O livro da paisagem
Valter Hugo Mãe acaba de publicar um novo romance intitulado A Desumanização. Achei a capa muito feia e desajustada para um livro tão avassaladoramente poético (quiçá fosse mais apropriada uma capa deste tipo para O Filho de Mil Homens, o romance anterior), mas o autor costuma decidir esteticamente sobre a matéria e presumo que a ideia terá sido dele. Não sei se os fãs mais recentes de Valter Hugo Mãe, os que o começaram a ler com A Máquina de Fazer Espanhóis, vão engraçar com este livro, porque o humor que costuma temperar a tragédia está ausente desta vez e, sem ele, nem todos os estômagos vão aguentar a digestão. Mas é seguramente a obra do autor em que a linguagem se sobrepõe mais claramente à estrutura e ao enredo (e quantas frases seria possível copiarmos para um caderno como das mais belas de sempre?) e a paisagem – os fiordes islandeses – impera sobre as personagens. Livro de homenagem confessada à Islândia, preparem-se os que ainda não o leram para a tristeza de uma vida – uma adolescente que, além de perder a irmã gémea, convive com uma espécie de culpa pela sua morte, seja porque ela a afasta da mãe que não supera o desgosto e parece castigar por ele a filha que sobrevive, seja porque, sem o seu «espelho», a rapariga toma atitudes que sabe seriam censuradas pela irmã desparecida. Cruel e místico a um tempo, este é um livro para ver o abismo através das palavras e tem dentro quase todos os livros que Valter Hugo Mãe publicou até hoje, já que muitas figuras remetem, ainda que sem querer, para as de outros romances, sobretudo os dois primeiros, e para alguns poemas.
Eu pertenço, como já aqui o disse, àqueles "fãs mais recentes de Valter Hugo Mãe, os que [foram fascinados pela] A Máquina de Fazer Espanhóis, e não engraçaram com este livro". Um romance não me enche as medidas apenas pela linguagem, por muitas frases que nele mereçam "ser copiadas para um caderno como das mais belas de sempre": para recolha de frases soltas que mereçam ir para esse caderninho, mais eficaz será a leitura de poesia. Histórias memoráveis elegantemente escritas é o que espero de um romance.
ResponderEliminarLi a pré-publicação do Desumanização no JL e aquilo que quase todos dizem ser extraordinário neste livro -- a linguagem -- a mim soube-me a um estilo seco e agreste. Li depois a página 99, e o efeito foi o mesmo. O defeito será meu: gosto demasiado de Saramago, de uma linguagem com abundante carne, com um enredo entusiasmante e não só um romance feito de puro osso. Além de que o Miguel Real também avisou no JL: preparem-se o regresso no Desumanização do Mãe a temas de abjecionismo que já estavam no Baltazar Serapião.
A minha mulher, pelo contrário, diz que vai comprar o livro do Valter Hugo Mãe de olhos fechados. É que a mim repugnou-me o Baltazar Serapião, que abandonei a meio da leitura, e ela, apesar de confessar algum desconforto com a temática, leu-o todo e gostou. A minha mulher arranjou dois bilhetes para apresentação do livro logo à noite na Casa da Música que, ao que li na net, já está esgotada: "Quinta-feira, no âmbito do ciclo literário Porto de Encontro, 1000 pessoas vão encher a Sala Suggia da Casa da Música (os bilhetes já estão esgotados), para ouvir o escritor de Vila do Conde".
Ela vai com o amante.
Quem perde é o Artur :) Duplamente, parece-me... ahahahahahah
EliminarÉ verdade !
EliminarRelendo o que escrevi no final do meu post, concluo que talvez melhor teria sido se tivesse acrescentado uma palavra a essa frase: "Ela vai [ter] com o amante.", sendo o amante o VHM, homem que não temo como pretendente aos favores carnais da minha mulher.
O primeiro contacto que tomei com o escritor Valter Hugo Mãe, também foi com A máquina de fazer espanhóis e a forma como o romance me desconcertou e me fez rir ao mesmo tempo levou-me a comprar os outros livros dele, inclusive o Remorso de Baltazar Serapião que não terminei, por uma data de motivos. Já li bastantes criticas em relação a este seu novo romance e confesso que fico curiosa para lhe passar os olhos, mas admito que se não se rege nas linhas emotivas de uma história, enredo, conflito e tudo o que deve povoar um romance, certamente que o comprarei apenas para juntar aos outros todos que tenho dele. Gosto bastante do escritor, mas na minha prateleira, entre os livros de Valter Hugo Mãe, dividem-se os que li e os que não li. Muitas vezes, e calculo que não seja propositado ou intencional, os escritores perdem-se nos meandros de uma linguagem linda e maravilhosa e esquecem-se de fabricar história. Manter os leitores activos no que toca às suas obras... Perdem-se muitas vezes no que é o seu íntimo, o que é a clareza da sua visão única e exclusiva. Apreciadores de romances querem mais do que isso. Precisam de mais do que isso para se envolverem na bela linguagem que um escritor lhes dedica.
