O que ando a ler

Estou mesmo no fim de A Contraluz, de Rachel Cusk, uma autora canadiana de quem ainda não tinha lido nada. Foi considerada pela revista Granta em 2003 uma das mais promissoras escritoras de língua inglesa e já publicou quase uma dezena de romances, tendo sido galardoada ou finalista de importantes prémios, tais como o Whitebread, o Somerset Maugham ou o Orange. O romance é muito curioso porque trata de como alguém que escreve (como a autora, de resto) é, em muitos casos, um ouvinte exemplar. A protagonista, que é escritora e vai fazer uma oficina de escrita em Atenas durante o Verão, está ao longo da sua estadia na capital grega com variadíssimas pessoas (o homem que veio ao seu lado no avião, uma escritora grega de sucesso, amigos gregos, os alunos do curso, a mulher que ocupará o quarto que ela alugou e chega mais cedo do que era suposto); e, na verdade, essas pessoas carregam-na com as suas histórias e ela pouco consegue dizer de si mesma aos que a rodeiam (nós, leitores, sabemos alguma coisa, apesar de tudo). Um ponto de partida interessante, mesmo que o resultado seja diferente do que eu esperava (a parte melhor é mesmo a dos trabalhos dos alunos, já mais para o fim), mas sem dúvida inteligente e original. O texto da contracapa lembra que, nos seus livros anteriores, Rachel Cusk se expunha mais, aqui sobram ainda vestígios da escritora na protagonista que, porém, se vai «anulando» nas histórias e vidas das outras personagens. Publicado pela Quetzal e traduzido por Ana Matoso.


Hoje recomendo mais uma maravilha imortal que todos devem absolutamente ler: Pedro Páramo, de Juan Rulfo. (A minha edição inclui, além desta, mais duas novelas curtas, leiam-nas também.)

Comentários

  1. Ando a reler Crime e Castigo, acabei de reler A Sangue Frio do Capote e Viagem ao Fim da Noite do Céline. Preparo-me para ler "Ler Imagens" de Alberto Manguel e Tempo de Dádivas de Patrick Leigh Fermor. Li também Notas de Inverno Sobre Impressões de Verão do Dostoievski, não gostei, achei fraquito, uma desilusão.

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  2. Acabei o frívolo e divertido "O Mundo é Pequeno", de David Lodge e comecei "O Doente Inglês", de Michael Ondaatje, sugestões na nossa anfitriã. Intercalei "O Pequeno Mundo", de Luísa Costa Gomes pelo jogo dos títulos mas defrontei-me com uma surpresa. Grande livro, construído de forma muito original em modo epistolar.

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  3. António Luiz Pacheco4 de maio de 2020 às 02:23

    Pedro Páramo é um daqueles livros que nos ficam, apesar de não ser fácil entrar-lhe, é confuso e perde-se fácilmente o fio, desde e sobretudo no início, se não o lemos de enfiada!
    Mas é um grande livro!!!!

    Tal como aquele que estou a acabar, e infelizmente não tenho levado a eito como gostaria: "Grande sertão - veredas", que grande livro! É só o que posso dizer, continuando espantado como é que só o descobri recentemente, graças aqui à nossa Extraordinária Anfitriã!
    Como já disse, é o que nos anima, leitores, pensar que ainda há destes por descobrir!

    O livro que anda a ler, pela descrição, não me atrai... sinceramente, não.

    Saudações e votos de leituras, são os votos deste início de semana em que se espera a normalidade seja retomada, pelo bem de todos, cá desde a Cidade Morena.

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    1. Esta máxima de esperança e descoberta do Paxeco, sobre livros que ainda não lemos, é para sublinhar e guardar "é o que nos anima, leitores, pensar que ainda há destes por descobrir!"

      Ando a ler, ou melhor a reler: "O canto do carrasco" de Norman Mailer. A história de Gary Gilmore condenado e executado em Janeiro de 1977, nos EUA.
      Um pouco (mas a léguas) na linha do memorável, do extraordinário "A Sangue Frio" de Truman Capote, um livro absolutamente fantástico do melhor que li até hoje.

