O tempo das mulheres
Tenho a sensação de que este é o tempo das mulheres. Uma boa novidade (se eu não estiver do meu lado, quem estará?), mas por vezes, infelizmente, mais forçada do que natural e mais porque tem de ser, e não porque é. Se numa lista de prémios literários não constam obras de mulheres, há logo um grande sururu; mas pôr lá um livro de uma mulher só por ser de uma mulher, convenhamos, é um erro tremendo, se o livro não merecer a distinção. Um dia destes, o organizador de um festival literário mandou a lista dos autores que queria convidar para eu reencaminhar aos dois ou três que publico e dela faziam parte. Um deles (homem) aceitou o convite, mas fez notar à organização que faltavam mulheres na lista e que era melhor tomar medidas desde já, antes de lhe cair em cima o Carmo e a Trindade... Bem, não podemos de facto prolongar a velha situação em que as mulheres eram constantemente esquecidas ou convidadas de segundo plano, mas também convém ser coerente e não andar a dar prémios à toa só por causa do sexo do escritor ou da temática feminista das obras (voltarei a isto em breve para falar de uma obra específica cuja premiação achei realmente discutível). Em todo o caso, nem sempre é assim, e é muito bom ver que Presidente da República de Portugal substituiu a cadeira vazia de Eduardo Lourenço no Conselho de Estado por Lídia Jorge, talvez a escritora contemporânea que mais tem reflectido sobre os problemas da actualidade e que melhor expressa as preocupações dos intelectuais em relação a uma sociedade sem leitores, mais agressiva e menos empática. Uma pensadora inteligente, culta, coerente e com um discurso que é uma chamada de atenção urgente para quem governa e que pode e deve tomar medidas que salvem o País deste «analfabetismo» estrutural. Aplaudo e agradeço.
Concordo inteiramente com aquilo que diz!
ResponderEliminarEm toda a linha, e, a acabar na nomeação da escritora Lídia Jorge, não por ser mulher uma vez que a posição em causa é assexuada, mas por competência e perfile, que ela tem, sendo uma intelectual e pensadora pura, sem as limitações ou imposições que vigoram actualmente em que se tem obrigatóriamente de ser de esquerda ou fracturante... espero que o exemplo ilumine muitos tontinhos que por aí campeiam e pontificam achando que só sendo esquerda, extremista e fracturante é que que se tem "miolo", conteúdo, sensibilidade e razão, escrevendo coisas que bradam não tanto aos céus, mas à inteligência!
Estou a falar de literatura, de escritos, notem!
Como sempre disse e direi, não leio nem lerei ninguém só por aquilo que represente, leio todos os que usem a escrita para transmitir idéias interessantes e pensamentos bem construídos, independentemente de concordar ou partilhar das suas idéias e filosofias!
Não o fazer, seria uma limitação intolerável e uma perda absoluta do sentido da universalidade do pensamento, da sua liberdade e expressão.
A maior maravilha da humanidade é justamente a diversidade do pensamento!
Um Extraordinário final de semana para todos, em liberdade, tranquilidade e sobretudo com leituras livres e agradáveis a cada um, são os meus votos cá desde a Cidade Morena!
É indiscutível o papel e o relevo das mulheres na literatura!
ResponderEliminarJulgo que seja algo que nem se coloca já... desde que a Salma ganhou o primeiro Nobel feminino! O papel da mulher na sociedade passou a ser outro, decidida e definitivamente, desde o século XIX. Eu diria que é a evolução, mais nada e naturalmente!
Mas a mulher não é outra, nem evoluiu. O que evoluiu foi o papel institucional que lhe é atribuído e reconhecido - o "estabelecido". Forma e substância no que diz respeito à mulher sempre foram bem distintas. A mulher sempre foi plena, bastante, pensante. A sociedade teve, sim, de evoluir. Os homens tiveram de evoluir (também condicionados pelo estabelecido institucional). Nós sempre cá estivemos, resilientes, estóicas, intrigadas com o desfasamento. E só não falámos mais cedo, porque as consequências eram incomportáveis, num mundo distópico onde as mulheres eram consideradas enfraquecidas intelectualmente, sem direito à palavra e à expressão livre, inferiores aos homens e a eles sujeitas. Isso nunca foi a verdade admitida pelas mulheres, apenas tolerada. Que bom os homens poderem ver agora o mundo como ele é ;) Abraço a todos.
