Excerto da Quinzena
Antes do excerto, queria esclarecer, porque parece não ter ficado claro para alguns, que o que se pretende nesta actividade quinzenal é que os Extraordinários publiquem excertos de livros que leram e que aconselham, e não necessariamente excertos dos livros que andam a ler, e muito menos passagens dos seus próprios livros, estejam ou não publicados. Dito isto, segue o meu excerto de hoje:
Havia um homem que amava as ilhas. Nascera numa, mas não lhe agradava por ter gente demais. Queria uma ilha só para ele: não necessariamente para lá viver sozinho, mas para fazer dela um mundo seu.
Uma ilha grande demais não é melhor do que um continente. Para ser sentida como tal, uma ilha tem de ser, de facto, bastante pequena - e este conto mostra como tem de ser minúscula, para podermos ter a sensação de que está cheia da nossa personalidade.
Ora as coisas proporcionaram-se de modo a este apaixonado por ilhas vir, realmente, a comprar uma ilha quando chegou aos trinta e cinco anos. Não a possuía em termos absolutos, mas comprara-a a noventa e nove anos, o que, pela parte que toca a um homem e a uma ilha, vale uma eternidade.
«O Homem Que Amava as Ilhas», in Amor no Feno e Outros Contos, de D. H. Lawrence, tradução de Maria Teresa Guerreiro
Do livro: COISAS FRÁGEIS - NEIL RICHARD GAIMAN
ResponderEliminar“O trabalho do artista é mostrar às pessoas o mundo em que elas vivem. Nós seguramos um espelho.”
Lembrei-me disto a propósito da anterior conversa sobre a biografia de Roth.
Fui à procura e encontrei, trago-o aqui pois julgo pertinente, oportuno e a propósito!
Não é pelo livro em si, mas justamente porque esta frase devia dar que pensar aos que pensamos nas coisas. Creio que ficou demonstrado imperarem os que apenas reagem e se encontram no patamar mais baixo da evolução, os sensitivos-reactivos.
Todos nos presumimos racionais, num estágio superior da evolução, mas seremos mesmo ou estamos a perder essa capacidade? Devido a que tendencialmente seguimos grupos ou determinadas idéias e pensamentos alheios de que julgamos comungar, porque nos impressionam e depois, preguiçosamente, sendo mais fácil assumir idéias já elaboradas do que elaborá-las nós mesmos processando-as através das nossas funções de selecção e síntese? É o que fazem e ao que nos conduzem os media, os influencers, os comentadores a metro, que se substituiram à nossa inteligência e nos conduzem explorando justamente essas sensações, pela sensibilidade exacerbada e desviada que existe actualmente, provocando as reacções que são desejáveis a grupos de pressão, a políticos e a eles mesmos que assim criam uma dependência.
Creio que se regrediu em termos civilizacionais, perdemos cada vez mais a capacidade de sermos nós no meio dos outros, integrados mas sem deixar de sermos nós mesmos. Temos de mostrar que fazemos parte, que também somos parte daquilo. Tornámo-nos presas fáceis, ou talvez, mantivémo-nos assim! Se calhar nunca fomos outra coisa, salvo breves períodos da história.
Saudações de uma ovelha branca na Cidade Morena!
Votos de um Extraordinário fim de semana.
“O trabalho do artista é mostrar às pessoas o mundo em que elas vivem. Nós seguramos um espelho.” Excelente autor que deve ser esse, caro Luiz Pacheco, num mundo onde a pequenez substitui a grandeza e os espelhos reflectem cada vez mais a falta da sonoridade da poesia. Trágico! Como patético e sinal imemorial a postura do homem do conto de Lawrence, um homem que dizia amar as ilhas, mas não gostava de as partilhar - esse sentimento maior do Homem: «Nascera numa, mas não lhe agradava por ter gente demais. Queria uma ilha só para ele: não necessariamente para lá viver sozinho, mas para fazer dela um mundo seu.» Nenhum Homem pode ou deve querer ser uma ilha, pois não há mundo para além daquele que partilhamos!