ResponderEliminarUm abraço.
Concordo com a definição de romance aqui já expressa pelo Artur Águas e pela Carla Pais. Penso que, em Porutgal, há bastante falta desse romance, pois os editores, em geral, parecem preferir a questão da linguagem que «se sobrepõe à estrutura e ao enredo». Para mim, quase nada se sobrepõe a um enredo bem estruturado e organizado. Mas isso é outro tema. Também não vou destoar ao dizer que irei iniciar o VHM com "A Máquina...", o único livro que tenho dele, mas que ainda não li.
ResponderEliminarDito isto, não posso deixar de referir o tema deste "Desumanização", indpendentemente da maneira como estará escrito.
Uma adolescente que perde a irmã (gémea, ou não), convive, normalmente, com a culpa pela sua morte. Que essa morte a afaste da mãe que não supera o desgosto e parece castigar por ele a filha que sobrevive, é também algo frequente. O facto de a jovem, sem o seu «espelho», tomar atitudes que sabe seriam censuradas pela irmã desparecida, é igualmente comum.
Não me entendam mal! Não estou, com isto, a criticar, mas, sim, a dar as boas-vindas à tematização destes aspetos da vida, que, apesar de frequentes, são tão ignorados, ou recalcados. Todos nós vivemos na ilusão de que coisas dessas não existem e que são novidades apresentadas em livros. Nada de mais errado. Por mais incrível que pareça, são coisas que acontecem todos os dias, às vezes, bem debaixo dos nossos olhos. Mas que ninguém quer ver, nem os diretamente implicados (talvez, principalmente, os mais diretamente implicados).
A Cristina colocou uma frase que poderá servir de epitáfio, poucos anos volvidos a este, naquela que será a R.I.P. dos actuais editores portugueses. E é esta, se não me leva a mal a cópia e colagem:
Eliminar"Penso que, em Porutgal, há bastante falta desse romance, pois os editores, em geral, parecem preferir a questão da linguagem que «se sobrepõe à estrutura e ao enredo».
Está tudo dito, Cristina. Há editores para poesia e editores para romance, se quisermos dividir nesta fórmula simplificada a ficão e a poesia. Ora, num país onde a maioria dos habitantes são poetas, os editores estão correlativamente nessa proporção e, como tal, apreciam as obras de ficção prenhes de poesia e de frases do imaginária poético.
Nestas obras, que eu já comprei (algumas, ao engano), se saltar 50 ou 100 páginas, não dou conta do "salto". O mesmo será, grosso modo e passe o algum exagero, de someçar pelo último capítulo e acabar no primeiro.
Para lhe ser sincero - eu, que gosto de poesia - abomino a ficção que vem demasiado enfarinhada com as "veias" poéticas dos ficcionistas.
Gostos são gostos, julgio que há lugar para todos, quando estes se encontram na esfera do leitor; já o mesmo não digo quando os gostos se inclinam desta mesma maneira na área do editor.
Desta forma, valter hugo mãe (julgo ser assim que se grafa), não tem em mim um leitor, sabendo eu que, para sua felicidade, não lhe faltam leitores.
Para que se não diga que deixo passar as gralhas, sem chumbo, e uma vez que fiz a revisão depois de publicar o texto (o que se não deve fazer), chamo a atenção para as que são evidentes e que se abatem a seguir:
Eliminarfição/ficção
se/de
o algum/algum
someçar/começar
julgio/julgo
Para a próximo, estarei mais atento e farei a revisão nesta minúscula caixa, onde o texto, oferecido em tons de cinza, se presta a enganar os que vêem através de muitas dioptrias.
Todavia, não esperem que eu corrija através do NAO, uma vez que não o faço, mesmo passando por lorpa e antiquado.
Em Portugal, há, decerto, uma preferência pela linguagem poética.
EliminarMas será a maioria dos seus habitantes poetas?
É. A maioria dos habitantes tem, na poesia, a forma mais fácil de se expressar, a tal ponto de algumas pessoas - se bem que legitimamente - escreverem um livro que forçosamente pretendem ver editado.
