Do velho se faz novo
Quando comecei este blogue, referi que ele serviria sobretudo para falar do que fosse lendo (as horas extraordinárias são essas); e, se alguma vez me referi ao que eu própria escrevi, acho que foi apenas para contar algum episódio à roda disso, e não para falar dos livros. Contudo, passei o fim-de-semana a ver as provas da minha Poesia Reunida e, como tal, não só me tornei leitora da minha própria obra (juro que já não me lembrava de ter escrito certos textos), como isso me impediu de escrever posts para o blogue, porque o tempo, infelizmente, não dá para tudo. Por isso, hoje os leitores do Horas Extraordinárias terão direito a um post simultaneamente egocêntrico e preguiçoso – mas, acima de tudo, feliz. É que os meus livros de poesia estavam fora de mercado há muito tempo, e ainda acho um milagre que a Quetzal os tenha querido publicar todos juntos! A edição sairá em Setembro (que é o mês em que nasci) e incluirá, além dos três títulos anteriores, um livro inédito chamado A Ideia do Fim. A abrilhantar tudo, um prefácio de Pedro Mexia. E em Setembro volto à carga, ouviram?
Temos festa em setembro !:)
ResponderEliminarConfesso que conheço mal a sua faceta de escritora e poeta. Foi uma excelente ideia da Quetzal!
é uma boa notícia.
ResponderEliminartenho dois dos seus livros e gosto muito da poesia da Rosário (sem estar a puxar nenhum saco...), apesar de ser excessivamente romãntica. :)
Refere-se sobretudo ao que lê: a vida em poesia primaveril renova as horas extraordinárias.
ResponderEliminarMilagres acontecem!
Ora aqui está uma excelente notícia :)
ResponderEliminarque boa notícia! :-D
ResponderEliminare... boas férias!!!
Para os nossos amigos "extraordinários" que conhecem pouco a poesia de MRP , aqui fica um dos muitos que gosto (diga lá ana b, esta simplicidade não a toca?).
ResponderEliminarFADO
Dizem os ventos que as marés não dormem esta noite.
Estou assustada à espera que regresses: as ondas já
engoliram a praia mais pequena e entornaram algas
nos vasos da varanda. E, na cidade, conta-se que
as praças acoitaram à tarde dezenas de gaivotas
que perseguiram os pombos e os morderam.
A lareira crepita lentamente. O pão ainda está morno
à tua mesa. Mas a água já ferveu três vezes
para o caldo. E em casa a luz fraqueja, não tarda
que se apague. E tu não tardes, que eu fiz um bolo
de ervas com canela; e há compota de ameixas
e suspiros e um cobertor de lã na cama e eu
estou assustada. A lua está apenas por metade,
a terra treme. E eu tremo, com medo que não voltes.
Isabel
Atenção o poema acima referido é da Maria do Rosário Pedreira e faz parte do livro "A Casa e o Cheiro dos Livros".
EliminarIsabel
Muito bom! Já conhecia porque os poemas da MRP fazem parte de todos nós através da Internet. Atrevo-me, já que a MRP está a rever a obra para voltar a publicá-la, a assinalar duas passagens que me feriram um pouco o ouvido (pelo menos nesta transcrição)...
EliminarOnde está, no 2º verso, "Estou assustada à espera que regresses" eu gostaria mais de "Estou assustada à espera DE que regresses";
E onde está, no último verso, "E eu tremo, com medo que não voltes", soa-me melhor "E eu tremo, com medo DE que não voltes".
Enfim, com as minhas desculpas por ser atrevido, até porque sei que aqueles DE's têm vindo a cair em desuso (sobretudo em Lisboa e sobretudo na construção de frases como a primeira).
Um belíssimo poema sobre o amor e as rotinas que no amor nos completam.
Na prosa, nunca «comeria» esse «de», acredite. Mas a poesia permite algumas liberdades para a música soar melhor, pelo menos ao ouvido de quem a escreve.
EliminarAconselho o António a ler um post da Rosário em 18 de Setembro de 2010, precisamente sobre os "de".
