Um desabafo em perguntas
Estou aqui sem saber bem o que pensar – e desde já aviso que não vou responder a polémicas porque estou cheia de trabalho e as mãos, com o reumático, ainda me vão maçando. Arte é arte e não deve ser amputada, certíssimo, disso ninguém duvida, pelo menos em tese. Esta é uma das poucas afirmações que farei hoje e, por isso, passo às perguntas. Será a arte para todas as idades – e daí tanta gente se ter indignado com o «reservado» para maiores de 18 anos na exposição de Robert Mapplethorpe, que eu até achei a parte mais fraca (mas também nunca apreciei muito o trabalho do fotógrafo, para que conste)? Cinema é também arte (a sétima) e tem uma classificação etária definida há anos sem que ninguém se insurja contra isso… Porque será que nas outras artes se refila tanto com balizas etárias, e no cinema não? Cortar três versos à Ode Triunfal de Álvaro de Campos num manual escolar (identificando por traços que houve corte e incentivando assim a busca dos versos em falta) é grave? (A mim cortaram-me muitos versos do Gil Vicente e não me lembro de isso dar notícia, e estávamos já em 1975-1976, ou seja, depois do 25 de Abril.) Um desses versos fala de «pândegos e putas», nada de mais, os alunos dizem palavrões a torto e a direito, não vejo razão para cortes; os outros dois falam de masturbação feita por «meninas de oito anos a senhores com ar decente em vãos de escada» (e o poeta diz que acha isso belo)… Os estudantes do Secundário já têm idade (17, 18 anos) para perceber (estão na idade da masturbação, segundo alguns comentadores), mas os autores do dito manual alegam que não quiseram promover um comportamento pedófilo (deixando ao critério do professor dizer aos alunos quais os versos em falta), e eu acho que não deixam de ter razão porque, se estivessem lá os versos, alguns paizinhos iam cair-lhes em cima, está bom de ver, como sucedeu com o caso do livro de Valter Hugo Mãe aconselhado pelo PNL que falava de sexo anal. Já fui professora de Português e, uma vez, ao falar de adjectivos a uma turma, disse simplesmente «A Ana é loira», e houve logo uma alminha que respondeu: «A Ana é loira só se for na… (pausa longa) debaixo dos braços», referindo-se a uma colega Ana, que por acaso era morena. Por isso, imagino que pode haver grande desestabilização numa sala de aula (mesmo aos 17, 18 anos) com os dois versos cortados à vista de todos: risinhos, chacota, convite à bandalhice, desvalorização do sentido do poema, enfim… É até provável que, em algumas turmas, nem se consiga dar a obra do engenheiro Campos como deve ser e tudo fique reduzido àqueles dois versos escaldantes na cabeça dos jovens («Álvaro de Campos? Ah, sim, aquele das meninas de oito anos a masturbarem senhores em vãos de escada?»), o que seria triste e injusto para o grande poeta da língua portuguesa (Campos é o meu preferido dos heterónimos). A senhora da Associação dos Professores de Português (salvo erro) diz que os professores repudiam o corte dos versos, mas falará por si ou por todos os professores? Porque está a notícia sobre este assunto na primeira página dos jornais em letras garrafais (outros assuntos quanto a mim mais importantes nunca vão para esse lugar)? Pergunto ainda se quem agora está chocadíssimo com o corte dos três versos da ode não é também quem ficou chocadíssimo por o PNL ter aconselhado o romance de Valter Hugo Mãe há tempos. (Encontrei pessoas no Facebook que por acaso se sentiram indignadas com as duas coisas; parece-me que há pessoas que simplesmente adoram indignar-se e não perdem uma oportunidade de o fazer, muitas vezes por razões contraditórias.) Também receio que muitos alunos de hoje não pesquem nada da Ode Triunfal (excepto talvez os versos cortados), de tal modo estão treinados a ler pela rama no raio dos seus telemóveis e a não pensar em nada senão no que vão fazer logo a seguir. E era isto. Hoje não respondo a comentários, isto foi mesmo só um desabafo.
Bom dia, Maria do Rosário, compreendo que não responda, até porque raramente o faz, preferindo deixar-nos a conversar (ou a desconversar) uns com os outros - o que acho muito bem.
ResponderEliminarEu não tenho facebook, pelo que nem imagino o que se passa por lá...
Vi no blog do Eduardo Pitta e depois aqui no Horas, e mantenho o que disse: ou publicavam o poema na íntegra ou publicavam outro poema (e o Álvaro de Campos tem tantos e tão bons...).
