Ficção na pastelaria

Não tenho grande queda para as coisas japonesas em geral, embora admita que o problema é meu, que não tenho os instrumentos necessários para entrar naquela cultura. Mas adiante: alguém que estimo e tem bom gosto literário recomendava um dia destes um pequeno romance japonês intitulado Doce Tóquio, de Durian Sukegawa, que ao que parece se tornou um fenómeno no país do Sol Nascente e acabou por conquistar o mundo inteiro. O livro tinha sido publicado este ano pela ASA, com tradução de Isabel Veríssimo, mas confesso que não dei por isso, até porque a capa, em tons de rosa e azul, me pareceu de um livro para adolescentes. No entanto, esse amigo chamou ao romance "delicado", e isso poderá também explicar a escolha dessas cores. Li-o de um fôlego, mesmo não sendo uma gulosa (passa-se numa pastelaria de Tóquio), e aprendi uma história que estava longe de conhecer e se prende com o que aconteceu às vítimas da doença de Hanser (conhecida vulgarmente por "lepra") no Japão do pós-guerra que, mesmo depois de curadas, foram obrigadas à segregação e ao isolamento em sanatórios, onde entraram em crianças e acabaram por morrer sem conhecer mais nada do seu país. O romance trata da vida de uma senhora que passou por isto e se especializou a fazer a massa dos dorayaki (um doce de feijão sobre panquecas) e que ajuda (e desajuda) Sentarô, um pasteleiro com dívidas e tendência para beber, e uma adolescente infeliz que não sabe onde deixar o canário. Interessante, sem dúvida, mas só podia ser japonês.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco20 de junho de 2022 às 04:04

    É de ficar de olhos em bico!!!! Eheheh!
    É capaz de ser interessante, pelo que nos resume, atendendo a que pode ser uma oportunidade de entrar na cultura japonesa, o que é sempre atractivo se for feito dessa forma, através do dia-a-dia das pessoas que sejam os personagens.
    Estimo esteja recuperada! Bom regresso.

    Votos de uma Extraordinária semana para todos, cá desde a Cidade Morena.

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    1. Ó Paxeco, relativamente à cultura japonesa, assim de repente só me lembro do grande actor de cinema Toshiro Mifune e da ponte do Rio Kwai.

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  2. Cláudia da Silva Tomazi20 de junho de 2022 às 04:28

    Bom dia. De romance em romance as mulheres apaixonam-se. Bem ou mal, até lembrei de uma costureira que apaixonou-se por um nissei e o pai dela desaprovara. Confessou-me triste já entrada nos setenta que a vida lhe trouxera esse amargo desde a adolescência.

    Por isso é tão importante a literatura! Da lição à libertação, é possível um fio de pó travar o sentido prático o amor.

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    1. António Luiz Pacheco20 de junho de 2022 às 05:09

      Cláudia, é curioso fazer notar que os portugueses foram os primeiros europeus a andar pelo Japão, e que influenciaram por exemplo na religião e na guerra (pela introducção das armas de fogo)., mas eu diria que nem por isso fomos influenciados pela cultura japonesa, talvez nos biombos? É uma cultura que, ao contrário das indiana e indochinesa, árabe e africana que tanto nos marcaram e até um pouco da chinesa (sim!), parece que nos é completamente desconhecida.
      No Brazil não será assim, corrige-me... mas há uma forte comunidade japonesa, sobretudo na área agro-alimentar com grandes empresas. Suponho que exerçam alguma influência nas suas zonas, quem sabe se haverá miscigenação? Eu conheci aqui em Angola, na Quibala (Quanza Sul) um brasileiro de origem japonesa que era técnico agrícola numa fazenda de arroz, o Ciro. Falava português-brasileiro e tinha feições marcadamente japonesas, sendo filho de japonês e europeia. Estava na fazenda Luso, a uns 50 Km do Projecto Terra do Futuro onde me encontrava. Colaborámos na reparação da ponte sobre o rio Luso, na estrada Quibala-Mussende. Eu com madeira, uma giratória e homens, ele com um caterpillar. Depois disso falámos várias vezes, mas já não sei dele...

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  3. Pastéis de feijão: gosto dos pastéis de Torres. Estes, certamente mais delicados, devem ser ainda melhores. De filmes, lembro-me de excelentes obras japonesas que passavam nos cinemas nos anos 60 e 70 do século XX. Quanto a livros, tenho lido poucos e não me entusiasmaram. Irrita-me a exuberância (talvez pudesse escrever exibicionismo) das construções contemporâneas de arquitetos japoneses. Depois havia as gueixas, os kamikazes, a subordinação canina ao imperador. Os gestos de cumprimento ou cortesia que via nos filmes, isso era encantador. Ah, e agradecem com uma corruptela da palavra portuguesa obrigado.

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    1. António Luiz Pacheco20 de junho de 2022 às 05:12

      Arigatô????
      Olha, não sabia, que curioso... se calhar até há mais! O termo "katana" é japonês e significa "panga", o facão, muito comum em África, mas se calhar a designação vem de lá.
      Abraço!

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  4. Pensava que se pronunciava com o neutro e não fechado. Se assim for, arigato soa muito próximo de obrigado.
    Influência inversa: dizemos "deu-lhe o amok", este termo veio do sudeste asiático e designa(va) o momento em que o lutador passava repentinamente de uma situação de estudo, falsa apatia, para o ataque súbito.

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  5. Maria do Rosário Pedreira, há um filme feito a partir desse livro, que já vi por duas vezes, mas que infelizmentete não me lembro como se chama. É exactamente essa história,e é, precisamente, muito delicado e com imagens muito bonitas. É um bom filme.

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    1. Também gostei imenso de ver o filme.
      Suzana Silva

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  6. O filme chama-se Uma Pastelarisa em Tóquio e estreou em Portugal em 2016. Teve uma nomeação no Festival de Cannes (fui ao Google).

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  7. O argumento do filme "Uma Pastelaria em Tóquio" de Naomi Kawase foi adaptado desse romance. Há pouco tempo, deu na RTP2 outro filme da mesma realizadora "Mães de Verdade". Ambos valem a pena!

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