EliminarMesmo que a quisesse contrariar, não podia. Ela tem razão. Para além disso, acho "de" mau gosto a perseguição aos "de", a pobrezinha da preposição que cabe muito bem entre dois substantivos. Os "de" podem colidir com a leitura da poesia, mais corrente, mais palpitante; daí dispensáveis, neste género.
Em defesa do António: para mim, o 'de' nas expressões em causa ficaria muito melhor. E se soa mal para uma parte da população, creio que para grande parte, não. A mim, por exemplo, que sou de origem nortenha também me soou mal essa parte no belíssimo poema de MRP. Tanto assim, que como ele, reparei logo. Desconfio que o mesmo me acontecesse com a sua presença. Tenho, por exemplo, muita dificuldade em perdoar/ler monstros da literatura como Lobo Antunes e Saramago, que dizem coisas como "Preciso falar contigo"... E depois contradizem-se, às vezes no mesmo parágrafo, em frases como, por exemplo, "aquilo de que preciso"... Quer dizer, só por trocarem a ordem das palavras já as regências mudam...
EliminarEu concordei com o emprego do "de". Apenas disse que se tolerava a sua ausência na poesia, para "soar" melhor o poema.
EliminarMas vamos à gramática.
Peguemos no exemplo: "à espera de que regresses" ou "à espera que regresses". Tanto vale uma como outra, porque:
com os comparativos "mais", "menos", "menor, "maior", a preposição "de" antecede "que", mas também se pode omitir.
A tendência moderna é para omitir o "de" (e o famigerado acordo nada diz).
Por exemplo, amigo Serrano: usava-se "deve de ser" (está correcto); hoje diz-se e escreve-se "deve ser" (também está correcto).
Já, por exemplo também, entre um verbo e um adjectivo ou até de um substantivo, não pode haver lugar a omissão da preposição: "chamou-o de mal educado", embora haja quem o faça e parece soar melhor: "chamou-o mal educado". Mas a preposição "de" tem razão de ser: se o chamou, camou-o de quê? Chamou-o "de mal educado". Chamando-o pura e simplesmente mal-educado, dá ideia que é nome próprio ou alcunha, porque se trata de um atributo do sujeito da frase.
Enfim, isto dá pano para mangas... penso eu "de" que!...
Ó António, nem em prosa, nem em poesia,
EliminarEsse "de" estragava tudo.
Caro Rui Esteves, eu escrevo com o 'de' que a própria MRP reconhece estar bem. Tanto em prosa como em poesia, má uma e péssima a outra, porque a sua ausência me soa muito mal. Se vejo que a presença do 'de' não resulta em poesia, escolho outra expressão ou outra construção, mas nunca cometo o erro gramatical de não o utilizar. E a propósito, como dei a entender no meu primeiro comentário (isto para ir de encontro à exposição do jocamartinho), não considero que a primeira ausência de 'DE' no poema da MRP seja um erro. Já a segunda, para mim, é.
EliminarMas fico-me por aqui, isto foi só um atrevimento meu. Se o povo não mudasse a língua, ainda falávamos latim...
Já me tinham falado nesse livro mas nunca o encontrei à venda.
EliminarO poema que referiu é lindíssimo, de facto. E espicaçou-me, ainda mais, a curiosidade.
Ai, vamos ter festa, vamos!:)
Depois da reedição do Daniel Faria, esta edição da sua obra poética era o que faltava para fazer de 2012 um excelente ano em termos do meu interesse poético. :)
ResponderEliminarAproveito a dica da Isabel e partilho um poema que também gosto muito:
EliminarNeste outono, as pedras agasalham-se no cobertor
do musgo; e o barro bebe a água; e o vento viaja rente
aos muros. Mas eu, sem ti, deito-me gelada sobre a cama
e digo palavras que queimam a boca por dentro ― amor,
saudade, o teu nome e os nomes das coisas que tocaste
(e sobre as quais deixo crescer o pó, para que os dias
não se decalquem sempre de outros dias). Fecho os olhos
depois sobre a almofada e vejo o rosto branco da casa
desenhar-se à medida da tua ausência: as janelas abrem-se
para a solidão dos becos e há um farrapo de luz sobre a porta
a que ninguém virá bater. pergunto-me onde anda a tua
sombra quando aqui não estás. E tenho medo. São estes
os solavancos de uma ida pequena ― bordar uma toalha
para logo a manchar de vinho, sentir a ferida na distância
do punhal, viver à espera de uma dor que há-de chegar.