A Tabacaria, por exemplo, que até é, talvez, o meu favorito.
Agora um poema mutilado, não - Jamais! como dizia o outro - e ainda por cima com as linhas a tracejado... como que a chamar a atenção para o que queriam evitar... não, não e não.
O Pessoa não merecia isto!
⚘
Maria
Se não gostam da Triunfal por causa das putas e da masturbação leiam a Marítima, que por acaso é a minha escolha, e essa acho que não está mutilada, a Tabacaria e todo o Álvaro de Campos também o meu favorito.
ResponderEliminarA Maria do Rosário não precisa comentar. Disse o que pensava, criticou o alarido.
ResponderEliminarSalvo melhor opinião - e suponho que todos nós julgamos a nossa melhor que as outras - concordo com a Maria do Rosário num determinado contexto fundamentado, discordo de outras observações que legitimamente reproduziu.
A minha opinião é: não sendo a "Ode" apropriada a um manual escolar, por que razão foi aí introduzida? E o porquê das reticências (ora justificadas pela Rosário no corpo da sua peça quando aponta "Ana é loira só se for na… ")? E qual a razão de a comunicação social não se pronunciar sobre este pormenor, se há uma factual falta de bom senso por parte dos autores do manual, da editora e do ministério que crivou a obra?
Pessoa possuía uma criatividade febril: com ou sem a aguardente do Martinho da Arcada, ou a eventual ida do "Álvaro de Campos" a um pub de Londres, onde supostamente estaria em 1914 quando escreveu a poesia, o Poeta expressou o que sentia ao ver o que via; a criação dos heterónimos foi disso exemplo, pois necessitava extravasar por muitos "eu" essa criatividade, que não devemos hoje julgar. Gostamos ou não gostamos, não é necessária tanta truculência na defesa e na crítica, alguma com a sua pilhéria e filáucia, pois o resto é conversa fiada...
De resto, como já o fiz em comentário anterior, regresso a esta caixa das visitas após muito tempo depois de usar o meu heterónimo de Joca Martinho (e não da Arcada), e de enviar saudações especiais para o Bairro Ribatejano onde certamente estará o Pacheco.
Ainda cá estou sim senhor! E recebo prazeirosamente as suas saudações.
EliminarNão podia estar mais de acordo com as suas sensatas palavras: se a obra contém partes achadas impróprias para determinada idade, então não deve ser incluída no manual, há outras obras do autor! Dá a sensação que quiseram provocar, ou testar…
Um grande abraço cá do Bairro Ribatejano!
Boa tarde
EliminarCongratulo o autor pela pertinência e acuidade dos seus argumentos.
Quanto a Pessoa, se visitasse hoje um Lyceu qualquer, uma EB, certamente ficaria enrubescido pela "desenvoltura" da nossa juventude.
Fico na dúvida se questionaria a censura, por inútil, ou se, pelo contrário, editaria a Ode, carregando no vernáculo, por forma a adaptá-la aos tempos modernos...
Cordialmente
CPedro
Não creio que Pessoa carregasse no vernáculo, a poesia não anda ao sabor do palavrão, usa-o, serve-se dele se lhe diz ou se aproxima da ideia do poema. Digo eu que não sou poeta e nem faço versos.
EliminarConcordo com as apreciações anteriores - arte é arte, não deve ser mutilada e ou publicavam a Ode Triunfal sem cortes, ou escolhiam outro poema de Álvaro de Campos (e também prefiro a Ode Marítima) – mas também concordo com parte da análise da Rosário: nem toda a arte é para todas as idades, como nem todos os filmes e nem todos os livros são para todas as idades – pelo menos, é a minha opinião: de que as crianças devem ser minimamente resguardadas de situações para as quais, devido à sua imaturidade, não estejam ainda emocionalmente preparadas. Mas neste caso concreto, para além destas considerações teóricas, num país pequenino e mesquinho como o nosso, com a nossa história (relativamente) recente ligada à censura ou mais recente ainda ligada às pequenas polémicas do politicamente correcto, parece-me claro que publicar um texto “censurado”, por motivos que envolvem crianças, ensino e sexo, iria acabar inevitavelmente em polémica aberta. E a debatermos todos, eventualmente até em sala de aula, apenas os 3 versos cortados, em vez do poema em si, que se pretendia introduzir/debater/ensinar. Para quê, então? Em vez de censurar 3 versos, não seria muito mais avisado, escolher outro poema? É o que nos falta, tantas vezes: simples bom senso. Enfim…
ResponderEliminarNão sei bem se podemos chamar crianças a alunos do 12º ano:). O que falta no poema truncado não é desconhecido dos alunos, o juízo que o poeta faz disso é que me parece perigoso dar-se a ler sem explicação do professor. E também não sei se os professores estão eles mesmos à vontade para falar sobre o assunto com os seus alunos. Outra coisa que não sei é se a Ode Triunfal contém elementos que a façam mais de acordo com o programa de português de 12º ano e portanto não é substituível pela Ode marítima ou por outro poema. Penso até que, provavelmente, todos os poemas referidos em comentários como possíveis substitutos, são dados na disciplina de português. Talvez não seja caso de substituição.
