Excerto da Quinzena
Cannery Row, em Monterey, Califórnia, é um poema, um fedor, uma estridência, uma gradação de luz, um som, um vício, uma nostalgia, um sonho. Cannery Row é acumulação e desperdício; lata, ferro, ferrugem e gravetos; pavimentos escavacados, terrenos de urtigas e amontoados de cordame; fábricas de enlatar sardinhas de chapa ondulada, dancings, restaurantes, bordéis e pequenas mercearias atravancadas; laboratórios e albergues. Os seus habitantes são, como disse o homem certa vez, «pegas, alcoviteiras, batoteiros e filhos da mãe», com o que pretendia dizer «toda a gente». Tivesse o homem espreitado por outra frincha e talvez dissesse «Santos e anjos, mártires e homens bons»; e significaria a mesma coisa.
John Steinbeck, Bairro da Lata (tradução de Luiza Maria de Eça Leal)
" Tess transformou-se quase num ápice, deixando de ser a simples rapariga que era para passar a ser uma mulher cheia de perplexidades. Certos sinais de pensamento profundo passaram a marcar o seu rosto, e na sua voz passou a soar um timbre de tragédia. Os seus olhos pareciam agora maiores e mais eloquentes. Tornou-se aquilo que algumas pessoas chamariam uma bela criatura; assumiu um ar encantador e sedutor, e a sua alma passou a ser a de uma mulher que nem a turbulência das experiências dos anos anteriores tinha conseguido desmoralizar".
ResponderEliminarThomas Hardy- Tess dos D'Urbervilles-pág. 111-Relógio D'Agua-Janeiro de 2019
O que mais admiro nos homens (e o que neles mais me desgosta também) é a sua extraordinária capacidade de resistir à monotonia da realidade — às vezes tão medíocre que nem deveria merecer a honra de lhe chamarmos realidade.
ResponderEliminarAqui entre nós, gaita para as mesmas flores!, para a chuva repetida!, para o Sol igual!, para os fatos idênticos, amanhã, depois de amanhã, daqui a um século, pela eternidade fora — ora bolas!
Até hoje — e já não sou criança — ainda não encontrei ninguém que se insurgisse contra este decalque de coisa nenhuma a papel químico. Ou que me increpasse com mau humor de vulcão chateado, a desabafar:
— Apre! Estou farto destas árvores! Arranjem-me outras, depressa! Árvores voadoras, por exemplo. Com raízes nas nuvens...
Pelo contrário: a realidade chocha não lhes basta. Exigem-na também encaixilhada, em tal qual, nas pinturas, nos romances, nas peças, nos filmes... Não percebem que, para os artistas verdadeiros, este famoso mundo não passa dum caos-tema para variações de novos deslindes e astros diversos.
E que uma das mais transcendentes missões sociais da Arte seria essa luta contra a monotonia, que concede aos homens a faculdade de transformar a natureza, modificar as leis eternas, pôr tudo do avesso e dar um pouco de férias revoltas ao tédio organizado em que vivemos.
José Gomes Ferreira, «Imitação dos Dias», pág, 29 Portugália Editora, Janeiro 1966
maria joão lourenço
ResponderEliminarInclinou o tronco para se chegar ainda mais ao corrimão e alargar o espaço de passagem. Sentiu os poderosos cheiros deles, os ténis molhados, o tilintar de mochilas e percebeu que o rapaz se adiantava, de cabeça baixa, as costas curvadas, fugindo nas pernas muito altas. Mas a rapariga voltara-se para encarar Adelaide, com um pé em cima e o outro dois degraus abaixo, o que lhe dava um aspecto provocante de pegador de touros. Levantando os olhos para ela, Adelaide sentiu-se um fantasma, uma alma que ainda não fora para lado nenhum. Mas a rapariga não mostrava medo, nem qualquer espécie de perplexidade. Via-se que o sobrenatural não a impressionava. Curvando a cabeça para pôr a cara bem junto da de Adelaide, com um sorriso, levou um dedo aos lábios.
Luísa Costa Gomes, conto «Da Escada» em «Império do Amor»
" É no momento que encerra a beleza de um gesto
ResponderEliminarque se prolonga a vida"
(...)
"Agora, pode pintar-se o retrato do vento
no esquadro da janela.O tempo não se mexe.
A vida, por um instante, é enorme."
