Autopublicar

Em Portugal, ainda não é significativo o número de autores que se autopublicam e, sobretudo, ainda não é de modo nenhum mensurável o sucesso que alcançam com os respectivos livros. Às vezes, há textos que se destacam em blogues e as editoras tradicionais contactam os seus autores com vista à publicação de um livro em papel, mas, na generalidade, nenhum editor (e faço aqui o meu mea culpa) está suficientemente atento aos livros autopublicados digitalmente e anda à procura de autores nesse espaço infindo que é a Internet (falta de hábito e falta de tempo, diria eu). Noutros países, porém, essa prática é comum (nos países anglo-saxónicos, sobretudo) e as fatídicas 50 Sombras de Grey são apenas um de muitos exemplos de obras autopublicadas, e posteriormente descobertas por grandes editoras, que atingiram níveis de sucesso incalculáveis. Pensava que todos os escritores que se autopublicam queriam, no fundo, chegar um dia a ser publicados por uma chancela de renome. Leio, porém, num site de notícias sobre edição digital que nem todos procuram o reconhecimento que uma editora consolidada lhes pode oferecer, uma vez que se sentem confortáveis por controlar em tempo real as vendas dos seus livros e receber, se for o caso diariamente, os proveitos delas decorrentes. Têm igualmente a ideia de que, sendo os únicos proprietários dos direitos, estão livres de baixar o preço quando bem o entenderem se, por exemplo, verificarem que a obra não está a ser comprada – o que, de modo nenhum, poderiam fazer se a editora tivesse fixado ela própria um preço (menos ainda se nesse país houvesse a lei do preço fixo). Julguei que era importante para os escritores o reconhecimento do interesse e da qualidade dos seus livros por alguém reputado; mas, pelos vistos, neste mundo de números em que vivemos, o dinheiro conta mais...

Comentários

  1. José Cipriano Catarino19 de março de 2013 às 03:29

    Desnecessário seria acrescentar que em Portugal a situação é diferente: autopublicamos porque as editoras se não interessam por aquilo que entendemos dever escrever, porque, como me disse recentememente por telefone um editor "você não dorme com o Pinto da Costa nem é pivô de televisão", porque a "participação nos riscos" que popõem é mais cara e mais arriscada do que uma edição de autor, porque queremos seguir o nosso próprio caminho e aceitamos pagar o respectivo preço...

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  2. É claro que o dinheiro também conta, não se deve ter complexos de dizer isso. O reconhecimento do interesse e qualidade dos livros é, sem dúvida, importante, mas qualquer autor (ou, pelo menos, 95% dos autores) quer ganhar dinheiro com aquilo que escreve.
    Se o dinheiro conta mais? É difícil de dizer, pois, um reconhecimento como o que Nuno Camarneiro recentemente teve (Prémio LeYa) está intimimamente ligado a boas vendas dos seus livros.
    As duas coisas estão ligadas, não adianta negar! E, normalmente, só um escritor que ganha bem diz que o dinheiro não lhe interessa.

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    1. Reparei agora que tenho uma vírgula a mais. Eu sei, não precisam de corrigir...

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    2. José Cipriano Catarino19 de março de 2013 às 06:33

      O dinheiro conta; mas, concordará, quem quiser ganhar dinheiro tem muitas formas menos trabalhosas e mais rentáveis de o ganhar. Na política, por exemplo.
      O dinheiro pode não ser a motivação principal de um escritor que não precisa do dinheiro da escrita para comer, embora desse jeito.

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    3. Sim, primeiro está a vocação, claro. Quem não tem vocação para escritor, dificilmente aguenta tantas horas a escrever, ou a rever a mesma página dezenas de vezes.

      Mas ver o trabalho recompensado, tanto através do reconhecimento, como monetariamente, dá sempre jeito, como o José diz.

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  3. Não vale a pena doirar a pílula.
    Na generalidade, salvo exceções, os autores que se autopublicam são os que não interessam às verdadeiras editoras (excluem-se aquelas que prestam serviços). E têm os motivos que querem para isso, que muitas vezes não se prendem com a qualidade da obra. Nenhum autor deseja escolher o caminho da incerteza, da insegurança e do risco preterindo as vantagens de uma editora a sério. Mas quem não pode caçar com cão, caça com gato.
    Quando à publicação digital, como é o caso da recente Escrytos, da Leya, basta percorrer os olhos pelas publicações para perceber facilmente o seu nível de qualidade, o que vem corroborar a afirmação inicial. Duvido que as mais-valias conseguidas com a publicação nessa plataforma deem para fazer cantar um cego. Mas é um bom serviço que presta à comunidade: satisfaz o ego dos autores. E a vida sorri.