EliminarE sim, estou plenamente de acordo com faixas etárias e arte que se adeque a elas. Mas parece-me, como diz a Rosário, que as pessoas gostam de se indignar. E que existem motivos de maior e verdadeira indignação a que os agora indignados são soberanamente indiferentes.
Peço desculpa, queria apenas reforçar que quem frequenta o 12º ano não é criança, mas depois distraí-me e escrevi demais.
No fundo acaba por ser uma divulgação da poesia de Pessoa. Até os alunos de Ciências e Desporto vão querer conhecer a Ode. Lembro-me de ler os Maias e todos fixarem apenas um detalhe dessa grande obra.
ResponderEliminarAcho que estão a querer infantilizar cada vez mais os jovens adultos. Se escondermos tudo, mais vontade terão de os ler? Irão cortar Gil Vicente? Bocage?
Se têm colocado a versão completa, nem os miúdos iriam reparar. Uma seca ler textos longos ;-)
Aplaudo... de pé.
ResponderEliminarMais uma lúcida exposição da extraordinária MRP (100% de acordo).
ResponderEliminarTal como aqui já se salientou: não sendo a "Ode" apropriada a um manual escolar, por que razão foi aí introduzida?
As gentes do politicamente correcto arranjam sempre qualquer coisa para se indignar (desde que a sua doutrina seja ao contrário do que é efectivamente lógico e correcto).
Faltou acrescentar que esta polémica se deve única e exclusivamente aos INCOMPETENTES que escolheram o texto em questão.
EliminarA ICOMPETÊNCIA grassa por tudo quanto é sítio...e o resto são lamúrias da TVI
Discordando da opinião da Dra. Maria Pedroso, sugiro a leitura da crônica seguinte:
ResponderEliminarhttps://hdocoutto.blogspot.com/2019/01/pessoa-censurado-qualquer-censura-e.html
Tendo postado um texto discordante como comentário, cujo link não se estabeleceu, ponho aqui a forma de aceder ao texto: Pessoa censurado: Qualquer censura é inaceitável. Basta por este título que logo aparece no motor de buscas. Caso haja qualquer problema o blog chama-se O Olho do Ogre, e sua cache é hdocoutto.blogspot.com Espero que desfrutem de uma opinião rigorosamente oposta a da Dra. Maria Pedreira.
ResponderEliminarPor princípio sou contra "cortes", até porque normalmente não acontecem por boas razões.
ResponderEliminarNeste caso particular, era preferível escolherem outro poema de Fernando Pessoa (tem poesia para todos os gostos e feitios...).
A fábula do Velho, do Rapaz e do Burro, espelha na perfeição o que se passa em termos de opinião no nosso país (e nem vou falar das redes sociais...).
Concordo com o que foi aqui dito, na generalidade, e li comentários muitíssimo bons.
ResponderEliminarNão era de esperar menos dos Extraordinários!
Aliás, já ontem referi pensar que este tema iria ser certamente… hum… tema! Pois, desculpem a redundância.
Faz a Nossa Extraordinária Anfitriã uma pergunta que eu faço ao mim mesmo muitas vezes: será que a arte é para todas as idades?
Tenho dúvidas quanto a essa transversalidade, pois a arte se não for entendida e avaliada como o que é, no contexto e no objectivo, pode nalguns casos e por excesso de juventude esbarrar nalguma sensibilidade ainda não desperta ou mesmo entendimento que só a maturidade concede, funcionando ao contrário, e, em vez de despertar sentimentos elevados, pelo contrário, possa ajudar a deformar ou conduzir a uma opinião desfavorável sobre a arte em si, o autor ou a obra.
Não sei se consegui ser claro? No fundo o que digo é que a imaturidade pode impedir a fruição da arte. Terei razão?
Não apoio a censura e menos que se deturpem ou trunquem, castrem, as obras de arte!