EliminarAnónimo, não! O anonimato é para quem não tem cara ou rosto. Pedro A. Sande
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ResponderEliminar«O 25 de Abril livrou-nos da opressão do salazarismo (vejam na Enciclopédia o que significa esta palavra) e deu-nos a oportunidade de se instalar, entre nós, a desordem democrática. No tempo do Salazar ninguém sabia nada do que se passava porque ninguém podia falar. Agora, em democracia, ninguém sabe do que se passa, porque todos falam ao mesmo tempo.
Compreende-se o alvoroço que se apossará de um pobre trabalhador quando se vir apontado pelo dedo de um revolucionário decidido que lhe afirma: “agora quem manda és tu! Quem manda agora é o povo! O povo é quem mais ordena! Até numa cantiga, logo após a revolução, os “meninos à volta da fogueira”, proclamavam que “as estrelas são do povo.”
O que será o povo? – pergunto eu. Eu serei do povo?
Rómulo de Carvalho em «Memórias», Fundação Calouste Gulbenkian, Março 2011
“Esta liberdade de pensamento, apanágio do seu novo ofício, constituía para ele um inesgotável manancial de júbilo, um júbilo generoso e sem medida. Os infinitos recursos de humanidade contidos numa casa de passe do bairro indígena mantinham-no num êxtase perpétuo. Como estava agora longe das rabulices estéreis e assassinas dos homens e da sua presunçosa concepção da razão e da vida! Todos esses grandes espíritos, que durante anos e anos admirara, eram para ele agora uns vis intoxicadores, desprovidos de qualquer autoridade. Ensinar a vida sem a viver era o crime mais detestável da ignorância”.
ResponderEliminarAlbert Cossery, «Mendigos e Altivos», tradução de Júlio Henriques.
"Pois bem, não terá sido o cúmulo do absurdo, da idiotice genuína, esta cadela vil, tacanha e digna de dó sonhar que alguma vez seria capaz de lhe ter amor? Diz ao teu amo, Nelly, que eu nunca em toda a minha vida deparei com uma criatura mais abjeta do que esta mulher! Ela chega a desonrar o nome Linton; e houve momentos em que , por já não conseguir imaginar novos tormentos, sustive as minhas experiências para saber o que ela era capaz de suportar sem deixar de rastejar novamente para junto de mim, encolhida e servil! Mas diz-lhe também, para lhe tranquilizar o coração fraterno e os brios de magistrado, que eu me mantenho dentro dos limites rigorosos da lei. Evitei, até à data, dar-lhe o mais leve pretexto para exigir uma reparação por via judicial; além do mais, ela não agradeceria a quem nos apartasse; é que, se ela quiser partir, pode fazê-lo de imediato; o incómodo da presença dela supera para mim o gozo que sinto em a atormentar!"
ResponderEliminarEmily Bronte- O Monte dos Vendavais-págs 202-203-Relógio D'Água
Este rende munidas fortalezas;
ResponderEliminarFaz trédoros e falsos os amigos;
Este a mais nobres faz fazer vilezas,
E entrega Capitães aos inimigos;
Este corrompe virginais purezas,
Sem temer de honra ou fama alguns perigos;
Este deprava às vezes as ciências,
Os juízos cegando e as consciências.
Este interpreta mais que sutilmente
Os textos; este faz e desfaz leis;
Este causa os perjúrios entre a gente
E mil vezes tiranos torna os Reis.
Até os que só a Deus omnipotente
Se dedicam, mil vezes ouvireis
Que corrompe este encantador, e ilude;
Mas não sem cor, contudo, de virtude!
Camões, "Lusíadas", canto VIII, últimas duas oitavas
«Antes do episódio pitoresco, o personagem mais curioso que entrevistei foi um toureiro venezuelano. (...) Na manhã seguinte, horas antes de tomar o avião, entrevistei-o num salãozinho do Hotel Bolívar. Deixou-me perplexo comprovar que era menos inteligente que os touros que lidava e quase tão incapaz como eles de expressar-se através da palavra. Não conseguia construir uma frase coerente, nunca acertava nos tempos verbais, a sua maneira de coordenar as ideias fazia pensar em tumores, em afasia, em homens-macacos. A forma era não menos extraordinária que o fundo: falava com uma pronúncia infeliz, feita de diminutivos e apócopes, que matizava, durante os seus frequentes vazios mentais, com grunhidos zoológicos».