EliminarVou contar-lhe uma história.
Quando andava no liceu, cinco amigos e eu quisemos formar um conjunto musical. Todos eles, menos, eu, sabiam tocar. Para que eu não ficasse de fora - para vocalista ainda era pior - propuseram que eu tocasse bateria.
Foi um engano. A bateria não é nada fácil e requer conhecimentos musicais, que eu não possuía.
Assim é a poesia. Há quem se "faça" e escreva umas balelas - com métrica, sem métrica, com ou sem rima - mas lá fazem a coisa com meia dúzia de estrofes para encher a página. Conheço centenas destes casos, pois editei uma revista e tinha propostas destas todos os dias.
Se a Cristina fizer um inquérito aos cidadãos, todos eles já escreveram poesia. Todos eles...
A poesia, no entanto, é outra coisa, requer muita emoção, muita escrita, algum esforço e saber.
Assim, como disse no comentário atrás - e a Cristina também foi clara, nesse pormenor - escrever ficção, contar uma história, documentar-se, cuidar dos mais ínfimos pormenores, construí-la e torná-la apetecível, é tarefa para Cíclope, académico ou não.
Como isto não é fácil, sentam-se à bateria - perdão! -, sentam-se em frente do monitor, arranjam duas ou três personagens, um cenário que não seja muito complicado, apostam nos diálogos (que enchem as páginas e são de escrita mais líquida), e enfarinham a "coisa" com frases poéticas, trocadilhos e outros vocábulos em melífluas metáforas.
Para quem goste - e há muita gente a gostar disso, pelo menos para 400 exemplares de tiragem, no máximo, ou para abichar um prémio literário que, de prémio, só o montante em numerário -, bom proveito.
Já o li, e adorei. Gosto muito da escrita do VHM . Prezo acima de tudo a enorme sensibilidade que ele põe nas personagens, e a forma comovente como as trata. Há uma enorme delicadeza nos seus livros, apesar da dureza de alguns enredos. E é por isso que a sua escrita me encanta e comove.
ResponderEliminarCuriosamente comecei a ler este autor com "A máquina de fazer espanhóis ". Gostei tanto que comprei todas as suas obras anteriores. Já os li todos e não há nenhum que não goste. São todos belíssimos. Embora reconheça que este último livro é o mais poético e o mais elaborado do ponto de vista da linguagem, mantenho-me fiel à Maria da Graça e à Quitéria do "Apocalipse dos Trabalhadores". Delicioso livro, este.
Olá ana b.!
EliminarEu comecei ontem a ler o vhm e, como diria o Fernando António Nogueira, «primeiro estranha-se, depois entranha-se». E eu já me entranhei na história da Halldora, menina triste, precocemente mulher.
Estou a gostar, mas ainda nem cheguei a meio...
Realmente há por ali frases muito belas, daquelas que apetece sublinhar, a par de outras bem cruéis, terríveis mesmo, mas não será a vida composta de tudo isso?
:-)
antonieta
Por acaso... e só mesmo por acaso, achei "o remorso de baltazar serapião" o melhor livro do valter hugo mãe (peço desculpa pelas minúsculas, mas tem uma simbologia que não será de todo estranha ao escritor).
ResponderEliminarJá "a máquina de fazer espanhóis", que também achei francamente bom, para mim não atingiu o mesmo grau de originalidade.
Acho que tem a ver com a viagem... No primeiro senti-me a viajar no tempo: a um passado sujo e violento, mas cujas personagens olhavam o mundo com uma visão de encanto e amoralidade que adoçava as agruras do que se lia. E a escrita... enfim, há sumo naquela escrita.
Já no segundo: bem escrito, boas ideias, boas personagens mas, não me levou a viajar da mesma forma.
Tocando outros comentários, e fazendo um quase plágio, diria que um foi uma onda de 7 metros, o outro um verdadeiro tsunami... Saramago (quase) Dixit
Abraços
P.S. O que é feito do nosso Senhor Pacheco? Anda a faltar às sessões, hem! Maroto!
Viva! Uma mulher ganhou o Nobel. Alice Munro!
ResponderEliminarAcho smepre piada a quem tenta adivinhar, pois ganha sempre alguém com quem ninguém contou.
Nas páginas inglesa e alemã de Munro na Wikipedia já lá está a indicação. Ena, que são rápidos!
Talvez seja uma maneira de fomentar o conto.
Era giro se o Prémio LeYa também fosse ganho por uma mulher...
Eliminarera ainda mais giro se o seu livro fosse dos melhores a concurso, Cristina. :)
EliminarOlá Cristina!