    Barrius

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    1. A maioria dos autores aceites e publicados pelas editoras também não ganham o suficiente para fazer cantar um cego.

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    2. Talvez meia dúzia de cegos.
      :)

      Barrius

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    3. José Cipriano Catarino19 de março de 2013 às 06:38

      Lamento que reduza a publicação em edição de autor, i.e., fora dos circuitos oficiais, a uma questão de vaidade. Os vaidosos que conheço, e não são poucos, não escrevem. É que escrever dá muito trabalho, é verdadeira tortura.
      Quanto aos ebooks da Escrytos, lanço-lhe um repto, admitindo que está de boa fé: leia um dos meus romances, por exemplo, Entre Cós e Alpedriz, e se me disser que é uma merda devolvo-lhe o dinheiro. Aceita?

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  4. Fora do mundo de publicações e editoras. Realmente. A Rosário, para além de divulgar livros, faz-nos(me) por vezes pensar em assuntos de janela cerrada, nunca assomados; e é bom que assim. Julgava que as autopublicações satisfaziam desejos antigos de escrita de um livro. Capa, folhas, nome...uma vaidadezinha que saía cara; espécie de autoprenda. Que também há organizações, nem sei se posso chamá-las de editoras, que se ocupam a realizar e a fazer surgir tais desejos. Do que me foi dado entender, e foi pouco, são um quase logro. Não porque não editem, mas porque, bastas vezes, alimentam vaidade que não tem razão. E alimentam-se. Parece-me antropofágico. Ou ligeiramente obsceno e extorsionário. Ainda não decidi.
    Talvez a Rosário saiba melhor que nós (eu), mas os indicadores para ganhar dinheiro com livros digitais, também me soam a sonho/devaneio, no actual panorama de leitores portugueses. Que a ideia de gerir sozinho a sua fonte de rendimento, até penso que nos serviria. Não somos muito de conjunto e comunidade. Infelizmente. Mal humano nos dias que correm, como é de ver por esta Europa que existe e saiu de um projecto comunitário. E não só de agora. Ou não teria havido tanta guerra, massacre, fomes e o mais.
    Quem escreve para venda importa-se com verbas. E importa-se mais se viver das vendas e outra fonte não tenha. Ou se a avareza substitui a necessidade. Ou.

    E porque se escreve se não dá para mandar cantar um cego?

    Só não cansa quem corre por gosto.

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    1. Escreve-se por compulsão, obviamente. E este deve ser o critério determinante para distinguir um escritor...de um seu simulacro!

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    2. Muitas vezes, quem escreve por compulsão não foi abençoado com um talento fora do comum. E é isso que se tende a esquecer. Concordo com o José Cipriano quando diz que a vaidade não é o critério principal para se autopublicar. Pelo menos, no que diz respeito a muita gente. Penso que esses escritores que amam o seu ofício, mas que não são génios, também devem ser respeitados. As editoras publicam muito "lixo" e não há motivo para se respeitarem mais os autores desse "lixo" do que outros que escrevem por compulsão, mas não conseguem chamar a atenção das editoras.

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    3. Cristina Torrão. Certo. Cada pessoa deve, no entanto, possuir o discernimento necessário a avaliar as suas reais potencialidades. Não me disporia, ao contrário do que fez, a chamar "lixo" a qualquer obra, por menor que esta se venha a revelar. Quanto mais não seja por respeito a quem se dispôs a nela despender tempo e dedicação. Contudo, quem é publicado por uma editora de mercado foi sujeito a um crivo e a uma avaliação inexistentes nas demais situações. Justa ou injustamente é factor apenas passível de avaliação numa fase posterior...e, ainda assim, de maneira sempre subjectiva e falível.

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    4. Admito que a palavra "lixo" seja bastante forte, muito depreciativa. Mas já se tem aqui usado para definir certas publicações (salvo erro, também pela nossa anfitriã). E eu refiro-me, sobretudo, a livros de não-ficção que são publicados apenas porque foram escritos por figuras públicas (muitas vezes, nem foram escritas por elas, mas por um "ghost-writer"). Futre, por exemplo, também publicou um livro! Tenho respeito pela pessoa, foi um grande jogador de futebol, mas não me parece que seja escritor. Nem me parece que, se não fosse conhecido, alguma vez conseguiria publicar fosse o que fosse. E também não me parece que tenha investido muito tempo e dedicação na sua obra!!!

      Foi precisamente para defender quem realmente investe esse tempo e essa dedicação que eu escrevi o meu comentário, gente que não consegue publicar apenas por não ter contactos (ou não ser conhecida).

