O obsceno literário

Ouço e leio que Bolsonaro, para criticar a pornografia, postou também ele pornografia, não fossem as pessoas não saber o que era e precisarem de ver um exemplo especialmente edificante. Obscenidade por obscenidade, o melhor é ter em atenção a colecção de livros «obscenos» que a British Library está a digitalizar, obras escritas entre 1658 e 1940, mas com especial tónica nos séculos XVIII e XIX, em que a literatura dita erótica ou pornográfica (eu sei lá qual a melhor classificação) floresceu. Todos conhecemos o Marquês de Sade, evidentemente, mas desconhecemos, por exemplo, John Cleland, que escreveu em 1748 um romance intitulado Fanny Hill que, segundo o artigo da Open Culture, não desilude nem como livro pornográfico nem como literatura de entretenimento. Muitos outros títulos, proibidos na sua época, tiveram como destino os «cofres» da British Library, sobretudo para não chegarem às mãos do público (o que os queria ler e o que os queria destruir)  – o que acabou por ser bom pois tornou agora fácil a sua digitalização para todos os subscritores dos Arquivos de Sexualidade e Género da biblioteca. E, segundo o que leio, há obras imensamente interessantes, escritas por homens e mulheres, em variadíssimas épocas, sobre educação sexual, homossexualidade e fluidez de género. Para os interessados, há mais informações (entre as quais deliciosas capas) aqui:


 


http://www.openculture.com/2019/02/the-british-library-digitizes-its-collection-of-obscene-books-1658-1940.html

Comentários

  1. António Luiz Pacheco12 de março de 2019 às 02:53

    O sexo é o que é … o mais profundo e mais antigo interesse da humanidade, tenham lá paciência os puritanos, os hipócritas, os beatos e as pessoas comuns, mas não há como o negar.
    O sexo comanda a vida, diria cruamente por muito que isso choque.
    Como tal e portanto, não há que espantar ninguém que a literatura e as outras artes, que são apenas o espelho dessa vida e dos tempos, se dediquem ao tema, com mais ou menos elevação, crueza ou mesmo arte!

    A pornografia é uma indústria, alimentada por essa realidade de que o sexo é aquilo que interessa à sociedade desde sempre e faz mover pessoas. Com o advento da comunicação e com os meios de divulgação actuais, continua a ser o que sempre foi e mais ainda pois também evoluiu.

    Portanto nenhuma admiração, é tema que deixou de ser tabu, faz parte do dia a dia das pessoas, de todas as pessoas, desde os talibãs que se chocam com estátuas nuas mas aceitam o casamento com meninas de 10 anos, seja o clero, puritano porém pedófilo, ou os correctíssimos presidentes dos EUA que praticam sexo com estagiárias na Casa Branca…

    Saudações cá de uma Cidade Morena que transpira sexualidade.
    (Desculpem se choquei alguém).

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  2. Oh, ainda não consegui esquecer a cena do fotógrafo, da câmara escura, as luzes vermelhas... tchhhhh... meu deus!...
    Eu só estou contra quem se aproveita do sexo para, de forma vulgar e fácil, encher os respectivos bolsinhos. De resto, nada contra, antes pelo contrário.

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    1. Estou-me a referir, obviamente, a quem escreve explorando esse tema, às vezes até misturando de quando em vez, umas pitadinhas de erudição e um q.b. de citações para vender melhor o produto.

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    2. É uma pena não se poder editar estes comentários: gralhas, repetição de palavras, construção de frases deficiente, enfim...

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  3. «Desconhecemos John Cleland e o seu "Fanny Hill"»? Pensei que era muito conhecido. Por acaso, nunca li o livro, mas o título, assim como o nome do autor, são-me muito conhecidos. Até há filmes e séries baseados nesta obra.

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    1. António Luiz Pacheco12 de março de 2019 às 05:10

      Fanny Hill, eu não vi o filme, porém conheço o nome, cujo autor desconhecia.
      Creio que houve alguma polémica relacionada com esse filme. Googlando é capaz de aparecer alguma coisa…

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  4. Bom dia. O título do post nem revela a sombra de hipocrisia nas sobras da literatura e já, passadas Cantigas de mal-dizer, lapso de mesquinhez nem menos sórdido. Isso para dizer o quanto se lhe contribuiu (as vezes) para sedimentação de uma cultura retrógrada e cafona ou de sofrimento e tédio. Pessoas são bem mais que (isso); e crianças, verdadeiras preciosidades de amor e inocência. Prezo pelo conceito de sempre: o Bom senso, o prazer e delícias que a comunidade literária em sua íntima capacidade de regenerar feridas, induz.

    Cláudia da Silva Tomazi

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    1. António Luiz Pacheco12 de março de 2019 às 07:35

      "Prezo pelo conceito de sempre: o Bom senso, o prazer e delícias que a comunidade literária em sua íntima capacidade de regenerar feridas, induz."

      Gostei! Vê, é como poesia…

      Saudações cá deste lado do Atlântico, do Paralelo 12,5 ou por aí … Sul, evidentemente!

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    2. Claro, há poesia cherry! O sempre desde agora. Ou; haver-se-ía sempre, antes de mim?!

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  5. Bom dia com alegria

    Só queria partilhar com esta comunidade virtual que iniciei a leitura de "Os irmãos Karamazov", de Dostoiévski.

    Não sendo uma obra da estirpe das hoje referidas por MRP, tem algumas tramas licenciosas, sempre tratadas de forma menos gráfica, obviamente. Ainda só li 120 páginas, mas promete. Nesse campo promete.

    Pessoalmente, dentro do género aludido, gostei bastante de "O meu pipi", baseado num blog homónimo e cujo autor admito ser Ricardo Araújo Pereira, ou talvez não.