ResponderEliminarIn "A Tia Júlia e o Escrevedor", Mario Vargas Llosa (pp. 224/225, edição BIS LeYa 2020), tradução de Cristina Rodriguez
Um toureiro, como qualquer outro, tem de ser bom na sua arte... a qual não é falar ou declamar! Grave seria constatar-se esse problema de expressão num actor, penso eu.
EliminarMas, para que não se capitalize o que escreveu o nobelizado autor, num certo sentido anti-taurino, convém esclarecer que Mario Vargas Llosa é elo contrário, grande aficcionado!
Eis o que tornou público face a uma recomendação da ONU sobre as crianças não deverem assistir a corridas:
"O escritor afirmou que levou os filhos à tourada quando eram pequenos e que nenhum saiu cruel, até porque “este é um espectáculo de criação de beleza como a poesia, a música ou a novela”. Considera, assim, que a proibição não tem sentido e que os toiros “são alta pedagogia”.
Vargas Llosa afirmou ainda que o toiro “é um animal privilegiado, tratado com imenso amor desde que nasce e até à sua lide, ainda que muitos animalistas o ignorem”. “O antitaurinismo tem frentes distintas, e há uma cultura animalista respeitável que vê crueldade”, disse o escritor, acrescentando que esta interpretação é um engano.
O Nobel da Literatura disse ainda que “é verdade que é uma festa cruel, porque a verdade da vida é cruel”. No entanto, tudo o que tem vida, incluindo as plantas, deve ser respeitado, “e assim nós, humanos, terminaríamos a alimentar-nos de comprimidos”, concluiu Vargas Llosa.
Já agora, convinha que ficasse claro.
E sim, sou convicto e activo na defesa dos meus valores e tradicções, na razão directa daqueles que são contra eles.
Bom fim de semana!
Sei que ele é aficionado. E depois? Se tem algo contra a citação, tem de reclamar com ele, não comigo.
EliminarÓ Cristina olhe que este excerto aguçou-me a curiosidade sobre este livro que tenho na prateleira há muito tempo, mas que ainda não li, mas vai ser dos próximos.
EliminarNão desgostei da "Guerra do fim do Mundo", mas o que mais gostei mesmo muito e aconselho é "O herói discreto".
Do mesmo modo, o ensaio "A civilização do espectáculo" é excelente!
Repito: Bom fim de semana!
EliminarÉ um bom romance, que abrange muitas temáticas (para que não pense que anda apenas à volta das touradas). Tem elementos autobiográficos muito interessantes.
EliminarMais um excerto de que gostei:
«Interrogando no estúdio da Rua Belén ou frente a um gravador, artistas de cabaré e parlamentares, futebolistas e meninos-prodígios, aprendi que toda a gente sem excepção podia ser tema de conto».
«…precisamente se designa por vida cultural, entendida como visão do mundo e viver quotidiano. De resto, quem lê em Portugal? E o faz por paixão, curiosidade intelectual, por hábito ou ambiente familiar? Uma ínfima percentagem, sempre os mesmos, aliás. Logo, por maioria de razão, escrever é visto como uma bizarrice. Na verdade, conheço muito boa gente da nossa querida burguesia para quem escrever é um pouco como trinta e dois ovos estrelados ao pequeno-almoço, fazer o pino horas a fio debaixo de chuva, ou jogar às cegas uma simultânea de xadrez. É uma coisa assim como falar Chinês, anacrónica, perfeitamente inútil e um tanto apalhaçada. Mas adiante.
