Mistério
Ontem falei aqui de Pessoa e hoje não resisto a falar de Mário de Sá-Carneiro, seu grande amigo. Mas desta vez não se trata de nenhum congresso académico, antes de uma história que podia ser gossip (utilizo o inglês apenas porque a palavra é divertida) se não tivesse sido contada no último Expresso por investigadores a sério. Como calculo que saibam, o poeta Sá-Carneiro viveu em Paris alguns anos e foi no Hôtel de Nice daquela cidade que se suicidou ingerindo uma boa dose de estricnina, com uma fotografia da francesa Renée (sua amante) pousada na mesinha-de-cabeceira e umas quantas cartas deixadas para serem entregues aos destinatários. «Avisou» o seu amigo Araújo que fosse ter com ele ao hotel a uma certa hora, e este ainda o apanhou com vida mas já não conseguiu salvá-lo, chamando depois chamou Carlos Alberto Ferreira, que morava a pouco mais de uma centena de metros do hotel e era também amigo de Sá-Carneiro. No quarto do suicida havia uma mala onde se reuniram os poucos pertences do poeta, mala que foi retida porque este tinha uma dívida para com a proprietária e que lamentavelmente desapareceu; ora, por algumas cartas trocadas com Pessoa e outros amigos das letras, calculou-se até há pouco tempo que dentro da mala ficou uma série de textos inéditos perdidos para sempre... Mas agora, vejam lá como são as coisas, andando alguém de roda do espólio de Aquilino Ribeiro, encontra justamente os originais de alguns poemas do poeta de Orpheu, um conto, um livro de recortes com textos humorísticos, o bilhete de identidade, enfim, umas quantas coisas que se acreditava serem irrecuperáveis. E o grande mistério é que, apesar de Aquilino ter vivido em Paris no mesmo período que Sá-Carneiro, não há qualquer prova de que se tenham sequer cruzado (e Aquilino tê-lo-ia certamente mencionado nos seus escritos se tivesse acontecido). Crê-se que terá sido Carlos Ferreira quem, ao «arrumar» a mala, desviou alguns escritos com medo de que fossem parar a mãos erradas e os deu a guardar a Aquilino; mas não se sabe realmente se foi assim... Agora, que tem graça a obra de Sá-Carneiro seja encontrada entre os papéis do homem da Carbonária, lá isso tem. Leiam o longo artigo do último sábado e não se arrependerão. E, já agora, recomendo a poesia de Sá-Carneiro. Poemas como «Serradura» e «Caranguejola» estão entre os meus favoritos.
A vida é uma "caixinhas" de surpresas... Bom, bom, é quando elas também são boas, como esta notícia.
ResponderEliminarAdoro o seu blog. Com ele fiquei rendida a Barnes. Mas este artigo hoje é uma delícia! Já agora aproveito para referir que gosto muito das suas sugestões de leitura. Obrigada! Susana
ResponderEliminarObrigada!
EliminarSim, senhor! Que "ministério".
ResponderEliminarCláudia da Silva Tomazi
Ahahahah!
EliminarQuerida Cláudia: este é para nós!
"Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém..."
Saudações cá dos 13º E !
Agora é 13 E? Já não é Cidade Morena? 😊
EliminarEstou a referir-me à localização geográfica, à longitude, que a Cláudia é mulher do mar, ó Senhora Professora Dótoura !
EliminarQuando vi a capa da revista na net tive vontade de comprar, mas fazer vinte e tal quilómetros para ir à cidade, pôr máscara, estar em filas...
ResponderEliminarOlha, paciência, fica para a próxima.
Aos poemas que a Rosário refere, eu juntaria o Quási, que é o meu preferido.
Há uma edição muito bonita da E-Primatur com a obra essencial dele.
Para compensar vou dar uma espreitadela aos poemas. Comprei o livro há quatro anos: como o tempo passa rápido...
🌻
Maria
Seja-se ou não uma traça consumidora de poesia, Mário de Sá Carneiro é um nome que sempre desperta o apetite, evidentemente!
ResponderEliminar"Morte, que mistérios encerras?... Ninguém o sabe... Todos o podem saber... Basta ir ao teu encontro, corajosa, resolutamente, que nenhum mistério existirá já!" (sic)
Fica o mistério do achamento dos papéis em posse do "carbonário", o qual suponho eu que fosse velhaco o bastante (no bom sentido) para os desviar ? Seria um tema a explorar por um romancista, não está por aí nenhum à espreita? É que estamos a falar de pessoas notáveis, com carisma e tudo o que se precisa para romancear, interessantes!
Saudações ensolaradas cá de uma tépida Cidade Morena!
Já agora, por cá, "gossip" diz-se mujimbo!
ResponderEliminarNão acho particularmente engraçado o "gossip", gosto bem mais de "zumzum" ou até de "fofoca" ou "calhandrice". Ainda somos palavrosamente imbatíveis !!!!
Mas mais ou menos dentro do assunto, há termo anglo-americano de que gosto: "chit-chat" !
Mujimbo é muito bom! Sempre a aprender consigo caro ALP.
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