    É um tema popular e com bastante procura. Basta pensar que, exceptuando o filho da Virgem Maria, salvo opinião em contrário, estamos todos cá hoje derivados da ocorrência de sexo entre alguém.

    Boas leituras
    CPedro

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  6. O Decamerón de Giovanni Boccaccio é o mais puro da literatura erótica; puro, no sentido de leitura erótica, humorística e autêntica. Quem não leu, devia ler. Não se pode afirmar que o livro seja machista ou feminista (coisa em voga e que causa urticária em discussão), mas encontra-se lá de tudo, desde o frade ao boticário, desde a aldeã à cortesã.
    Isto quer dizer que, nos séculos passados, também havia sexo e nenhuma televisão. Mais procurados eram os livros com estampas (xilogravuras) a ilustrarem os textos "puxadinhos", sendo os mais apetecidos onde se entrelaçavam clérigos, freiras e outros recatados, recolhidos da vida temporal.
    Segundo Jorge Ferreira de Vasconcelos (escritor do século XVI), "não podem negar os homens serem muito obrigados às mulheres, por cujo respeito o mundo tem recebido grandes benefícios e eles gloriosa fama".
    Puxando a brasa ao meu planalto da Nave, por aqui existia um padre (por sinal Costa), que fez gerar 299 filhos em 53 mulheres, o que deu azo a eu escrever uma obra sobre a sua "campanha", em boa verdade a poder ser lida com decoro desde os 7 aos 77 anos, que vai na 6ª edição e vende como castanhas assadas, quentinhas e boas.

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    1. António Luiz Pacheco12 de março de 2019 às 10:01

      Boa! E onde podemos encontrar essa obra? Isso promete… é que assim eram os padres, o Xico do Padre Manel, que o diga… e vamos para Aquilino e o incontornável "Andam Faunos pelos bosques" - isto de conversar num blog de livros é no que dá, eheheh! - e os seu padres, padreadores, se me entendem a expressão.

      Não resisto a contar uma história ouvida sei lá eu onde, mas talvez espólio do meu tio-bisavô o Cónego Malato, que morreu muito velho, era divertido, tinha um Ford 1917 e a sobrinhada adorava-o.

      Um padre, algures numa aldeia da diocese de Portalegre, vivia pecaminosamente com a dita "governanta", o que escandalizava alguma das suas paroquianas que se iam queixando ao bispo e instâncias superiores, até que um dia este de visita à referida paróquia, resolveu tirar aquilo a limpo, ao visitar a paroquial residência.
      Foi apresentado à governanta, aliás paga pela paróquia como a casa e o sustento do pároco, e pôde verificar que a residência sendo exígua tinha apenas um quarto e uma cama… o que o preocupou e levou a questionar o padre sobre como dormia.
      Este mostrou uma tábua, aparelhada e explicou que era colocada no leito, ao meio, dividindo a cama que era assim partilhada na maior das composturas.
      O bispo, avaliou, mas em dúvida comentou que compreendia, mas… a carne sendo fraca podia haver a tentação…
      E logo padre prontamente: Se houver tentação, a tábua sai logo, com toda a facilidade!
      Assunto arrumado!

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    2. Caro Pacheco

      Por incrível que possa parecer, essa obra é disponibilizada apenas em dois postos de venda e só na localidade mater do dito padre, perto de Ferreira d'Aves, que não há-de ser desconhecida para si. Recusei colocá-la na edição "mainstream" (sou mais teimoso que o burro que o meu avô punha a puxar à nora) e as edições sucedem-se, a que se aliou a proposta (ainda não concretizada) de passar a coisa a uma série de televisão ou ao cinema, dependendo dos subsídios do ICAM, tendo assinado contrato com uma produtora.
      Se "googlar" o nome do padre e o meu nome e apelidos, aparece-lhe muita coisa sobre o caso - incluindo comentários brejeiros, até interessantes - e a apresentação do livro no "youtube".
      Isto não quer dizer que o seu interesse pela leitura dessa obra (que veio aqui na sequência da sempre oportuna peça diária da Rosário, que devemos agradecer) fique coarctado, uma vez que, para amigos, disponibilizo graciosamente, com dedicatória, o "book". Já tive o seu endereço quando eu assinava com o heterónimo (!) Joca Martinho, suponho que terá sido apontado algures, peço-lhe que me indique o sítio para onde lho enviar.

      Quanto à tábua separadora, bendita ela tanto quanto tem de humor essa bem urdida história do Cónego Malato.

      Cumprimentos longos desde a Nave até à Morena Cidade, onde o "meu" padre Costa, em missão evangélica ou outra, teria certamente contribuído largamente para o preenchimento do gráfico de fecundidade das morenas autóctones... e das mais clarinhas.

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    3. António Luiz Pacheco12 de março de 2019 às 12:36

      Caro:
      Endereço electrónico para onde pode mandar-me o seu, pois confesso que não o localizo:

      antonio.pacheco@seabraglobal.com

      Como é o meu oficial e profissional, não há problema na sua divulgação!

      Um abraço, haja quem valorize as morenas, eheheheh!

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  7. O sexo comanda a vida, sustenta o Extraordinário Pacheco. Então não é o sonho que comanda a vida? Sonho erótico incluído, evidentemente.
    Vamos dar ao mesmo.

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    1. António Luiz Pacheco12 de março de 2019 às 16:33

      Eheheh! Vejo que percebeu a minha alegoria, ou colagem, ao Grande Poeta e à sua celebrada máxima!

      Sonhos molhados, não é o termo? Ahahahah!

      Grande abraço!

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  8. Bom, eu confesso que li a Fanny Hill e "a filha da Fanny Hill" ainda na adolescência, já que o livro constava da biblioteca lá de casa . Qualquer dia tenho de o reler...

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