ResponderEliminarAo cabo de mil andanças e recuos, lá se consegue publicar um, livro, o nosso livro, cuja feitura quiçá nos terá acompanhado durante anos. Após o que nos dispomos a percorrer as capelinhas a ver se aí também já terão chegado ecos da boa nova – da Barata à Bucholz, da Sá da Costa à Castil, de Alvalade ao Pingo Doce de Alcântara, sem esquecer a mais simpática de todas elas, a Galileu, em Cascais. Com alguma sorte, descobrem-se dois exemplares, digo bem, dois, remetidos a um canto, ou escondidos por detrás de uma pilha de outros recém-nascidos…
[No Devagar Depressa Dos Tempos de Marcelo Mathias]
Deste Marcelo Mathias, poderemos dizer ter uma visão assertiva sobre o «mundo dos livros», um excelente e culto cronista conhecido por quantos Extraordinários? Um, dois, três...?
Pedro A. Sande
Não conhecia!!!!!
EliminarDuas ou três simples notas:
Eliminara) Terá um dia que se fazer um apanhado dos escritores que a diplomacia portuguesa (?) já nos deu. Lembro apenas alguns: Eça de Queiroz José Fernandes Fafe, Álvaro Guerra, Luís Filipe Castro Mendes, Paulo Castilho.
b) Nunca me poderei ver a comprar livros em hipermercados.
c) Quanto à Galileu em Cascais tenho uma má impressão. Vivo num bairro em Lisboa, um dia fazendo horas do comboio de regresso, pus-me a folhear uns livros que a livraria tinha em escaparates no exterior. Não sei o que fiz, é certo que não tenho mestrado de folheador de livros, nem trato livros a pontapé, mas vi-me confrontado com a observação da dona-cidadã-alemã-da-Galileu, que não era maneira de mexer nos livros. Olhei a senhora, deveria querer saber do porquê da observação, mas concluí, muito rápido, que a coisa tinha tendência para não acabar bem. Nunca esqueci um problemazeco que tive um dia com a cidadã-alemã-dona-da-Bucholz.
Nenhuma das senhoras corresponde àquele a estirpe de livreiros que pretendo que sejam, como na velha «Barata», na velha «Opinião» frente à tipografia do velho «República», na extinta «Ler» na Avª do Uruguai, ou que vi naquele filme que em português teve o título de «A Rua do Adeus», («Charing Coss Road») dirigido por David Jones, com Anne Brancroft , Anthony Hoptkins e Judi Dench.
Ora, se calhar estava a lamber o dedo para folhear o livro?
EliminarAhahah!
Grande abraço cá da Cidade Morena, onde não é sensato lamber o dedo com o tifo que por aí anda...
Marcelo Duarte Mathias diplomata e EXCELENTE escritor.
EliminarDo seu "Diário da Abuxarda-2007-2014-No devagar depressa dos tempos-Vol. V :
- só há uma morte, a vida não vivida
- Valorizar o inimigo é minimizar a nossa derrota
- Saber escrever é reduzir três parágrafos e três linhas. Sim restringir é valorizar; diminuir é engrandecer; sugerir é ampliar
- No fim de contas, é preferível que alguma coisa fique por dizer do que dizer de mais da mesma coisa
- Envelhecer: deixar de existir e passar a fazer ginástica
- Solicitar a opinião alheia é tão-só querer obter confirmação à justeza da nossa
- A observação é um dom mas é uma aptidão que se trabalha e aperfeiçoa
- As alegrias demasiado vistosas, escondem sempre o seu contrário
E, nos seus livros, fala quase sempre muito de livros e de escritores, por exemplo, sobre "conta-corrente" de Vergílio Ferreira: é dos mais autênticos depoimentos da nossa literatura. Confronto de um homem com a sua época e, de caminho, consigo mesmo. Escrito à pressa, sem olhar para trás, desancando meio mundo a cada página, sem destemor de ninguém. Que dos outros já andava ele farto e há muito! Tonificante leitura.
Alemã? Julgo que é belga, Mário, mas posso estar enganado. Nem por acaso, estou a pensar ir lá amanhã.
EliminarOlha: conheço a Abuxarda... mas o escritor, não!
EliminarMARCELO DUARTE MATHIAS-Já li a grande maioria dos seus livros (os que conheço que foram publicados).