      Não sei se a Sandra escreve, mas, quem escreve, tem muitas dificuldades em avaliar as suas reais potencialidades, porque quem escreve por amor e dedicação não consegue a distância necessária em relação à obra para ser objetivo. Por isso, é bom que reúna opiniões. O problema é que, como outros comentadores aqui confirmam, quem não tem contactos, não consegue chegar a uma opinião idónea, já que os editores raramente leem originais que lhes são enviados por quem não conhecem. A esses autores (ou candidatos a autores) resta-lhes, muitas vezes, a autopublicação sem as tais avaliação e revisão necessárias.

      É triste, é frustrante e deixa, seguramente, muito talento pelo caminho.

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    5. Tem razão, Cristina. Até porque, mesmo existindo um talento inato, há que saber direccioná-lo, encaminhá-lo...

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  5. No meu caso, uma editora propôs-me a edição em papel de um romance que, durante um ano, como se fosse um folhetim, fui publicando no blogue. A última coisa de que estava à espera era do contacto de um editor. Mas aconteceu assim -- e é só para dar um exemplo de que estas coisas, pelos vistos, também em Portugal podem acontecer...

    jcb

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    1. José Cipriano Catarino19 de março de 2013 às 06:49

      Sem "participar nos riscos"? Sem a obrigação de comprar determinado número de exemplares, de conseguir apoios... Então, parabéns. Merece.

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  6. Há anos que tento publicar.
    Nada. Ou a carta de recusa educada, ou o simples acto de ignorância ou ausência de reacção. Aliás, cheguei uma vez a fazer um truque muito curioso, que resultou na perfeição. Enviei um manuscrito com duas páginas viradas ao contrário. Quando me enviaram a rejeição e me devolveram os originais, verifiquei que as páginas estavam ainda viradas ao contrário, o que comprova muita coisa. Deu-me vontade de rir mas também demonstrou algo.
    Não se trata de achar que "deveria" estar publicado, mas leio algumas coisas publicadas no mercado, que ainda por cima vendem, e em editoras de algum renome que valham-me todos os santos... A questão das editoras só publicarem qualidade é falaciosa, porque há tanta coisa publicada que leva à velha discussão da qualidade... o livro mais vendido em Portugal o ano passado foi o tal fatídico "50 ....". Margarida Rebelo Pinto vende que nem pão quente, e podíamos ir por aí fora. Marta Gaultier? Tenham paciência...
    A verdade é que no mercado editorial há também o elemento contacto, e se é certo que muita coisa é publicada porque tem qualidade, outras serão porque se conhecem as pessoas certas, porque cheira a algo que venderá disparatadamente, preste ou não, e porque o nome ainda faz muita diferença num universo de análise de autores e manuscritos.
    Talvez me engane, mas nenhum autor ou aspirante a tal preferirá auto-publicar-se a ver reconhecida a sua tentativa por uma editora que de facto acha que algo que disse poderá interessar a algumas, senão a muitas pessoas. Mas o mercado editorial é, em muitos casos, fechado que nem uma ostra e mais difícil de penetrar que a discoteca da moda às três da manhã.
    No fundo, também há outro problema em Portugal especificamente, mas não só... é que a literacia e a bibliofilia não é exactamente aquilo que se desejaria, julgo eu... e por aí se vê muito do resto...

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  7. Em circuitos alternativos evitam-se os críticos e o julgamento dos pares.
    Mas fazer um livro, mesmo artesanalmente, pode ter outros objetivos que não o dinheiro. Há pouco tempo organizamo-nos para oferecer um «livro» a uma colega, feito por nós.
    Há dias, o meu marido surpreendeu-me quando me falou de uma ideia, já pensada em tempos, de autopublicarmos poemas que trocámos no início da nossa vida a dois. Faríamos dinheiro com isto? Certamente que não. Provavelmente nem os publicaríamos - imprimiríamos apenas. Mas pelo menos os nossos filhos e netos um dia poderiam ler-nos e perceber-nos talvez um pouco melhor, quem sabe.

    Não se esqueçam de que hoje é o dia do pai (eu já tive de fazer de pai, por motivos de ausência temporária - e gostei imenso!).