EliminarSe calhar expliquei-me mal!
EliminarQuando digo que é a evolução, não me estou a referir apenas à mulher, mas no geral!
Evoluiu a sociedade no que tange à forma de considerar a mulher, parece-me claro.
E por sociedade, entende-se homens e mulheres... evoluiram ambos, os homens no modo de verem as mulheres, e, as mulheres no modo de se verem a elas mesmas, creio que é evidente.
Repare que, embora as mulheres sempre cá tivessem estado, também elas mesmas não se viam do modo como se vêem hoje, algumas sim, mas muitas não, por muitas gerações. No entanto essas algumas aumentaram em número e acabaram por ser práticamente todas, o que conduziu ao estado actual. Isso é evolução, penso eu! E, também aumentou e foi crescendo o número dos homens que as aceitavam como hoje, ou seja, houve também evolução masculina.
Portanto, foi a evolução que nos trouxe até aqui, hoje.
Compreende? Não se trata de negar a presença histórica da mulher, o que seria disparate da minha parte.
Eu compreendo o que diz. Apenas reposiciono a perspetiva.
EliminarHouve um momento na História em que os homens definiram unilateralmente o seu papel e o das mulheres na sociedade e construíram o Direito a partir do princípio da inibição da mulher. Não houve um consenso, um forum de discussão em que cada um, homem e mulher, definiu o seu papel (que exercício teria sido). A realidade da mulher menor foi construída, a partir daí, pelo homem, num momento infeliz e retrógrado, em que a mulher foi excluída de qualquer processo decisório que pudesse inverter esse grande disparate. Se "contarmos" a partir daqui, temos tido evolução. Se "contarmos" desde antes esse momento, temos tido involução e só agora estamos a apanhar o tempo certo. Não considero estarmos num momento evoluído, mas num momento em que começa a ser possível corrigir este erro Histórico que se sobrepôs à Humanidade como ela é.
O perigo de seguirmos e respeitarmos um qualquer processo evolutivo pode impedir-nos de compreender que podemos ser disruptivos. Os atos Históricos que retiraram direitos às mulheres não precisam de aguardar por um outro ato Histórico que venha substituir os anteriores, quando a humanidade esteja para isso preparada e para isso tenha evoluído. Não é falta de preparação ou de momento, é excesso de força ainda de homens em lugares de poder (principalmente em sociedades vincadamente patriarcais) que impede a plena expressão da mulher dos seus direitos próprios, advindos da sua condição humana, que não têm de lhe ser atribuídos, pois não são suscetíveis de atribuição. Simplesmente são. Se temos uma Declaração Universal dos Direitos Humanos não é porque a existência desses direitos dependa de uma declaração, mas porque precisam de se fazer valer, numa sociedade que é jurisdicionalizada.
Mas esta é uma camada talvez subtil desta temática. Tenho dificuldade em aceitar que tenha de vir alguém dizer que direitos substantivos (humanos) tenho e não tenho. Tenho. As mulheres sempre tiveram. Mas foram silenciado(a)s por quem tinha mais força do que elas.
Um beijinho para si (são só (boas) conversas de sexta-feira à tarde :) - porque, no meu tempo histórico, "posso" ;)
Excelente raciocínio e teorização do mesmo... para mulher! Ahahahah!
EliminarEstou a reinar, é claro... sou munta reinadio, eu!
Porém é sempre muito agardável, interessante e esclarecedor conversar assim com alguém!
Mas sim, também me parece ter sido como analisa e expões, se bem que, eu julgo que numa mais antiga ou até pré-histórica perspectiva, a forma como a mulher era considerada em muitas sociedades, era diferente daquela que passou a ser depois. Muitas sociedades foram ou matriarcais ou as mulheres tinham posicionamento igual ou equivalente ao homem, fosse na pré-história ou entre os bárbaros, sobretudo germânicos e nórdicos, estarei certo? Parece-me que foi mais a dita "civilização" quem relegou a mulher para um papel de submissão.
Sabe que por aqui, na África em que me encontro, há uma nítida sociedade matriarcal, e, vejo as mulheres terem voz activa e serem independentes, imporem-se até. Quanto mais simples a escala social mais se nota, quando se sobe para níveis pretensamente mais ilustrados, instruídos, o homem ganha (julga ele!) ascendente, mas na verdade quem põe o pão na mesa, é maioritáriamente a mulher. Eu causo sempre algum desconforto, quando digo à boca cheia que se quisessem que "isto" (Angola) andasse, dessem o poder às mulheres! E é um facto irrebatível!
