A pontuação de um Nobel

No mês passado, a propósito das longas e variadas comemorações dos vinte anos da entrega do Prémio Nobel da Literatura a José Saramago, contaram-me uma história deliciosa. Tendo-se Saramago tornado muito mais conhecido em todo o mundo depois de receber o galardão, o que é natural, acordou, pelos vistos, o desejo de ser lido por muitos emigrantes portugueses em vários países, subitamente orgulhosos de verem um seu conterrâneo assim distinguido. Um desses emigrantes, vindo de férias a Portugal, lá comprou antes de regressar ao país de adopção um exemplar de um dos romances do escritor. Porém, pouco depois de iniciar a leitura, sentiu-se defraudado e, pondo o pé em terra, enviou imediatamente à editora uma reclamação. Dizia que o exemplar que lhe coubera em sorte era ilegível porque a pontuação estava toda errada e era frequentemente omissa; e que de certeza muitos outros leitores já tinham dado pela calamidade, pelo que por certo a editora tinha maneira de substituir os exemplares defeituosos por outros que tivessem as vírgulas no sítio. Afinal, o leitor não tinha culpa nenhuma do sucedido e, não tencionando voltar a Portugal antes do mês de Agosto do ano seguinte, era mais do que justo que lhe enviassem por correio, sem custos, um exemplar «legível»…

Comentários

  1. António Luiz Pacheco8 de novembro de 2018 às 00:57

    Ahahahah!
    E não deixava de ter razão… será que a Editora o esclareceu?

    Uma pergunta por mera curiosidade: as Casas Editoras recebem muitas reclamações de leitores defraudados ou que assim se sintam por alguma razão? Era capaz de ser curioso haver um apanhado dessas reclamações, publicando-o.

    Saudações, pontuadas, cá da Cidade Morena!

    ResponderEliminar
  2. Acho que essa é uma das maiores críticas que apontam a Saramago (especialmente no "Memorial do Convento").

    Esquecem-se de que existe uma coisa, e que se chama: "Liberdade da Escrita"...

    ResponderEliminar
  3. Pois, vírgulas e pontos era o que não faltava por lá; o que não havia era o clássico "dois pontos, parágrafo, travessão " dos diálogos.
    E esse emigrante não devia ser destes estudantes Erasmus
    Ainda recentemente ouvi o MST dizer na tv que o Saramago não usava pontuação - usava, só que de forma diferente, daí o ter criado um estilo.
    O truque está em perceber que quando vem uma maiúscula a seguir a uma vírgula, já é outra personagem a falar.
    De início não é fácil, mas quando entramos no ritmo é uma maravilha.
    Maria

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Claro que nos primeiros romances e nos Diários de Lanzarote esse "problema da pontuação" nem sequer se põe.
      🌨🌩🌧
      Maria

      Eliminar
    2. Maria: quem leu toda a obra de Saramago apercebe-se da evolução da sua obra;
      e, percebe que a libertação de algumas convenções só é permitida pelo exercício e aperfeiçoamento da "mão" que (já) domina inteiramente a arte da escrita.
      Ana Margarida de Carvalho analisou muito bem na Fundação Saramago, um dos primeiros livros do autor, o "Deste mundo e do outro". Um livro que tanto pode ser visto como de crónicas, como de contos, como um livro poético.
      A pontuação - para um escritor que domina a palavra - pode ser um sinal de proibição incómodo, em lugares onde a vastidão e o pensamento permitem uma real liberdade de criar.

      Eliminar
    3. António Luiz Pacheco8 de novembro de 2018 às 04:36

      Uma pergunta Pedro: motivada pelo interesse naquilo que diz, em que medida é que a pontuação limita a verve ao escritor? Talvez o faça, mas, não é ela necessária para o leitor?
      Pergunto isto numa óptica de quem pensa que não se deve escrever para si próprio mas sim para os outros.
      Sem questionar Saramago, obviamente, cuja genialidade e maestria são até para mim evidentes.
      Porém se desatarmos todos a escrever "à Saramago" , se calhar então é que ninguém nos lê, eheheheh! A Cristina Torrão quando reveu o meu texto bem me deu na cabeça… e com razão, é claro.

      Abraço.

      Eliminar
    4. António Luiz Pacheco8 de novembro de 2018 às 04:38

      Bolas… "Uma pergunta Pedro: motivada pelo interesse naquilo que diz, em que medida é que a pontuação limita a verve ao escritor? " , cá está um bom exemplo de uma péssima utilização, ou inobservância, da correcta pontuação!

      As minhas desculpas, cá da Cidade Morena!