      Este "O Canto do Carrasco" Prémio Pulitzer em 1980, tem um senão - a letra microscópica; é que são quase mil páginas em, repito, letra minúscula, uma edição da extinta Publicações Europa-América, em dois volumes (de bolso).

      É a história de nove meses terríveis, o espaço de tempo decorrido entre a sua libertação condicional e as mortes insensatas que o levaram à sua hora final.

      Norman Mailer foi um dos maiores cronistas da América. E que bem regista os depoimentos dos amigos, da sua amante Nicolle, de antigos patrões, das suas vítimas, polícias, detectives, guardas prisionais, juízes, advogados, e de todo o mundo atormentado deste perturbado assassino (um excelente pintor, mas sem sangue nas veias tal foi a crueldade e frieza com que assassinou as suas vítimas (pessoas simples da rural América)!

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  4. Bom dia
    Pelo que percebi o livro 'contraluz' é o segundo de uma trilogias mas como refere que é o primeiro livro que lê da autora deduzo que não implica ler o primeiro para ler este.
    Em relação à sugestão 'Pedro páramo' fui consultar e não percebi pela sinopse o fio da narrativa, se possível pode-me esclarecer do que trata o livro.
    Obrigado
    Henrique Cheira

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    1. Caro Henrique, um livro nunca é apenas uma história e, às vezes, a história é o menos importante do livro, é apenas o cenário. É o caso de «Pedro Páramo» e ainda mais do livro aqui referido pelo nosso Extraordinário António Luiz Pacheco: Grande Sertão: Veredas, que inventa uma lingua nova e não tem uma história de fio a pavio. Juan Rulfo foi considerado por muitos o precursor do realismo mágico e o inspirador de vários autores como, por exemplo, García Márquez. A sua obra é dimunuta, sendo «Pedro Páramo» a sua novela a mais conhecida. Começa com um rapaz que, depois da morte da mãe, vai procurar o pai, que se chama Pedro Páramo, e descobre que, se calhar, está... Enfim, não vou contar mais nada para não lhe estragar o prazer da leitura.

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    2. Eu suponho que "A Contraluz" é o primeiro da trilogia, "Trânsito" o segundo e "Kudos" o terceiro.

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    3. Cara Maria embora seja um leitor, não digo compulsivo, porque não gosto do termo sou um leitor assíduo e gosto de ter uma ideia do que vou ler ou no caso do que vou comprar, como se costuma dizer cada um com a sua mania, contudo prezo muito a sua opinião e fiquei com a sua resposta com uma ideia do que me espera nessa leitura por isso obrigado pela resposta.
      Henrique Cheira

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    4. António Luiz Pacheco4 de maio de 2020 às 05:52

      Caríssimo Henrique: Pedro Páramo é mais do que a busca pelo pai do personagem principal (D. Pedro é o seu pai) , uma viagem pelo Mundo mexicano de uma época, e um retrato.
      Como disse, não é fácil segui-lo pois há tergiversações constantes, mas não é por acaso que é considerado um Grande Livro. Isto para os que gostam de autores e tramas Centro/Sul-americanos, como é o meu caso.
      Fazer uma sinopse creio que é difícil, e se eu o resumo assim é mesmo porque nem sou literato nem intelectual... ahahahah! Se me permitem a brincadeira.

      Grande abraço - à conveniente e prudente distância regulamentar - cá da Cidade Morena!