Autora: Maria do Rosário Pedreira
In Poesia Reunida ,´Pág. 92, Quetzal Editores ,Abril 2015
Há instantes que são enormes porque há Poetas que os conseguem desenhar.É o caso.
Com gratidão.
AM
Arthur Rimbaud, esse poeta deslumbrante que redigiu toda a sua obra antes dos vinte anos. Foi excêntrico e estranho desde pequeno e adquiriu hábitos de um autêntico demente: em 1871, com dezasseis anos, não se lavava, não se penteava, vestia-se como um mendigo, gravava blasfémias à navalha nos bancos do parque, vadiava pelos cafés como um lobo sedento, tentando que alguém o convidasse para um copo, contava aos gritos como gozava sexualmente com as cadelas vagabundas e tinha sempre na boca um cachimbo com o fornilho virado para baixo.
ResponderEliminarA LOUCA DA CASA -Rosa Montero (pág.150)
«Todas as utopias sociais – de Platão a Marx – partiram de um ato de fé: os ideais humanos, as grandes aspirações do indivíduo e da colectividade são capazes de conviver, a satisfação de um ou vários destes fins não é obstáculo para materializar também os outros. Talvez nada expresse melhor este otimismo do que o lema rítmico da Revolução Francesa: Liberdade, Igualdade, Fraternidade. O generoso movimento que pretendeu estabelecer o governo da razão na terra e materializar estes ideais simples e indiscutíveis mostrou ao mundo, através das suas repetidas carnificinas e das suas múltiplas frustrações, que a realidade social era mais tumultuosa e imprevisível do que supunham as abstrações dos filósofos a prescreverem receitas para a felicidade dos homens. A demonstração mais inesperada — que ainda hoje muitos se recusam a aceitar — foi a de que estes ideais se repeliam entre si a partir do exato momento em que passavam da teoria à prática; e de que, em vez de se apoiarem uns aos outros, se excluíam. Os revolucionários franceses descobriram, espantados, que a liberdade era uma fonte de desigualdades e que um país em que os cidadãos gozassem de uma total ou muito ampla capacidade de iniciativa e governo dos seus atos e bens seria mais cedo ou mais tarde um país cindido por numerosas diferenças materiais e espirituais. Por isso, para estabelecer a igualdade não havia outro remédio senão sacrificar a liberdade, impor a coação, a vigilância e a ação todo-poderosa e niveladora do Estado. Que a injustiça social fosse o preço da liberdade e da ditadura da igualdade — e que a fraternidade só pudesse ser concretizada relativa e transitoriamente, por causas mais negativas do que positivas, como no caso de uma guerra ou cataclismo que aglutinasse a população num movimento solidário — é uma coisa lastimável e difícil de aceitar.»
ResponderEliminarMario Vargas Llosa, "O Apelo da Tribo", trad. Cristina Rodriguez e Artur Guerra, ed. Quetzal
Bom dia com alegria e pandemia
ResponderEliminarInspirado pela guerra de vacinas em curso, lembrei-me desta passagem escatológica:
"E, devido ás tropas passarem por aqui e acampar nas redondezas, viam-se por todo o lado dejectos humanos de origem internacional, de todos os povos da Aústria, da Alemanha e da Rússia. Eos excrementos de soldados de todas as nacionalidades e de todas as confissões religiosas jaziam lado a lado, ou amontoados uns em cima dos outros sem o minímo desentendimento"
retirado de "O bom soldado Svejk", Jaroslav Hasek
Saúde, boas leituras e bom fds
cp
A cada um de nós, Extraordinários (gaba-te cesto...), os seus interesses no que tange à escolha e às leituras.
ResponderEliminarNo meu caso pessoal, entre outros assuntos, interessa-me sobretudo a história que reflicta o relacionamento com os novos países africanos de expressão portuguesa, Angola em particular!
Leio ou tento ler, tudo o que tenha a ver com a história destes territórios, os seus usos e costumes, o passado recente ou antigo numa perspectiva de entendimento e de integração de povos que considero são irmãos, pela profunda ligação e o muito que nos influenciámos. Há raízes comuns, muito largas e fundas, demasiado para serem ignoradas, menosprezadas ou alvo de tentativas de as cortarem.
Nos último tempos já se lêem bons livros que não referem apenas aquilo que hoje é considerado políticamente correcto, como manifesto de antiracismo, de esquerdismo obscurantista e cego, ou sabe-se lá o quê. Há bons livros que libertos dessas obrigações de obedecerem a uma ordem e visão condicionada, relatam o que foi na verdade e como foi!