      Eliminar
    5. Plenamente de acordo, Pedro. O problema é que a maioria das pessoas nem tenta ler Saramago.
      Ouvem dizer umas coisas a respeito da pontuação e depois limitam-se a papagueá-las até à exaustão - e assim nascem as "verdades absolutas".
      E é pena, perdem a oportunidade de conhecer um enorme escritor e um grande Homem - digam lá o que disserem, ele era um grande ser humano.
      Já estou a ouvir os protestos, mas quero lá saber - é a minha opinião.
      E para que conste, não sou (nem nunca votei) no Partido Comunista.
      Maria

      Eliminar
    6. Reviu e não reveu.
      Desculpe a correcção:)

      Eliminar
    7. António Luiz Pacheco8 de novembro de 2018 às 06:58

      Era para ver se alguém estava atento …

      Eliminar
    8. Essa já não pega...

      Eliminar
    9. António Luiz Pacheco8 de novembro de 2018 às 07:42

      É como dizer: - Ouves?
      - Ovo!

      Eheheheh!

      Eliminar
    10. A sua pontuação "desajustada" é mais malandrice do que outra coisa, diga lá
      O Pacheco não se aplica, é trapalhão...

      Eliminar
    11. António Luiz Pacheco9 de novembro de 2018 às 00:06

      Mas completamente… eheheheh!

      Eliminar
  4. Bom dia

    Escreve melhor Saramago sem pontuação do que muitos, muitos outros, com.

    E refiro-me apenas à forma. Em conteúdo a diferença ainda é maior.

    Cordialmente
    CPedro

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Ora bem, eu não diria melhor
      Ainda não percebi se CPedro é homem ou mulher, mas isso agora também não interessa nada...
      É uma pessoa de bom gosto literário.
      Maria

      Eliminar
  5. Ri-me com a história. Saramago nunca foi fácil.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. "A que definirá": os escritores não são para serem fáceis. São mais para ousarem um mundo mais reflexivo e menos contemplativo.
      Saramago dava o sumo onde outros não conseguem deixar mais do que gomos.

      Eliminar
  6. Ah, pontos e pontes, sinais e sinaleiras... afinal este (trânsito) terreste têm inúmeros, números palavras. Preferível: bombordo ou boreste, pontavante o mar as letras. Eu gosto por exemplo a porção quê o sentimento navega, flutua e se lhe desfaz o imenso. Abraço Saramago


    Cláudia da Silva Tomazi

    ResponderEliminar
  7. Muito mais do que o formalismo instituído contrário a quem quer inovar e marcar o ritmo, devia ser a falta de ideias, a pobreza inconsistente da escrita o que mais nos devia preocupar.
    Saramago permitiu-se e bem — na minha óptica de leitor e escrevente —, dar um novo andamento, uma nova vivacidade a partes do seu pensamento.
    Enfrentando, nessa escrita, velhas convenções. Dando leveza e andamento onde elas podem acontecer, sem deturpar a percepção de quem lê. Abrindo portas e removendo obstáculos, tantas vezes feitos de encontrões e repelões, criando um novo ritmo mais harmonioso e suave como se trauteasse uma balada.
    Na minha lista de escritores Portugueses de todos os tempo, o número um, pela liberdade e densidade da palavra.

    ResponderEliminar
  8. Esta situação da pontuação no Saramago é uma falácia/um embuste/uma desculpa de mau pagador/uma inveja que me arrepela os cabelinhos do corpo, porque quem quer dizer mal, vilipendiar, arranja sempre qualquer argumentozinho para desvalorizar este grande escritor português ( o maior depois de Camões).
    Sinceramente, mas mesmo muito sinceramente, nunca, mas nunca reparei em tal coisa quando li (absolutamente deleitado) os livros de Saramago, nomeadamente a melhor história de amor de toda a literatura portuguesa (O Memorial do Convento)

    O Miguel Sousa Tavares é um arrogante e convencido que pensa que sabe tudo e que tem sempre, sempre razão, o que o safa é a sua eloquência (que adormece o espectador), mas filtrem o que ele diz e vão ver a arrogância do indivíduo.
    Vejam como ele fala da corrupção, mas quando é que o ouviram falar do que creio ser ainda seu familiar (Ricardo Espírito Santo)?

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. E o Pessoa não conta para nada? E Eça, Camilo Torga? Que exagero essa saramagomania!

      Eliminar
    2. Claro que contam, mas não para mim!

      Eliminar
    3. De Saramago só li seis livros: "O memorial do convento", "O ano da morte de Ricardo Reis", o "Ensaio sobre a cegueira", "O evangelho segundo Jesus Cristo"~, "Caim" e um de poesia, o "Provavelmente alegria". Já ouvi falar do enredo de "A jangada de pedra", "Todos os nomes", "As intermitências da morte" e "A viagem do elefante". Não tenciono ler muitos mais livros, porque como leio lentamente, não leria outras obras. Talvez seja muito pouco para opinar sobre Saramago, que dizem ser grande, mas, para mim, não vem antes nem depois de Camilo. Para mim está a par dele. E de Eça. Desculpe, mas já leu "A queda de um anjo", de Camilo? É sobre um homem da província que vai para Lisboa para desempenhar as funções de deputado. É uma delícia! Se não leu, não sabe o que perde!!!