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  8. Comentário de José Couto Nogueira
    Há muitas razões para um autor se autopublicar (nunca o fiz, mas não me repulsa fazê-lo).
    1) Pela positiva, existem softwares muito simples que permitem por um livro digital directamente de casa na Amazon ou na App Store;
    2) O controle do que se vende e das margens de lucro é maior, assim como da distribuição.
    3) Pela negativa, as editoras oferecem um péssimo serviço, distribuem mal e as contas nunca fazem sentido - quando não aldrabam descaradamente.
    4) Para um autor novo é muito difícil ser aceite por uma editora - tem de ganhar um concurso, ou quem o recomende. Fica meses à espera e na maior parte dos casos nem recebe uma resposta.
    5) No caso de Portugal, que o mercado é muito pequeno, sei de autores autopublicados que vendem mais do que outros do mesmo nível que estão nas editoras; é possível distribuir melhor para as poucas livrarias que ainda restam do que esperar a péssima distribuição "oficial". Os livros ficam em armazem e nas livrarias dizem que já não há. Depois a editora vem dizer que os vai destruir porque não vendem! (As editoras ainda desconhecem o conceito de "slow seller" e não sabem tirar partido comercial de obras que vendem pouco mas continuamente.)
    Estou a escrever à pressa, talvez falte alguma coisa - pormenores, com certeza - mas o essencial é isto. Tal como as gravadoras de som, as editoras não se souberam adaptar às mudanças de mercado. Medo, talvez. Excesso de marketeiros e poucos livreiros, com certeza!

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    1. Perplexo
      Muito obrigada pelo seu comentário. A minha perspectiva revela-se assim uma salinha minúscula; deu-lhe amplidão.

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    2. Excelente e otimista relato sobre as potencialidades atuais, em Portugal e no mundo, de publicação online. Não imaginava que se pudesse autopublicar tão facilmente no nosso país e até na Amazon. Pelos vistos não há razão para frustrações para quem se sinta vitimizado pelas editoras. Interessante ! Obrigado.

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    3. O seu comentário é o mais certeiro de todos.
      Tudo se resume a isto: 1º - falar de "qualidade" na publicação e nas edições não faz sentido - as editoras estão a borrifar-se para a "qualidade". Uma editora só edita se lhe cheirar a dinheiro. Ponto final!
      2º A Vanity Publishing vale zero (0)! Publicar numa Vanity ou não publicar, de todo, é a mesma coisa, com a ressalva que não se deitam uns milhares de euros ao lixo!
      3º As edições de autor funcionam bem em países em que o mercado dos livros e da leitura são dinâmicos e têm dimensão (nos Estados Unidos, por exemplo, um autor conceituado que tenha o seu público, está-se nas tintas para as editoras; muitas vezes, opta pela edição de autor, conserva os direitos na totalidade e sujeita-se a vender tanto ou mais do que com uma chancela!)
      4º Em Portugal, se as editoras têm os seus pecadilhos, o leitor não lhes fica atrás - é um pseudo-leitor, escasso, arrogante, convencido, tem a mania que é culto só porque traz um livro debaixo da cova do braço, quase só escolhe autores estrangeiros (os que a vizinha também anda a ler) e não sabe, sequer, muitas das vezes, o que significa a palavra "Literatura".

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  9. Ou a lei do mercado aplicada à cultura... (também não sabia que essa preocupação mercantilista fosse uma das justificações para a auto-publicação)

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  10. Para além de transparecer timidamente nalgumas coletâneas , nunca publiquei para venda ou mesmo escrevi para o prazer dos outros. Não que o prazer dos outros seja indiferente ou as suas observações não motivantes - afinal vivemos num mundo de afetos - mas porque sempre foi um prazer de exercício pessoal não solitário apenas acompanhado pelo espelho do conhecimento e da alma, não regateando o mundo do sonho da terra do nunca, nem nunca alienando o real da terra do sempre.
    Espero como Gepeto - à quase dezena de originais encadernados de alguns milhares de páginas nas prateleiras - dar forma e vida a estes meninos de pasta de papel, a estes pinóquios » feitos de sonhos, verdades, consequências, na minha oficina, não por osmose mas por convívio, tornando-os - por um breve momento que seja - garbosos meninos - livros de verdade.
    Recentemente enviei um ou outro para apreciação em concursos – afinal como seres humanos somos diariamente escrutinados pelas nossas dis ) semelhanças, uma forma como outra qualquer de receber uma festa, um afeto , um carinho, alimentando pequenas fomes sempre frágeis e sensíveis, condição que perceciono como comum a esta vontade e paixão de perceção daquilo que nos rodeia; e uma forma, também, de exigência para com o combinado de palavras, ritmos e formas da escrita como comunicação.
    Neste mundo de «enclousures», escrever para além da gaveta será uma sinapse de mim para o outro, um regresso aos campos comunitários de grande liberdade, fugindo a um mundo cada vez com menos cor.
    Mas nunca me iludi - como quem se ilude com a publicação como vaidade de viandante, neste caso tripulante dos tempos glamorosos da aviação – num tempo em que poucas ou nenhumas rotas estão por traçar, e em que as viagens são já pouco mais do que um bocejo.
    Tive a suprema sorte de encontrar no mar dos bits da rede estas «horas extraordinárias», onde tenho a certeza de partilhar um incondicional amor pela forma lida da escrita, e de aprender, e isso basta-me como este poema que abre um dos meus encadernados de poesia:

    A tua biografia espelhada
    Não foi um evento que eu tivesse procurado
    Mas também como sabes
    Nada é em vão
    Nem a tua vontade de ser amado
    Nem a ilusão de através da obra
    Nos mantermos vivos.
    A tua biografia espelha
    As almas através da imagem
    (…)

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  11. Segundo comentário de José Couto Nogueira.
    Só mais uma coisa, que me esqueci: não conheço nenhum autor que se autopublique a pensar em dinheiro. Aliás, conheço muito poucos autores, entre consagrados e novatos, que pensem em dinheiro. Claro que ganhar com o que se escreve é uma boa perspectiva (e também uma prova de sucesso), mas o que realmente motiva o autor é ser lido por outros, transmitir a sua mensagem, ponto de vista, ou o que for, ao maior número de leitores possível. Quem escreve por dinheiro não escreve ficção ou poesia - apenas livros de auto-ajuda...

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    1. Já lá atrás o dissemos: escreve-se por gosto (arrisco que até nos livros de auto ajuda pode ser um gosto escrevê-los). Quem sabe, um prazer doloroso; tanta hora à volta de palavras só pode vir de um gosto primário, uma quase necessidade de criar, com partos difíceis e curvas a perigar. Acredito que, para o autor, a compra do livro não signifique a miséria que ganhe em cada exemplar, mas, quem sabe, a esperança de encontrar eco no leitor. É um bonito entendimento o da obra-leitor com o autor subentendido.
      Mas não se vive sem dinheiro.

      As pessoas que conheço e autopublicaram não têm qualquer fim lucrativo.

      Parece-me que há também, como já foi dito acima, um desejo de que se não perca um conteúdo. É verdade que nada volta ou é o mesmo. Mas há factos de preservar. E pessoas que, por arte própria, criam importância em tudo que vêem ou imaginam. Os primeiros contam à família e mais importa o assunto. Nos segundos, importam eles, que a realidade que escrevem é sua. E acontece ser assim que gostamos de lê-la.

      Sigo a regar a minha raíz, que logo empertiga por fora e derrete por dentro. Coisas. Que não sobram.

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  12. Quando assimilei o tema desta manhã, deduzi logo que ele seria comentado de maneira profícua. Creio que o objectivo final da escrita não deve ser mercantilista. Se o for, será um péssimo indício. Já se decorrer do percurso natural da carreira do escritor e se lhe permitir dedicar-se em exclusivo ao que realmente gosta de fazer...porque não? No entanto, parece-me, à semelhança de outros comentadores já aqui intervenientes que a auto-edição não permite grandes lucros. Se é que permite alguns!

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  13. Será de imaginar que o grande defeito da auto-publicação seja o inevitável enamoramento pelas próprias palavras, ao ponto do discernimento critico - faltando outrem capacitado para oferecer uma critica estóica - se transformar numa apatia que desaba numa conclusão de "bem ou mal escrito" em algo amorfo.

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  14. existem de facto muitas razões para que exista a "autopublicação", ainda que hoje possa ser "camuflada" e usada como um negócio rentável de várias editoras menores.

    em primeiro lugar, o mérito de uma obra, está longe de ser o principal motivo para a sua publicação.

    quem acompanha o "negócio" dos livros, sabe que o nome e a visibilidade social são mais importantes que o talento como escritor, infelizmente.

    com toda esta "trama", acabamos por encontrar de tudo no mundo da "autopublicação", desde grandes talentos a autênticas nulidades, que apenas querem escrever um livro porque já fizeram um filho e já plantaram uma árvore...

    ou seja, "autopublicar" é quase como um "mar", revolto e quase indefinível.

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  15. Caro José Catarino,

    não tenho por hábito alimentar discussões estéreis; porém, fiquei deveras sensibilizado com a sua sensibilidade, e tenho a dizer o seguinte:

    Eu sei que, por vezes, os professores de Português leem apressadamente e, por consequência, acabam por escrever da mesma forma. Se o senhor ler com atenção o meu texto, perceberá que a "vaidade" (a palavra é sua) se refere à edição digital (Escrytos). Não fui redutor, e refuto a palavra "vaidade"; quando algo me faz feliz, o meu ego fica satisfeito, e não se trata necessariamente de vaidade.