EliminarGosto muito da sua escrita!
Já agora, Pedro, com a obra publicada na Dom Quixote, que pertence a um dos Olimpos em que o Pedro gosta tanto de bater aqui no blogue.
Eliminar"Dificuldade de Expressão
ResponderEliminarA dificuldade de encontrar, para poder exprimir, aquilo que no entanto está ali, dá uma impressão de cegueira.É quando, então se pede um café.Não é que o café ajude a encontrar a palavra mas representa um ato histérico-libertador, isto é, um ato gratuito que liberta."
in A Descoberta do Mundo -Crónicas-Clarice Lispector -Relógio DÁgua Março 2013 pág.674
Ó Caro e Extraordinário Anónimo, nem de purpósito ... afinal hoje é dia do jazz ... bem sei que não é jazz mas quase, este Extraordinário tema!
EliminarAqui fica para todos nós que gostamos, esta lembrança!
Problema de expressão... é Extraordinário!
Um abraço, perfeitamente identificado o meu, para si!
https://www.youtube.com/watch?=oBNhhzcaDKA&list=RDoBNhhzcaDKA&start_radio=1&t=4
Bom dia com alegria
ResponderEliminar"At present, the particular operation and effects of specific new machines or networks are less important than how the rythms, speeds, and formats of accelarated and intensified consumption are reshaping experience and perception"
24/7 : Late Capitalism And The Ends Of Sleep - Jonathan Crary - VERSO Books
Saúde e boas leituras
cp
Por se falar da importância do livro, com insistência, por aqui:
ResponderEliminar«Podemos pensar, como vaticinava Sócrates, que nos tornámos um bando de convencidos ignorantes, Ou que, graças às letras, fazemos parte do cérebro maior e mias inteligente que alguma vez existiu. Borges, que pertencia ao grupo dos que pensam da segunda forma, escreveu: "Dos diversos instrumentos do homem, o mais surpreendente é, sem dúvida, o livro. os restantes são extensões do corpo. O microscópio e o telescópio são extensões da sua visão; o telefone é a extensão da voz; depois temos o arado e a espada, extensões do seu braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação".»
Irene Vallejo, "O Infinito num Junco" (p 125)
Como o rio não sabe
ResponderEliminarque destino final as suas águas
terão que cumprir, e sem pausa
nem descanso caminha,
sempre em seu sítio, e sempre
ignorante, até mesmo de si próprio,
e como o ar, que se ofusca
e pelo leito corre,
mas também sem ter pátria
onde pousar de vez as asas;
e como a luz, que já é
é já não é - e onde vai,
ou não será a sua
própria obscuridade? - assim
minhas palavras, que são o outro rio.
Eugénio de Andrade - Entardecer junto ao Mosela
Osório Borba com A Comédia Literária, 1941
ResponderEliminar(...) Cá fora, nos caminhos da realidade,
tudo é poeira, calhau e gás,
o ar pesa sobre a inteligência e os nervos da gente,
rarefeito, carregado de miasmas.
Alguma coisa está podre no Reino,
em todas as Dinamarcas deste velho mundo.
O planeta cheira mal.
Há de haver um recanto menos inóspito,
para evasões oportunas;
para os espíritos fatiados da realidade contingente.
Um mundo onde não se tenha que concordar
com a Força que tem sempre razão,
haverá sem dúvida, caminhos que não passem
entre florestas de braços levantados.
Vamos embora para Passargada.
O velho Manuel nos ensina o caminho.
Cláudia da Silva Tomazi
A mão da viúva, pouco sólida mas bem aberta,acerta na minha cara com força. A minha cabeça abana com o impacto e eu afasto-me. Ela baixa a mão sem dizer nada. Os seus olhos encarniçaram-se. Eu esfrego a mão na cara. Dói-me. Não muito. O barulho assustou-me . Como se os dedos dela me tivessem sacudido o coração. Sinto a pele da bochecha a arder,um calor grosso e húmido que vem na maré do sangue e rebenta na carne.