      Eliminar
    4. António Luiz Pacheco8 de novembro de 2018 às 07:45

      Um clássico, Camilo… por isso mesmo obras como A queda de um anjo, são eternas e sempre actuais, concordo inteiramente consigo!

      Saudações lunares cá da Cidade Morena!

      Eliminar
    5. E não é só A Queda de Um Anjo e as Novelas do Minho, A Brasileira de Prazins, sem falar na obra-prima que é o Amor de Perdição, A Camiliana do José Viale Moutinho em 4 volumes, edição do Círculo de Leitores, tem tudo sobre o Camilo. Eu tenho a felicidade de possuir O Romance de Camilo, em 3 volumes do Aquilino Ribeiro, a biografia mais completa até hoje do grande escritor.

      Eliminar
  9. Tout d'abord Saramago était connu à l étranger bien avant qu il n obtienne le prix Nobel....
    J étais à Francfort au Salon du livre lorsque on a appris que Saramago avait obtenu le prix. Je suis allée sur le stand portugais. ...En général ce fut accueilli avec une grande joie sauf que ....certains auraient préféré Lobo Antunes. ... croyez-vous que votre émigré l eût mieux compris ??? Désolée mais je place votre blog à un niveau plus haut que cette anecdote qui m attriste. Je suis certaine que la prochaine me réconcilira.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Permito-me a ousadia de traduzir (à letra)

      Primeiro Saramago foi conhecido no exterior bem antes de ganhar o Prêmio Nobel ....
      Eu estava em Frankfurt na Feira do Livro quando se soube que Saramago havia ganho o prêmio. Eu fui ao stand Português. ... Em geral, foi saudado com grande alegria, excepto que ... alguns teriam preferido Lobo Antunes. ... você acha que o seu emigrante teria entendido melhor ??? Desculpe, mas eu coloquei seu blog num nível mais alto do que essa anedota que me entristece.
      Tenho certeza que o próximo vai me reconciliar.

      Eliminar
    2. Não havia nexexidade...
      Tout le monde a compris.

      Eliminar
    3. É que pensei que ainda poderia haver por aqui alguns incultos (como eu) e daí esta minha ousadia (esta minha mania de estar sempre a pensar nos outros...)

      Eliminar
    4. Modesto, filantropo, mas sem sentido de humor...

      Eliminar
  10. Também tenho uma historieta, não sei se deliciosa, mas, pelo menos, curiosa.
    Na altura em que Saramago ganhou o Nobel, o meu marido, por acaso, falou ao telefone com um nosso amigo português que vive desde criança em Hamburgo, filho de pais emigrantes. Perguntou o meu marido (a conversa desenrolou-se em alemão):
    - Já sabes? Um escritor português ganhou o Nobel.
    Respondeu o português:
    - Sim, sei, foi o Saramango.
    O meu marido (alemão) hesitou, mas acabou por dizer:
    - Não é Saramango, é Saramago!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. António Luiz Pacheco8 de novembro de 2018 às 07:46

      Por acaso achei uma delícia… Saramango! Ahahahah! Com gostinho exótico, portanto...

      Eliminar
  11. Já tudo foi dito sobre Saramago. E é verdade que também eu li as suas obras sem olhar a pontuação e quando alguém mo fez notar tive de ir de novo a um dos livros e verificar. Portanto, suponho que a sua criatividade estilística e formal não apaga e só acrescenta. Não sou fã incondicional do nosso Nobel, acho-me impossibilitada de dizer quem é melhor que quem e de seriar a qualidade dos escritores. Há os que prefiro a outros, questão de gosto pessoal.
    Bom, quase ninguém falou do emigrante da anedota que até é verdadeira. É comovente a ingénua vontade de emendar "os erros" da editora em prol da muita gente que leria Saramago e de si mesmo. E se fossemos nós que terminada a antiga quarta classe - ou mesmo o ciclo, vá - emigrássemos a trabalho que não é de secretária, nem enfermagem, nem; que é daquele trabalho que extenua, exige braços e pernas e força e o mais que desgasta o corpo e impede o espírito. E tudo isto num país estrangeiro. Leríamos muito?! Entenderíamos à primeira autores como Lobo Antunes Ou Saramago?! Teríamos - se acaso comprássemos um livro - a boa vontade de o ler e depois de escrever à editora?! É tão bonito comprar, lá de longe, os livros de Saramago só por ganhar o Nobel, comprar com orgulho e curiosidade, mesmo sem hábitos de leitura, só para saber como escreve, o que diz.
    Espero que a editora tenha gasto uns minutos do seu tempo a mostrar delicadamente a este senhor o outro lado da moeda. Diferente da que aprendera.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. António Luiz Pacheco8 de novembro de 2018 às 10:32

      Permita-me que aplauda o seu comentário!
      Tem toda a razão e vê com justiça.

      Cumprimentos cá da Cidade Morena!

      Eliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Na Figueira

Em Berlim

O principal e o acessório