    Agora outra coisa, para terminar: o romance da sua autoria que nomeia, Entre Cós e Alpedriz, editado digitalmente por si na Escrytos, teve uma edição impressa em 2007. Estando convicto de que ele vale mais do que uma "merda" (a palavra é sua), por que razão teve uma edição de autor, em 2007, e outra agora, na Escrytos, também edição de autor? Eu arrisco uma resposta: para sua satisfação pessoal. E não vem mal nenhum ao mundo.

    Seja feliz.

    Barrius

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    1. Não se trata de leitura apressada (a referência aos professores de Português era escusada), mas de interpretação da expressão "satisfaz o ego dos autores". Reafirmo que não é por mera satisfação do meu ego que publico. Se fosse essa a motivação, um livro bastaria, não? E porque é que apenas a publicação em formato digital visa satisfazer o ego dos autores?
      A minha motivação é outra: escrito um livro, há a vontade de o dar à luz, mesmo conhecendo os riscos que se correm e as dificuldades que se enfrentam. Certos egos podem nem suportar inevitáveis rejeições e críticas desfavoráveis, não sendo garantido que a publicação os satisfaça.
      Entre Cós e Alpedriz conheceu, se a memória me não falha, cinco tiragens em papel. Foi então um sucesso de vendas, tendo em conta que apenas pude contar com a ajuda de familiares e amigos, não tenho jeito nem apetência pelos negócios. Por isso, não tenciono fazer mais tiragens e publiquei-o como ebook na Escrytos para tentar chegar a outros leitores. Sem grandes esperanças, devo dizê-lo. Mas como não implicou despesas nem grandes trabalhos, lá está. Satisfação para o ego? Nenhuma. Basta-me a que me deu em 2007 ter conseguido dar vida a uma história que procurei durante duas dezenas de anos e escrevi em dois.
      Obrigado pelos votos de felicidade. É, de facto, uma das minhas preocupações e creio que frequentemente o consigo. Pelo que os retribuo.

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    2. Concordo, José Catarino. Também não me parece tratar-se, somente, de uma qualquer auto-satisfação.

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  16. Parece-me neste momento em que a procura suspendeu a respiração, nem a auto-edição nem a própria edição totalmente assumida por editora darem lucros ao autor. Perpassa nos desabafos aqui e ali de nomes consagrados, uma desilusão pelo seu trabalho de escrita como trabalho remunerado, muitas vezes não pago ou insuficientemente pago. Assim o risco estará cada vez mais do lado dos escritores, que têm de perceber o motivo por que escrevem.

    Ainda esta manhã zurzia contra o finlandês Olli Rehn , o holandês Jeroen Dijsselbloem , os alemães Wolfgang Schauble e Jorg Asmussen .
    Zurzia pela sua postura de senhores da mittleuropa , de formiguinhas egoístas perante as sulistas cigarras. Schauble , o alemão, tem até esta expressão engraçada de afirmar a «pressão incrível» a que sujeitaram o pobre cipriota. Pergunto-me: e a pressão incrível a que devem estas sujeitas a grande maioria das editoras, senão a totalidade, cada vez mais migrando para espaços de serviços, da revisão ao editing », à própria intermediação com as gráficas, perante a avalanche de custos, de obras – primas e da rarefacção de receitas por venda dos seus produtos iniciais? A pressão pela sustentabilidade e pela sobrevivência do seu modelo de negócio é simples de perceber num mundo em que disseminou teclados ao pé dos dedos de cada uma das individualidades - que somos nós - e da oferta de preenchimento dos tempos de lazer ao infinito – ao contrário dos tempos de qualidade. Quem não está distraído, apreendeu e percebeu o grito desesperado dos editores perante a resma de «obras – primas» colocadas diariamente perante os seus olhos, sentindo a angústia pela cooptação por menos de uma mão cheia (e que risco correm podendo deixar escapar algo que o gosto e o aleatório resolva consagrar?)

    A realidade é que estamos em mudança acelerada. Quem quer ser lido no futuro terá de passar por blogues, cooperativas de escritores, nichos de leitores e novas formas de publicação mais baratas aos poucos leitores que restarão (seremos todos muito mais escritores da nossa própria realidade!), aos muitos escritores que se adivinham; e a um tempo de aprendizagem cada vez mais demorado, que permita uma perfeição anterior sufragada pelo tempo e em grande medida pela sua edição de autor ou notoriedade pelo concurso literário.