ResponderEliminarA viúva começa a chorar,quieta de cabeça levantada. Contorce as mãos,uma na outra, sobre o colo. Foi alguma coisa que eu disse . Pergunto, várias vezes: O que é que eu disse?, mas ela não me ouve, como se dentro da sua cabeça o barulho tivesse o tamanho de um deserto. Está perdida no meio da poeira seca desse barulho e eu não sou capaz de a encontrar, a minha voz não tem volume para avançar através do espaço onde ela se sumiu depois do estalo que me deu. As lágrimas escorrem na pele áspera, pelos veios das rugas, e desaparecem no declive do queixo. Eu aproximo-me outra vez. Digo o nome dela. E os olhos começam a vibrar como se fossem gelatina e eu lhes batesse com uma colher. A minha voz, a minha voz de pedra toca-lhe, ela sente o tremor do embate insignificante, mas não chega a entrar nela. Quando finalmente olha para mim, parece muito triste. A sua mão cai sobre a minha. E parece outra vez ela.
Diz: Tenho muita pena. Isso do teu avô dá-me muita pena.
Ele gostava de a ver.
"Deixem falar as pedras" David Machado
Bom fim de semana!
A. Delfim
"... e nisto se estava quando, meio-dia exacto era, de todas as casas da cidade saíram mulheres armadas de vassouras, baldes e pás, e, sem uma palavra, começaram a varrer as testadas dos prédios em que viviam, desde a porta até ao meio da rua, onde se encontravam com outras mulheres que, do outro lado, para o mesmo fim e com as mesmas armas, haviam descido. Afirmam os dicionários que a testada é a parte de uma rua ou estrada que fica à frente de um prédio, e nada há de mais certo, mas também dizem, dizem-no pelo menos alguns, que varrer a sua testada significa afastar de si alguma responsabilidade ou culpa. Grande engano o vosso, senhores filólogos e lexicólogos distraídos, varrer a sua testada começou por ser precisamente o que estão a fazer agora estas mulheres da capital, como no passado também o haviam feito, nas aldeias, as suas mães e avós, e não o faziam elas, como o não fazem estas, para afastar de si uma responsabilidade, mas para assumi-la. Possivelmente foi pela mesma razão que ao terceiro dia saíram à rua os trabalhadores da limpeza. Não traziam uniforme, vestiam à civil. Disseram que os uniformes é que estavam em greve, não eles."
ResponderEliminarin "Ensaio sobre a lucidez", José Saramago
Maria João Lourenço
ResponderEliminarO passado é um país estrangeiro: lá fazem-se as coisas de maneira diferente.
L. P. Hartley, Editorial Presença, tradução de Maria Adelaide Freire, revisão do texto de Wanda Ramos
«"Talvez eu não tenha vivido como devia?", ocorreu-lhe de súbito. "Mas como, se fiz tudo como deve ser?" disse para si mesmo e imediatamente afastou essa única solução de todo o mistério da vida e da morte como coisa completamente impossível.»
ResponderEliminar"A morte de Ivan Ilitch", Lev Tolstoi, tradução de António Pescada
"A sociedade é uma psyche. Se ela estiver doente e desordenada, doente e desordenada estará a psyche dos seus membros. A sociedade é o homem escrito em letras maiores, porque cada um de nós traz em si as mesmas formas e hábitos que a Cidade. Por isso a polis está ordenada quando é governada por homens com almas bem-ordenadas; e está na desordem quando as almas dos governantes estão desordenadas. Postulado central da Politeia é o que sustenta que a miséria política só terá fim quando os filósofos se tornarem reis ou quando os reis decidirem investigar a vida da polis de modo filosófico em busca do real conhecimento do Bem. A boa polis é o filósofo escrito em grande, o homem que ama a sabedoria, que dá substância à sua arete, que capacita a alma para a viagem no caminho da salvação. A sociedade corrupta, por seu lado, é o maior de todos os sofistas, é o animal grande e forte, a grande besta (...)."
ResponderEliminar"República", de Platão, tradução de Elísio Gala