Que bom! Tenho os seus três livros de poesia (até autografados), mas vou certamente comprar este, sobretudo pelo inédito, claro (se não o publicarem em separado, como me pareceu). E em Setembro volta à carga com o quê? Um romance?
ResponderEliminarVolto à carga para lembrar quando o livro sair, é só isso!
EliminarLeva-me a crer que a Rosário vá de férias, mas não agora. Provavelmente em Agosto. É lá com ela e com a agenda dela.
ResponderEliminarEu e a Rosário conhecemo-nos sem nos conhecermos. Quero acreditar que ela estará em Agosto fora do blogue, porque, ouçamo-la aqui antes da publicação em Setembro:
"desaparecem em agosto. Consomem-nos as labaredas do sol
e os amantes que chegam ao fim da tarde
jantam e de manhã ajudam a regar as raízes das avencas
que os amigos confiaram até setembro, quando regressam"
É bom que ela deixe a rega das avencas a um bom amigo, que goste de plantas. Julgo eu que, quem gosta de plantas, gosta de poesia.
Por falar em poesia...
Será estranho um editor editar (gosto muito destas redundâncias de susbtantivos e verbos) a sua obra fora da sua chancela? É como o padeiro, que tem direito a comer pão, ir ousar comer noutra padaria. Ou - perdoe-me a Rosário esta maldade - dar-se-á o caso de ter ultrapassadop a idade ideal para publicar? Se assim fosswew, o livro podia ter o título opu subtítulo de "Poesia sem Idade". Lindo, sugestivo.
De qualquer forma, deve editar (neste caso, reeditar) porque a obra que se esgota é porque é apetecida e deve, tal como a Fénix, renascer na gráfica.
Finalmente, 53 aninhos merecem uma reentrada, como prenda que ela própria se oferece e nos oferece.
Sim, em Agosto tiro férias - e também deste blogue. Quanto à sua pergunta, parecer-me-ia mais estranho ainda publicar na editora em que trabalho, podia ser um frete, e não interesse real. A menos que me tivessem «encomendado» a obra, o que também já aconteceu com um livro infantil e uns contos - e não disse que não.
EliminarEu tenho dois dos seus livros de poesia, mas não deixarei de querer a Poesia Reunida.
ResponderEliminarAh! E depois, claro, lá irei eu atrás do autógrafo..
Boas férias:)
Cláudia Moreira
Não conheço mas quero conhecer. Obrigado Maria do Rosário (por esta delícia de blogue) e boas férias.
ResponderEliminarQue bonito e profundo! Publicar a sua poesia no mês que nasceu.
ResponderEliminarO mês do nosso nascimento tem um significado particular, para além do sentido sibilino que lhe querem dar através do zodíaco e do tarot.
ResponderEliminarLembro-me que o primeiro prémio literário que conquistei (será conquista o termo apropriado?), foi há uns anos, era eu jovem e moço: um prémio RTP, em que era júri e coordenador do programa - "Os Homens, os Livros e as Coisas" - o magnífico professor Joaquim Manuel Magalhães (que julgo ter sido professor da Rosário).
Tive direito a um programa, onde foram lidos excertos da obra e em que fui entrevistado. Isto, no mês do meu nascimento. Melhor prenda de aniversário, não me lembro de ter recebido.
Fico muito feliz! Tenho-os todos, ansiava por novidades e pelos antigos para oferecer a quem gosto!
ResponderEliminarque boa notícia! gosto muito da sua poesia e espero ansiosamente esse livro.
ResponderEliminarnão sei se o título é adequado, o de poesia reunida (que nunca o poderá ser, por andar tresmalhada entre nós)
pois chegou-me hoje, reunida, às mãos.
ResponderEliminare já li. obrigado.