezes.
Maria do Rosário Pedreira, eu gosto muito de poesia, e ainda gosto mais quando leio alguém a recomendar poetas e livros de poesia, muito obrigada. Aprendo tanto neste seu blogue que sigo desde sempre.
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