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  17. Escrevo esta nota reconhecendo o meu quase absoluto desconhecimento do mundo editorial. Escrevo com a reserva, pois, de quem reconhece saber pouco, ou quase nada, do que fala. A verdade é que, nestas discussões, surpreendo-me sempre com o facto de se achar que o negócio não é a principal motivação de um editor – ou de se achar ilegítimo que um editor ganhe dinheiro com os livros…

    A meu ver, a razão principal que leva um editor a publicar um determinado livro é… presumir que vai ganhar dinheiro com ele… Se reconhece no livro qualidades ímpares do ponto de vista literário, e se não é boçal, deve sentir-se extremamente feliz por poder ganhar dinheiro com um livro que é um livro bom; caso contrário, deve ficar com um saborzinho amargo de saber que publica um livro mau ou fracote – mas, enfim, que permite pagar capas e ordenados e a factura da electricidade… Com um bocado de sorte, a publicação de alguns livros maus, mas que têm sucesso editorial, até permitirá vir a publicar uns livros bons que vendem pouco…

    Isto parece-me simples de compreender – se falamos de editores privados e não da Imprensa Nacional Casa da Moeda, por exemplo, onde outro galo cantará.

    Claro que há editores e editores. Há editores que são apenas comerciantes (o que me parece absolutamente legítimo: a edição é um negócio como qualquer outro) e há editores que não abdicam de padrões elevados de qualidade literária. Aos primeiros devemos reconhecer legitimidade; os segundos merecem-nos o amor e o reconhecimento que nem sempre lhes damos. Ainda assim – se ganharem menos do que gastam, breve lhes vai pelo cano a possibilidade de publicarem génios que não vendem.

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    1. Aí é que vossa excelência se engana:" ...há editores que não abdicam dos seus altos padrões de qualidade...". Pois fique sabendo que, a Vanity Publishing, que durante anos foi zurzida a ferro e fogo pelos grandes editores, como uma forma vergonhosa de aproveitamento da ingenuidade (e do cheque!) dos autores está, agora, a ser "namorada" pelos grandes grupos editoriais (Porto Editora, Bertrand, Leya...).
      Como a publicação "pré-paga" tem provado ser um negócio rentável, já lhe piscam o olho. Onde é que está a fidelidade ao "alto padrão literário, agora?"

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  18. Que interessante é o (grande) eco que teve esta reflexão da Rosário sobre autopublicação nos frequentadores deste blog ! Significa que um bom número dos que lêem as "Horas Extraordinárias" tem a ambição, mais ou menos secreta, de publicar as suas criações literárias, mesmo que ainda as não tenha escrito (como é o meu caso!). Mas há fantasia mais bela do que esta ? Mesmo que seja acalentada apenas por inconsequentes bartlebys literários ? Que doce ilusão esta de repetidamente imaginarmos a nossa obra a fazer, deliciando-nos em devaneios sobre um radioso futuro que é íntimo amparo de uma vida inteira, afinal sustentada apenas por quimeras que nunca se realizarão ! Não era já assim que o Carlos Eduardo da Maia sobrevivia ? Haverá fantasia mais portuguesa do que esta ?

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    1. O Ega, Artur Águas, o Ega. Eterno escritor de uma obra sempre incompleta. (lembro-me tantas vezes dele quando o cansaço me assola!)

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    2. José Cipriano Catarino19 de março de 2013 às 16:33

      E aquelas questões de Carlos (cito de memória): se o Cruges escrevesse uma sinfonia, quem é que lha tocava? Se o Ega escrevesse o seu romance, quem é que lho lia?
      Nem parece que decorreu um século, tão actuais continuam elas...

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    3. José Cipriano Catarino19 de março de 2013 às 16:46

      Rectificação:
      "-- Ninguém faz nada — disse Carlos espreguiçando-se. — Tu, por exemplo, que fazes? Cruges, depois de um silêncio, rosnou encolhendo os ombros: — Se eu fizesse uma boa ópera, quem é que ma representava?
      — E se o Ega fizesse um belo livro, quem é que lho lia? O maestro terminou por dizer:
      — Isto é um país impossível..."

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    4. De acordo ! Tem toda a razão: o Ega é no romance o escritor boémio que muito ambiciona criar e pouco ou nada escreve ! Eu é que imagino sempre (distorcidamente, confesso) o Ega como um jovem proto-Eça que se tornará, com a maturidade, num grande escritor. Para mim o grande fantasista inconsequente é o Carlos Eduardo que se imagina a si próprio como um grande cientista-médico que irá realizar descobertas fundamentais no laboratório, criado com o dinheiro do avô ao lado do seu consultório, aonde quase nenhum doente irá e do qual ele a seu tempo desistirá ...

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    5. A obra de Eça insiste muito nos "fantasistas inconsequentes", gente cheia de ideias que não consegue concretizar e de sonhos que não se realizam. Por preguiça, ignorância, ou ingenuidade. Aconselho-lhe a leitura de "A Capital" (se é que ainda não leu).

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    6. Obrigado pela sugestão ! De facto já li "A Capital"; é o nosso pendor fatalista empurrando-nos para desistência e para o conformismo ...