EliminarMas, para além do eterno Roth, li algures que a Alice Munro e o Murakami eram dois fortes candidatos ao Nobel.
Estou a olhar para «A Vista de Castle Rock» que já está em lista de espera há séculos, agora é que vou mesmo lê-lo.
Só que comecei ontem a ler a Valter, tenho o Vargas Llosa, o Auster, o Tabucchi e a Cristina Torrão (não sei se conhece...) e não sei quantos mais à espera...
A Munro já tinha ganho o Man Booker Internacional, que só é atribuído de dois em dois anos.
O Booker anual será atribuído a 15/10, e no ano passado ganhou a Hilary Mantel.
Talvez vá para o Colm Tóibín este ano.
:-)
Antonieta
Já agora, para quem quiser aproveitar, A Random House, que publica obras de Alice Munro, disponibiliza gratuitamente na net um conto longo (Fiction) no seguinte endereço: http://www.dailylit.com/books/fiction/1
EliminarEu já o imprimi para ler em casa.
Vais concorrer ao prémio?
EliminarUi...
EliminarAgora, já ia tarde...
EliminarFico lisonjeada, Antonieta. Mas a escrita dos meus três livros publicados é bem diferente do resto que enuncia e nada suscetível de ganhar um prémio como o da LeYa. O meu objetivo foi, tão-só, contar a nossa História de maneira atrativa.
EliminarPara concorrer ao Prémio LeYa teria de arranjar um estilo diferente.
O Murakami, pelos vistos, vai ter de esperar alguns anos...
EliminarUps! Esqueci-me de preencher o formulário no comentário anterior, de minha autoria ;)
EliminarComo é, Courinha? Já acabou a vindima das nozes? Já estás a pensar em prémios? Prémio NOZEL?
EliminarAnda lá, pá - agora que os dias estão a ficar mais curtos entre nós, e entre as nozes, vê lá mas é se nos dedicas umas horas extraordinárias, que até a Claudia S. Tomazi, lá do Brasil, quatro ou cinco horas mais cedo que nós, mais cedo que as nozes, tem perguntado por ti.
Põe as nozes a secar e deixa correr o tempo, que elas - a Claudia, as horas e as nozes - acertam-no por nós, e para nós.
Podes crer.
Um abraço!
Sei que não é politicamente correcto, mas a mim o que me interessa é ler e não os negócios. E acho que os autores preferem ser lidos a ganhar fortunas (esta autora, de qualquer modo, já não morre à fome com os prémios que tem tido).
EliminarEntão cá vai, para quem não tiver problemas em ler em inglês:
http://en.bookfi.org/
Se se digitar "alice munro", encontram-se pelo menos cinco livros dela para descarregar e ler.
Quem gostar, pode comprar o livro em papel, traduzido em português... E oferecer àqueles de quem goste, porque a Munro é mesmo uma grande escritora.
Gostei tanto d'A Desumanização... achei lindo! a máquina de fazer espanhóis foi até agora aquele de que menos gostei, embora o Valter seja sempre brilhante. :)
ResponderEliminarJulgo ter sido a primeira vez que a Maria do Rosário comenta um livro que eu já li, ou pelo menos, um que li recentemente.
ResponderEliminarJá fui deixando aqui e ali comentários ao último romance do Valter Hugo Mãe e, em grande medida, coincidem com os seus.
Também não sou fã da capa, nem sequer do título. Desumanização, sem o "A" funciona-me melhor ao ouvido. O que conta é mesmo o que está lá dentro e, como já afirmei várias vezes, o Valter é um grande escritor. Quanto a mim, um dos melhores actualmente em Portugal.
O meu único senão, mas é uma coisa muito picuinhas da minha parte, é que este novo livro tem, aqui e ali, vários tiques que ele vai repetindo, que poderia dispensar. É acima de tudo uma questão de gosto pessoal. Para ser justo, deveria deixar um exemplo, mas teria de ir meter o nariz no texto e não tenho energia para isso.
Até ao final do ano, há outro romance que tenho grande expectativa em ler: o novo do Afonso Cruz. Já fiz a pré-encomenda.
Boas leituras a todos,
Rui Miguel Almeida
PS: Não conheço a Alice Munro. Que me dizem os extraordinários?
grande escritora!
EliminarExcelente! Li o "A Vista de Castle Rock" e recomendo vivamente. Muito bom para quem não está muito habituado a ler contos.
EliminarLiberdade ! É descartável ?!
ResponderEliminarOra pois bem !