Li com agrado "Fui soldado e morri" de Paulo Sande, já o disse aqui várias vezes. Deveria ser lido por todos os que queiram ou se interessem pelo sentir, pela alma do soldado português não esquerdista, não "SUV", CPCON, mas pelo que apenas foi, o povo.
Surgiu-me e atraiu-me este "O príncipe do Congo", de Xavier de Figueiredo, uma narrativa histórica, muito boa, bem escrita, fidedigna e assente em investigação profunda, que também deveria ser de leitura obrigatória, para que possamos perceber que não há que ter vergonha nem renegar o nosso passado histórico, o que fomos ou fizémos! Aqueles que agora, os políticos, pretendem reescrevê-la ou obrigar-nos a ter dela vergonha, mais do que todos deveriam ler esta narrativa histórica, antes de nos apontarem o dedo, pois não conhecem ou tentam apagar a sua própria história e responsabilidade.
Mas nada melhor do que a sinopse deste Prínicipe do Congo, para vos dar o lamiré:
Sinopse:
Este livro leva-nos a uma Angola a viver o fim do tráfico de escravos. Uma das últimas resistências a vencer para pôr fim a esse tráfico na costa de Angola foi a dos potentados locais mancomunados com os traficantes. É nesse quadro que, em 1845, ocorre a viagem a Lisboa de D. Nicolau, príncipe do Congo. Seu pai, o velho D. Henrique II, rei do Congo, dera-lhe uma missão: implorar à «compreensão» de Portugal para a «liberdade» de manter o tráfico de escravos, seu único rendimento. A missão esbarrou, porém, com uma realidade inultrapassável. Portugal, alvo de pressões e de jogos políticos, estava obrigado a extirpar dos seus domínios ultramarinos o tráfico clandestino, que neles persistia. Se não o fizesse, arriscava-se a perdê-los. A vontade de Portugal prevaleceu. Em 1860, o tráfico era dado como finalmente extinto. É essa aventura, agitada e dramática, que O Príncipe do Congo explora e relata.
Um bom fim de semana, que para mim será prolongado por ponte e feriado, são os meus votos cá desde a Cidade Morena!
Bairro da lata, é um dos meus preferidos , de Steinbeck! Um livro imortal, por força dos seus personagens imortais, únicos.
ResponderEliminarVi recentemente um Extraordinário Filme, "Orfãos de Brooklyn" baseado no romance de Jonathan Lethem, que podia ter sido escrito por Steinbeck... fiquei com vontade de comprar o livro!!!! Há adaptações ao cinema, de obras de Steinbeck , muitíssimo boas: Homens e ratos, uma delas...
Indo um pouco ao encontro do post de ontem,resolvi preencher este meu post com palvras de três poetas de quem gosto muito e que recomendo aqueles que têm algumas reservas quanto à poesia.
ResponderEliminarPAIXÃO
Podia escrever o teu nome num livro embaciado ou segredá-lo a uma borboleta negra
Podia cortar os pulsos e deixar o sangue correr até que o mar ficasse vermelho.
Ou beijar-te os pés. Mas esse gesto está reservado desde o princípio dos séculos e teria o sabor de uma profanação.
Jorge de Sousa Braga- "Os pés luminosos" - Centelha
AMOR MAIOR
Por ti fazia tudo meu amor.
Eu candidatava-me às autárquicas
eu via um filme do zefirelli
eu até corria a filha da puta da meia-maratona da Nazaré
a pé coxinho.
José Carlos Barros
POVOAMENTO
No teu amor por mim há uma rua que começa
Nem árvores nem casas existiam
antes que tu tivesses palavras
e todo eu fosse um coração para elas
Invento-te e o céu azula-se sobre esta
triste condição de ter de receber
dos choupos onde cantam
os impossíveis pássaros
a nova primavera
Tocam os sinos e levantam voo
todos os cuidados
Ó meu amor nem minha mãe
tinha assim um regaço
como este dia tem
E chego e sento-me ao lado da primavera
Ruy Belo - "Aquele grande rio Eufrates "
Fiquem bem.
A. Delfim
No meu post onde se lê "livro" deve-se ler "vidro". As minhas desculpas.
ResponderEliminarA. Delfim