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  19. Resposta aqui:

    http://cafeecigarrosblog.wordpress.com/2013/03/19/auto-publicar/

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    1. Vale a pena abrir e ler ! É excelente texto de elucidação para que futuros autores que queiram publicar percebam que: (i) ou têm presença já estabelecida nos media ou na política; (ii) ou ganham um prémio de nomeada. De contrário, não vale a pena enviar manuscritos para editoras com a esperança que serão lidos e avaliados. Obrigado pelo esclarecimento baseado em vários exemplos pessoais !

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  20. Também gostei muito deste post e dos comentários (e virão mais, com certeza). Há bastante tempo que não via aqui uma discussão tão interessante.
    Parabéns e obrigada à anfitriã e a todos os outros!

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  21. Quer seja uma opção individual, quer seja por não lhe restar alternativa, o facto de o autor ter à sua disposição essa ferramenta é bastante positivo. Será muito difícil que consiga obter um retorno financeiro significativo, dada a limitação do canal de distribuição e a amplitude da publicidade, pelo que não será inteiramente verdade que o objectivo seja apenas o dinheiro.

    Apesar de não estar familiarizado com o mundo editorial acho que a reputação das editoras “consolidadas”, hoje em dia, poderá não ser tão fiável como há uns tempos atrás. Posso estar enganado. Actualmente, a reputação institucional de uma entidade que pratica uma actividade comercial não tem o mesmo peso, nem apresenta as mesmas garantias. Até à umas décadas atrás, a reputação institucional de uma empresa era uma conquista sólida. Contudo, além da desregulação do mercado e da perda de referências e valores morais, somos confrontados com uma dose de elevada de aquisições, alienações, cisões, fusões, falências, insolvências. Na maioria das vezes desconhece-se quem são os proprietários e quais as suas intenções. Desconheço em pormenor o sector das editoras mas temos assistido uma série de falências e fusões. A manutenção dos nomes de editoras históricas garante a qualidade a que o leitor estava habituado? Por outro lado, os consumidores de livros são menos exigentes, pelo que, as editoras têm que sobreviver e fazer algumas opções em que um dos critérios será a qualidade mas não o único.

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  22. José Cipriano e Artur Águas: obrigada a ambos, bem como aos restantes comentadores e à autora deste blogue. É um prazer dissertar, convosco, acerca destas matérias. Uma excelente quarta feira (já solarenga e a cheirar a Primavera) :-)

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  23. Por algum motivo insondável, parece que há muita gente que acha que escrever dá dinheiro. Conheci uma vez uma pessoa que me disse que queria ser escritor para não ter de fazer mais nada na vida. Eu perguntei-lhe se aquilo era uma piada, mas pelo modo sério e espantado como me olhou percebi que não era. Eu disse-lhe que talvez fosse mais fácil apostar no Euromilhões.

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    1. É mesmo isso, Catarina!
      Há vários anos, li, num livro de auto-ajuda para candidatos a autores, qualquer coisa como isto (o livro estava escrito em alemão e já se passou bastante tempo, pelo que estou a citar de memória):
      Gosta de escrever e deseja ser escritor? Os meus sentimentos! Nem imagina o sofrimento e as frustrações por que irá passar. E nem pense em ganhar dinheiro com a sua escrita, pelo contrário! O mais certo é ter de pagar para conseguir publicar. Se, depois disto, ainda não desistiu da ideia, então, leia este livro. Pode ser que ajude.

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  24. A triste realidade é que muita da literatura em papel publicada em Portugal, hoje em dia, ou tem colinho nas sinecuras e nos lançamentos de croquete e beijinho dos sempreeternos "artistas do costume ou tem nome televisivo ou.... ou..são muitos "ous..."

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  25. Estou com 23 anos de idade e gostei muito do seu post e como ele discute sobre alcançar independência financeira. Tenho uma dúvida ou duas quanto a isto. Um tio falou que é possível ganhar dinheiro sem realizar esforço algum, isso é mesmo verdade? Estarei em seu blog em outro momento a fim de ler a resposta. Obrigado!

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  26. Não vale a pena escrever nem mais uma linha. Tudo o que havia par ser escrito já o foi no século XIX e XX. Não é preciso ler muito, basta ler em qualidade. Para quê ler um Afonso Cruz ou um Peixoto da Coreia se podemos sempre revisitar uns Maias ou, melhor, uma Anna Karenina? Bem dizia Vasco Pulido Valente nas aulas que ministrava de História que não dirigia a palavra a todo aquele que sabia nunca ter lido os Maias. Quase tudo o que se escreve hoje em dia, salvo honrosas excepções, é uma retumbante merda.

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