Editores-escritores

Há pessoas que estranham que não tenha publicado os meus livros – a maioria, pelo menos – nas editoras por onde fui passando; as únicas excepções, em mais de quarenta títulos (entre livros de crianças e livros de adultos), foram uma encomenda recente (e mesmo assim reflecti antes de a aceitar) e uma teimosia antiga (do então patrão, mas talvez devesse ter sido ainda mais teimosa). Conheço um editor-escritor que, como dono da empresa, decidiu ao contrário, tornando-se o seu próprio editor; e outro que publica regularmente na editora para a qual trabalha sem nenhuns problemas de consciência. Mas outros há que publicaram os seus livros na concorrência, embora eu já não consiga dizer, a esta distância, se já eram editores na altura, se foi justamente a escrita a levá-los à edição. E até se passou comigo uma história engraçada, que foi terem-me pedido há muitos anos para ler e avaliar um original, e eu ter descoberto mais tarde que se tratava do romance de um editor conhecido (livro que, parece-me, nunca chegou a ser publicado e, aqui para nós, ainda bem). Actualmente, tenho dois colegas no meu local de trabalho que se estrearam como autores de ficção quando eram jornalistas, tendo um deles sido inclusivamente galardoado com um importante prémio pela obra de estreia e o outro contado nada mais nada menos do que com António Lobo Antunes na apresentação pública do romance. Pois a verdade é que, desde que se tornaram fazedores de livros alheios, não voltaram a publicar – e o mesmo aconteceu, por exemplo, a Nelson de Matos, que foi durante muitos anos editor da Dom Quixote, mas antes disso tinha escrito um romance intitulado Giestas da Memória (o Manel também publicou quatro livros de poesia, mas deixou-se disso quando passou a editor). Será que as duas actividades se anulam ou se complementam? Ler tirará a vontade de escrever ou acentuá-la-á? E como reagir quando um colega de repente nos pede para lhe lermos um original e descobrimos que, afinal, é dele e até não nos importaríamos de o publicar, mas não sabemos se ele quer fazê-lo na própria editora?

Comentários

  1. «Será que as duas actividades se anulam ou se complementam? Ler tirará a vontade de escrever ou acentuá-la-á?»

    Excelentes perguntas para reflexão que terão presumivelmente respostas diferenciadas.

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  2. como se costuma dizer: «cada cabeça cada sentença.»

    à partida eu também não publicaria os meus livros na editora onde trabalhasse, por causa daquela coisa da mulher de césar.

    mas é difícil de responder.

    até porque pode haver mesmo interesse do nosso "patrão" em editar-nos...

    e acho que a função de editor é demasiado stressante, sobra espaço para escrevermos os nossos livros.

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  3. O tema da incompatibilidade entre leitura e criação de literária fez-me lembrar uma tirada do poeta brasileiro João Cabral de Melo Neto em entrevista radiofónica após lhe ter sido atribuído o "Camões". Perguntaram-lhe: que poesia lê você nos dias em que escreve os seus próprios poemas? A resposta foi mais ou menos esta: "vaca leiteira não bebe leite". Confissão de poeta a juntar aos numerosos exemplos que todos conhecemos de ficcionistas que requerem entrada em retiro monacal quando estão a criar as suas obras. Provavelmente os dois mundos, o da leitura e o da criação literária, não podem dividir as horas de um mesmo dia. Admito que talvez isso seja possível para a um poema, mas penso que raramente o será para um romance.
    Artur Águas

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  4. Será a escrita que leva os editores à edição? Ou o amor aos livros e à leitura?
    Editores-escritores, por que razão não haverá mais? Pode ser por falta de tempo, excesso de sentido crítico, ou simplesmente um gostar tanto de tanta coisa já escrita (e muita ainda por ler) que aquilo que poderíamos «ganhar» ao escrever (e dar ao mundo) seria, em comparação muito pouco, preferindo por isso aproveitar o tempo para ler e escrever apenas quando o vício a isso obriga. Ou então é apenas preguiça.

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  5. Um padeiro não comerá do seu pão; um sapateiro irá certamente encomendar o conserto das gáspeas a um concorrente; um funcionário das finanças encomendará a sua declaração noutra repartição...
    Ó Maria do Rosário, como é que isto é possível? Só por uma questão de pudor? Então, será necessário entrar de licença sem vencimento para publicar na própria Casa? Ou entrar para outra concorrente para editar naquela onde se quer editar a obra que a favorecerá em termos de vendas?
    Eu sei, eu sei o que iria provavelmende responder. Eu também deixei de publicar obras para um município onde passei a exercer funções de direcção/presidência. No entanto, a questão permanece: é justo?

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    Respostas
    1. Ah, vou adulterar um título do Manel Valente (Viola Interdita) e sugerir colocar na porta do seu gabinete (julgo que open-office na Leya) o letreiro Edição Interdita à Editora.
      Se eu fosse administrador dessa Casa, ao ver favorecer a concorrência com os seus trabalhos, eu chamava-a ao meu gabinete: não para lhe passar uma descompostura; sim para lhe pedir, se tal fosse necessário, de joelhos e de mãos postas, para esquecer esse seu tabu.

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  6. Boa questão. Penso que é dos bons leitores que saem os melhores escritores. Embora nem todos os bons leitores venham a ser escritores. Os escritores são-no por necessidade, porque têm algo para dizer, algo que querem que os outros conheçam ou com ele partilhem: pensamentos, sensações...segredos... Mas esse algo pode ser mais ou menos relevante. E, por timidez, talvez , espera que essa relevância seja reconhecida por outros, antes de se expor Daí a necessidade de pedir a alguém (que seja um bom leitor) que lhe ajude a perceber se vale a pena dar a conhecer o seu "segredo". Mas no seu caso, a relevância do quem tem para dizer já é reconhecida. Não vejo porque haveria preconceitos em publicar na editora para a qual trabalha. Não se está a descobrir, já foi antes descoberta.
    Um escritor de "verdade" (dos que têm coisas para dizer) deve partilhar sempre com os seus leitores.

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