Rotina e desencanto

Tenho ideia de que, quando o trabalho se repete demasiado dia após dia, mesmo que se goste do que se faz, isso acaba por levar a que se perca o encanto inicial e, em última análise, o prazer de trabalhar. Foi isso mesmo que entrevi nos relatos de dois jovens livreiros que, adorando ler, mas trabalhando num lugar com demasiadas regras e uma rotina imutável, começaram a desencantar-se com a profissão. Resolveram então, para o seu próprio bem, sair de cena e montar juntos um negócio parecido com aquilo com que sempre tinham sonhado; e, mesmo que ser proprietário lhes possa trazer outros problemas, a verdade é que parecem felizes na fotografia na qual o jornal i os mostrava um dia destes ao falar da sua livraria, chamada Flâneur, na cidade do Porto. Atrás deles, as prateleiras algo desarrumadas pareciam-se com as estantes lá de casa, mas a ideia, segundo percebi, é tornar o espaço o menos rígido possível, ter e aconselhar livros de que os donos gostem, cultivar uma certa intimidade com os leitores, desenhando aos poucos o perfil destes, procurando os livros que podem agradar-lhes e até – curioso! – levá-los, se preciso for, de bicicleta a sua casa. Às vezes, em nome da sanidade mental, é preciso dar um passo arriscado e virar a vida do avesso (conheço várias pessoas que o fizeram nos últimos tempos); e, ainda que o lucro em termos de dinheiro possa ser poucochinho numa livraria deste tipo, há de certeza absoluta um lucro para o prazer de viver e trabalhar que faz toda a diferença.

Comentários

  1. Num tempo que permite cada vez menos sonhos, pelo menos nas ruas da cultura, que bom que é ver a excepção no lugar da regra...

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  2. Emílio Gouveia Miranda6 de abril de 2017 às 04:02

    Nenhum dinheiro paga o valor da Vida...

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  3. Flâneur, que nome tão adequado.
    Parece que tem ecos, flâneur acidental. Adoro livrarias, pequenas, grandes, intimistas, labirintos de livros.
    Uma que conheci, até tinha um gato. Claro que era o genius loci desse lugar e de uma poltrona em particular, e que os proprietários com muita graça exploravam na forma de uma tabuletas que dizia “Read a book Rent a cat”.

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    1. A livraria da cotovia tem uma gata. A Maravilhas.

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    2. Livraria com gato só conheci a Ulmeiro, do José Ribeiro, em Benfica - era o Salvador e era lindo.
      Infelizmente parece que já fechou.
      Antonieta

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    3. Também havia um gato chamado Gil Vicente (e, se não erro, uma gata chamada Florbela) na saudosa livraria das Caldas da Rainha.

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    4. Essa nem cheguei a conhecer...
      O que vale é que enquanto umas fecham, outras vão abrindo, e agora quase todas com espaço para tomar um café ou um chá, a lembrar as antigas tertúlias.
      :-) Antonieta

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    5. Estava a pensar neles, enquanto ia lendo os comentários, os "donos" da 107 da Isabel...

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  4. Conheço um jovem que largou o que fazia e montou uma oficina onde repara com gosto e entusiasmo tudo o se deva não deitar fora.
    Há pessoas assim mas desde a expulsão do paraíso que em regra "ganharás a vida com o suor do teu rosto". Só como exceção se gosta de trabalhar, ou porque o trabalho é leve, ou porque se ganha muito dinheiro, ou porque se exerce poder sobre os outros, ou porque satisfaz o desejo de ser admirado.

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  5. Já fui googlar e gostei do que vi: bonita e acolhedora, muitos livros e também filmes - Contos das 4 Estações do Rohmer, por exemplo.
    E até vi a bicicleta, verdinha, linda.
    Talvez um dia possa ir lá...
    Antonieta

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  6. Respostas
    1. Não sabes o que são sonhos?

      Por alguma razão tens nome de "orelhudo".:)

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  7. O prazer de viver e de trabalhar só acontece se os ditos livreiros tiverem leitores em número suficiente para obterem algum lucro. Que uma livraria não se monta sozinha nem apenas com o ar que se respira. Mas, só por terem arriscado, já merecem (e pelos livros desarrumados e mais levarem-nos ao destino em bicicleta). E o jornal já lhes deu um empurrão. Outros não têm a mesma sorte, esgaravatam sozinhos.

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    1. Boa noite, Beatriz.
      O artigo do jornal i é recente mas a Flâneur já existe desde Setembro de 2015 e, pelo que pesquisei, tem sido um sucesso. Estes livreiros amam os livros e conversam com os clientes como se estivessem a receber os amigos na sua sala de visitas.
      O facto de ser uma livraria/café (bolos, brunches, etc.) e as entregas sem portes (na zona do Porto) deve dar uma ajuda ao negócio - espero mesmo que continuem com muito sucesso.
      Gostei muitíssimo do que vi e li.
      Pena o Porto estar tão longe.
      :-) Antonieta

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    2. Ora aqui está uma boa notícia a vários níveis: uma livraria que é um sucesso.
      Obrigada pela informação. Um dia a gente vai ao Porto e entra:). Se é um sucesso, ainda deve lá estar e nem precisamos ir a correr:).
      Boa noite

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    3. Ora essa, não tem de quê.
      Foi um prazer imenso ler este seu comentário, caríssima anónima.
      Boa noite para si também!
      Antonieta

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  8. Era bom que se falasse mais dos resistentes que vão aparecendo por esse País fora.
    São vários o que tem aparecido,abandonando empresas de grande dimensão, mas que por vezes nem os salários pagam atempadamente.
    Isto para não falar do trabalho escravo que muitos prestam às empresas monopolistas do ramo livreiro, que neste momento já são muitas.
    Tendo estas controlado uma boa parte do mercado e tentando cada vez mais acabar com os resistentes e pela via do estrangulamento.
    Eu chamo a isto a Ditadura Livreira.
    Será que é mentira ??

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  9. Palavras leva as o vento Maria do Rosário.
    Este seu artigo coloca as pessoas a falarem muitas vezes do que desconhecem.
    Este texto daria para falar de muitas maleitas que afectam o mercado Livreiro e durante muitos meses e sabe do que falo, pois está ligada ao ramo há muitos anos, por diversas vias.
    O patrão do seu esposo não tem talvez a mesma opinião em relação a esta ditadura Livreira, que ele quer implantar para tudo o que mexe, é pequeno e resiste felizmente.

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