Cumprimentos!
A atividade a que se dedica Lídia Jorge, além da escrita, é muito de louvar, até porque os intelectuais em geral abandonaram-na, fugiram dela ou foram substituídos por comentadores ou promotores de entretenimento. Parabéns a Lídia Jorge. Concordo em absoluto com a escolha.
ResponderEliminarNão abandonaram, são concorrentes. Falta-lhe o manda bocas. Ela é muito educadinha. Amo Lídia ♡
EliminarInteligente a decisão de colocar Lídia Jorge no lugar deixado vago pela morte de Eduardo Lourenço, escrevo inteligente porque estou sempre de pé atrás com as suas decisões, como essa de, apenas para cumprir quotas, colocar mulheres na equipa de Belém. A ideia que tenho é que apenas as mulheres, elas são mais de metade no mundo, sabem do que são capazes. Maria de Lourdes Pintasilgo, um tanto ou quanto longe das minhas ideias, mas que muito estimava, defendia que as mulheres, com poder e visibilidade, têm as ferramentas necessárias para proceder às mudanças civilizacionais. Eça de Queiroz numa qualquer página de «Os Maias», cito de cor, dizia que a mulher só deve ser prendada para cozinhar bem e amar bem. O canastrão do John Wayne dizia que as mulheres têm o direito de trabalhar onde quiserem desde que tenham o jantar pronto quando se chega a casa, e o Senhor Sófocles, para terminar o comentário como deve ser, dizia que quando uma mulher está em condições de igualdade com um homem, torna-se superior.
ResponderEliminarFelizmente a quantidade traz a qualidade, e a mulher já não é um "bibelot" no mundo das artes e letras (nas universidades já está em maioria e daqui a uma década, "mandará" em quase todas as áreas da nossa sociedade... excepto na política e no futebol).
ResponderEliminarA escolha de Lídia Jorge faz todo o sentido, por estar presente, socialmente.
Mas sou contra "quotas" ou a utilização da mulher como "objecto decorativo".
Tem toda a razão, mas quando as mulheres na PR são já 63% onde está a paridade, os homens passam a minoria e elas já nem precisam de quotas! Cotas somos nós todos!
EliminarAmigo, há mais mulheres do que homens! Além disso, porque não uma maioria de mulheres? Durante séculos, os homens na política estiveram em maioria, e as mulheres nem piavam, por isso qual é o problema?
EliminarBom dia com alegria e pandemia
ResponderEliminarA propósito deste tema, e da sua actualidade, veja-se este artigo do Público: https://www.publico.pt/2021/03/10/opiniao/opiniao/ajudem-psd-descobrir-mulheres-1953730
Confesso a minha ignorância em relação á obra de Lídia Jorge. O mais perto que estive dela (da obra) foi no cinema, ao ver "A costa dos múrmurios". (pecha minha)
No entanto, sempre que li ou ouvi a autora nalguma entrevista fiquei com boa impressão da escritora. Pareceu-me uma pessoa calma e ponderada.
Deveríamos talvez substituir o preconceito de género pelo preconceito do mérito...
Bom fds, saúde e boas leituras
cp
PS: A ler "O fim do poder", por Moisés Naim. De certa forma relacionado com este tema, pois nada é eterno nas sociedades humanas.
começo por gostar do nome, mas isso não vem ao caso, dirão os comentadores da ordem. continuo e começo por gostar da escrita, dos livros, dos romances, da poesia, dos contos, das crónicas, das mensagens trocadas a intervalos esparsos. continuo e defendo (venham de lá as vozes críticas, e olhem que nem sequer falamos de quotas e de masculino/feminino quando falamos do assunto) que não haverá melhor voz no dito conselho. os livros de lídia jorge enchem as estantes muito cá de casa e sempre tiveram o condão de preencher os momentos mais díspares e marcantes da minha vida. junto banda sonora.
ResponderEliminar(15) (You Make Me Feel Like) A Natural Woman - YouTube
maria joão lourenço
Essas maravilhosas mulheres são o ápice histórico em distinção e afirmações; mas, se tudo suportam: se valem à lavarem almas.
ResponderEliminar