Até porque a arte fica, permanece, enquanto as opiniões e as modas, os pensares correctos, mudam com o tempo, e isso devia ser sabido pelos ditos agentes da cultura.
Mas, lá está… a arte pode ser apresentada aos jovens, à medida da sua sensibilidade e entendimento, à medida que amadureçam e a possam entender.
Afinal, e como jocosamente alguém dizia: "ópera é música para operários!". Entre os italianos e na URSS, a ópera impôs-se entre as camadas proletárias, justamente! Porquê?
Bom isso, não sei! Desconfio que fosse porque a ouviam desde tenra idade… e cresciam com as belas árias, porque na verdade a ópera pode ser uma estopada - salva por aqueles sublimes momentos! Quando oiço uma ária ou uma abertura, em detrimento de ouvir toda a ópera, estarei a fazer censura? Ou apenas a ser selectivo e a ouvir o que me agrada?
Dos manuais escolares, as "Selectas" não têm essa finalidade de dar a conhecer, despertar o interesse, sobre as obras de que são selecionados excertos? Isso é censura?
Penso que, como aqui foi dito, se faz muitas vezes barulho demasiado, e que há falta de bom senso um pouco em todos os sectores - onde me incluo, naturalmente, não sou excepção e sou humano.
Preocupa-me perceber que se vai estendendo pela sociedade uma certa tentativa de impor um pensamento único, e a censura faz parte dessa estratégia. Estes e outros ensaios de censura, mais ou menos vindos de onde menos seria de esperar, são um alerta.
Saudações pensativas cá do Bairro Ribatejano.
Olá, tudo bem gostei das suas palavras, mas se não fossem estes apartes, esta vida não tinha graça nenhuma. Cada coisa no seu lugar e idades certas para descobrir o desconhecido e sempre atraente sexo. Concordo que a Ana tenha o pentelho russo, outras têm bigode à Hitler o que acho de profundo mau gosto. Como diz o outro, É a vida!
ResponderEliminarPara além de obras de Álvaro de Campos (o engenheiro naval, 1,75 m de altura, mais 2 cm que Pessoa, segundo este disse a Adolfo Casais Monteiro), para além dessas, repito, publicadas em outras editoras, tenho uma intitulada "Poesia de Álvaro de Campos", na colecção Clássicos da Literatura Portuguesa (ano de 2002), dirigida por Vasco Graça Moura. No volume I, lá está a "Ode Triunfal" (a oitava poesia no capítulo O engenheiro Sensacionista - 1914-1922), bem como a Ode Marítima e a Ode Marcial, entre outros poemas. Trata-se de uma edição da Planeta deAgostini e não consta que a compra do livro estivesse vedada a qualquer escalão etário ou de género. Está sem cortes, integral, com tudo "en su sitio", como se diz em Espanha.
ResponderEliminarImaginem agora que caia numa escola do 12º Ano, esta parte da mesma obra com aquele heterónimo:
Álvaro de Campos
"Ora porra!
Então a imprensa portuguesa
É que é a imprensa portuguesa?
Então é esta merda que temos
que beber com os olhos?
Filhos da puta! Não, que nem
há puta que os parisse."
Peço desculpa à Maria do Rosário, pessoa que também tanto admiro pela sua constância e persistência neste blog, objectiva, frontal, sem claudicar na missão auto imposta. Peço-lhe desculpa pela citação "ousada" e mais por ter ficado afastado tanto tempo deste maravilhoso espaço, onde a anfitriã é ainda mais Extraordinária do que as sua Horas Extraordinárias.
Compreendo o seu desabafo. Quem leciona tem de gerir reações e expetativas e ao mesmo tempo cumprir o programa. Penso que o texto pode aparecer truncado mas pode referir se a página Multipessoa que contém os originais em arquivo.
ResponderEliminarOlá a tds
ResponderEliminarConcordo em pleno c/ a postura e desabafos assertivos da autora,tmb c/ 1 dos leitores k comentou (e bem) k preferia k tivessem escolhido outra obra ou mesmo outro autor,cortar é k não.
Gostava de saber kem verdadeiramente está por detrás desta sacanice aos alunos,pais e profs e tmb c/ k (obscuros) objectivos foi introduzido este poema do F. Pessoa.
Tenho para mim k a + importante "Mensagem" não a kiseram passar ; Talvez pk calculadamente,renderia mto + (execrável) publicidade e proveito aos directamente envolvidos.
"Follow the money,my friends,follow the money"
Cumprimentos pa tds e bom fim semana