Cinco velhos brasileiros
Aqui na terra muitas actrizes e apresentadoras se tornam autoras de romances – mas a verdade é que os seus livros são, ao que se diz, xaroposos e lamechas. Pois no Brasil parece que uma actriz, Fernanda Torres, surpreendeu tudo e todos com o seu primeiro romance aos cinquenta anos. Fim é o título da obra a várias vozes sobre cinco amigos já idosos à horinha da morte (não, não morrem todos ao mesmo tempo, mas o primeiro texto relativo a cada personagem é sempre um relato na primeira pessoa dos últimos momentos cá deste lado) e o que, na vida de cada um, teve, afinal, cruzamentos e implicações na vida dos outros. A crítica brasileira embandeirou em arco com a estreia de Fernanda Torres – e esses encómios reproduzidos na badana, bem como a editora que levou o livro à estampa, a famosa Companhia das Letras, que agora também já publica em Portugal, atraíram-me para a leitura. Não fiquei tão convencida como gostaria, mas, pronto, atribuo a minha renitência ao êxtase à dificuldade em perceber algum do léxico usado, o que impede a fruição imediata; achei, porém, bem interessante como esses textos de abertura que mencionam os nomes da personagem e as respectivas datas de nascimento e morte são, de certa forma, herdeiros do teatro, pois podiam ser divertidos (e às vezes trágicos) monólogos recitados em palco – ou não fosse Fernanda Torres, acima de tudo, uma actriz. Vale a pena, em todo o caso, assistir a uma estreia nada fútil, para variar, num romance que é sobre a vida a escapar-se, a vida a ser vivida até ao rebentar das costuras (droga, sexo, etc.) e também o valor da amizade, mesmo quando esta é traída porque não há duas pessoas iguais e algumas estão-se nas tintas para a lealdade. Experimentem – e depois digam-me o que acharam.
Anotada a sugestão ... não a conheço lá muito bem, mas é filha de outra actriz - grande - que é Fernanda Montenegro (fui ao gúguel...).
ResponderEliminarAos 50 anos, há-de ter coisas para dizer, acredito.
Saudações cinquentenárias da Cidade Morena!
também fiquei curioso, por Fernanda Torres não ser uma actriz qualquer.
ResponderEliminar(não é por acaso que "desapareceu" das telenovelas)
talvez a Rosário esteja a ser muito exigente para uma primeira obra (e talvez os críticos também tenham embandeirado em arco). :)
Bem, eu só espero que livros como este sejam a excepção na Companhia das Letras, livros de celebridades que fazem dinheiro e financiam livros certamente mais merecedores.
ResponderEliminarHá uns dias telefonei para a Livraria Centro Cultural Brasileiro; perguntei se tinham ou podiam encomendar Catatau , de Paulo Leminsky , um importante poeta que aparentemente escreveu um dos grandes romances da Língua Portuguesa; não só não o tinham como não o podiam encomendar. Dias depois fui para saber se tinham ou podiam encomendar Galáxias, do poeta Haroldo de Campos, outra obra considerada cimeira, uma espécie de Finnegans Wake da Língua Portuguesa; não só não tinham como não podiam encomendar. A utilidade da livraria ficou seriamente em causa depois disso.
Eu não tenho problemas com literatura brasileira, gosto dela, leio-a com gosto como qualquer outra literatura. Mas incomoda-me não poder ler o quero ler e ter de depender do que os outros me tentam impingir. Publicar livros de actrizes entediadas que aos 50 anos decidiram brincar às letras, quando há centenas de grandes escritores brasileiros por conhecer, não só presta um mau serviço a Portugal como passa um atestado de incompetência ao Brasil. Livros de actores e celebridades e músicos geralmente são aquilo que em inglês se chama vanity projects ," ou projectos de vaidade, toda a gente sabe que não valem nada e só são falados por causa da visibilidade do autor. Daqui a uns anos estão esquecidos.
Se eu quiser livros de celebridades em Portugal tenho uma editora para isso: Oficina dos Livros. É isto que a Companhia das Letras quer que represente o Brasil?
Eu julgo que Haroldo Campos, ou talvez o irmão, traduziu mesmo o Finnegans Wake, o que é obra. Também já tentei encomendá-lo onlaine, mas o preço do envio ultrapassava o do livro, já de si caro. Outras tentativas, de outras obras, resultaram no mesmo. Desisti.
EliminarOs livros no Brasil até são baratos, comparados com os nossos preços. Pior é os custos de envio; mas uma pessoa quando quer mesmo uma coisa, poupa e faz alguns sacrifícios.
EliminarMas o que realmente me preocupa é a) o extravio do correio; quem me garante que um livro enviado do Brasil chega a Portugal? Um risco tremendo quando se fala de quase uma centena de euros; e b) será que a alfândega me vai cobrar mais, além do que já paguei? Quando um amigo me envia livros dos EUA pago pelo correio registado, quero essa garantia; uma vez a alfândega apanhou-mos, tive de pagar mais 25 euros, não foi o fim do mundo. Mas encomendar do Brasil acarreta demasiados imponderáveis.
É desolador, tão próximos e tão distantes.
É verdade, sim.
EliminarO extravio de livros, quando se fala de envio para o Brasil, é um problema sério.
Há cerca de dois anos enviei três livros para Campinas e nunca chegaram ao destino.
Confesso que não sei se, no sentido inverso, também se verifica.
Obrigado pela sua experiência. Confesso que preferia um testemunho mais encorajador. Isso deixa-me mais incerto sobre encomendar do Brasil. Teria de averiguar se a livraria usa correio registado, só assim ficaria descansado.
EliminarFernanda Torres quer escrever! Ótimo. Que escreva. Que seja a Companhia das Letras, Objetiva, Globo ou seja a editora Record ou até a Don Quixote; ser actriz, filha de actores ou aos cinquenta, casada com diretor de nome esquisito feito Andrucha Wadignton que até tenha feito filme em Espanha, nada disto está além a vontade e perspicácia de ser feliz, realizar-se à letra em estimular outrem a ser possível quer seja notório ou nem notório, posto que o Brasil é um país continental e tem seu valor cultural assimilado através do povo caloroso, amoroso o quanto acredita ser possível dias melhores.
ResponderEliminarHoje é dia do livro e parabéns a todos àqueles que tornam possível publicar.
Hoje é dia do livro? A sério? Não sabia... e nem o vi referido em nenhuma notícia, mas ainda bem.
EliminarQuanto ao valor do livro, pois aguarde-se da sua leitura o vaticínio... agora fiquei mesmo curioso! Ela teve uma vida conturbada e agitada sem dúvida, entre o vício da coca e quem sabe o que mais, que lhe tenha dado de facto "estaleca de vida" pois que pela parte literária, uma actriz de teatro (também) e filha de actores (bons) tem a obrigação de possuir bagagem, se bem que entenda e concorde com a teoria do projecto de vaidade... e suponho que não seja só em Portugal!
Saudações livrescas cá da Morena Cidade!