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    5. Obrigado António Luiz Pacheco pela opinião, estou cada vez com mais vontade de comprar e de ler.
      Henrique Cheira

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    6. "Pedro Páramo" é facílimo de seguir. Enfim, é a minha opinião... E é um livro genial. Uma obra-prima. Invejo quem ainda não o leu.
      PLFF

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  5. Obrigado pelas sugestões

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  6. Eu tenho andado, no último mês e picos, a ler uma série de livros de Evelyn Waugh. Já tinha lido em tempos "O Ente Querido" e desta vez ataquei "Reviver o Passado em Brideshead", "Declínio e Queda", "Corpos Vis", "Um Punhado de Pó". Destacaria os três últimos. Ainda não terminei o périplo: estou a meio de "Enviado Especial", que promete bastante. No caso de haver alguém interessado, informo que algumas personagens se repetem de livro para livro, pelo que é melhor começar por "Declínio e Queda", e depois continuar cronologicamente. O humor é feroz.
    Juan Rulfo é de facto excepcional. Não esquecer de ler também "A Planície em Chamas".

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    1. António Luiz Pacheco4 de maio de 2020 às 05:58

      Sim senhor(a)? Planície em chamas (eu prefiria chamar-lhe sertão em chamas...) é um grande livro também, não muito diferente mas que usa uma crueza maior, também própria dos escritores latino-americanos, que retratam a sua realidade violenta e dura.

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  7. Estou na leitura de "A grande Solidão" de Hannah Kristin e já é o segundo. Comecei a lê-la por força da indicação feminina, e descobri, as leitoras lhes são fiéis. Bem, talvez as mulheres lidam melhor por certos artificios da escrita do quê originalidade. Mas, diferentemente do rótulo não o considero do universo simbólico feminista, mas se lhes fica evidente a cumplicidade e a leitora desperta essa realidade em torno da presença dos personagens. Este trata-se de uma família em conflito com um ex-soldado americano e desenrola-se no Alasca, a última fronteira selvagem americana, obviamente essa é a ideia central. A autora trás indissociável a convivência, tanto sob aspectos humanos quanto de sobrevivência. Não é o tipo de leitura complexa que se lhe exige conhecimento, pelo contrário nos faz entender e aprender através do ambiente inóspito os valores da limitação.
    Cláudia da Silva Tomazi

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    1. António Luiz Pacheco4 de maio de 2020 às 08:44

      "nos faz entender e aprender através do ambiente inóspito os valores da limitação."

      E este comentário nos faz pensar que interessante seja a sua leitura, pelo tema!
      Inspirado num daqueles seriados americanos sobre a vida no Alaska, talvez?

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    2. Desculpe-me respondi por extenso abaixo.
      CST

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  8. Por exemplo, Buying Alasca trata-se de moradia, Pesca Mortal a competição entre barcos de pesca com o caranguejo da neve e tem outro sobre os trilhos de trem até Talkitna. O Alaska tem sido objeto de tema de tantas séries que certo modo desenvolvem (alguma) campanha para o habitá-lo. Trazido constantemente na esfera televisiva desperta a exploração e aventura e sob as mais diferentes abordagens, mantém acesa a chama do desafio. Sim, faz diferença o modo de pensar dos americanos e sobretudo valorizado novos investidores, se é o que quer saber.

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    1. António Luiz Pacheco4 de maio de 2020 às 11:38

      Sim, eu vejo nos canais de TV, as séries sobre o Alaska, que acho mesmo muito interessantes, e concordo plenamente que é a Última Fronteira!
      Os Norte - americanos têm essa notável postura, atitude, filosofia... que vem desde os pioneiros, tão bem expressa por James Fenimore Cooper e até Elizabeth Gilbert, com o seu "O último homem americano".

      Saudações cá do meridiano 12 E !

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    2. Inclusive extraordinário António Luiz, você tem um conto do pioneirismo americano em que expressas domínio do assunto.
      CST

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  9. As minhas leituras actuais:

    1) Sharp de Michelle Dean (confesso que muitas das mulheres aí retratadas só conhecia de nome e, agora, vou ter que comprar livros de uma série delas!)

    2) Os ricos de Maria Filomena Mónica (comecei ontem mas parece promissor)

    3) Todas as palavras, poesia reunida de Manuel António Pina (não poderia ter recebido melhor presente no Dia da Mãe)

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