O meu irmão argentino

Nos primórdios das Correntes d’Escritas, foi convidado um autor argentino, Leopoldo Brizuela, cujo romance – Inglaterra, Uma Fábula – lancei então na Temas e Debates. Conhecera-o um ano antes em Lisboa, quando o seu agente, depois de eu fazer uma oferta pelos direitos do livro, me propôs que fosse ao seu encontro, já que ele estava por cá a fazer pesquisa para um segundo romance. Descobri que o Leo era um apaixonado por Portugal e pelo fado, sabendo dezenas de letras e melodias de cor. Com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, consegui que ele regressasse no ano seguinte para o lançamento e ficasse cerca de dois meses para terminar a sua investigação. Ficámos irmãos e, na altura, levei-o aos fados à Parreirinha de Alfama com o meu pai, que era um boémio amigo de Argentina Santos, e tivemos uma noite inesquecível. Pouco depois, porém, o meu pai morreu e o pai do Leo também. Tornámo-nos, talvez por isso, na nossa orfandade, ainda mais irmãos do que éramos. Mas o romance do mano argentino sobre Portugal tardou e, por muito tempo, cheguei a duvidar de que alguma vez fosse publicado. Graças a Deus, enganei-me: porque Lisboa, Um Melodrama acaba de sair e fala da Lisboa durante a Segunda Guerra, como palco de espiões, resistentes, fadistas, refugiados, homens-de-mão do regime e, claro, os suspeitos do costume. O mais bonito de tudo, para mim, é que na dedicatória figura, entre outros, o nome do meu pai como parceiro de farras e noitadas. Irmãos para sempre, Leo.


 


Comentários

  1. a amizade é isso...

    fiquei curioso com o livro, além de ser sobre Lisboa, aborda um tempo especial, de grandes mudanças, por termos entrado na guerra de uma forma mais subtil...

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  2. Com relação a obra temos duas vertentes, haverá os que respeitarão os dados da história e os que serão levados ao apelo do título. Neste sentido a literatura previne ser um fio tênue que represa e sintetiza ao que possa inovar sentidos.
    E o melodrama é uma justiça de causa? Se assim o for, então vos tereis a resposta de muitas causas...
    Ou talvez, seja delicado para América estar atento, pois em todos os tempos, cercas delimitam temas e títulos, e é necessário romper com o costumezinho, de proveitos.

    Peço desculpas por qualquer inconveniente.
    Mas, neste caso não reservo opinião em se tratando, co-responsável o editor.

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  3. Há histórias que merecem ser contadas, esta que aqui nos deixa merece-o sem dúvida.
    As perdas por vezes têm o condão de aproximar as pessoas, como bem comprova no seu texto.
    Votos do maior sucesso para o livro que acaba de sair.

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  4. que curioso...
    lembro-me perfeitamente de "inglaterra - uma fábula", não sabia que tinha tido responsabilidade na edição.
    pela magistral descrição do choque de culturas e limites do diálogo entre uma companhia de actores ingleses e os indígenas da tierra del fuego, creio que este "melodrama" lisboeta nesse enquadramento da segunda guerra mundial promete imenso -- fica já agendado como leitura seguinte.

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  5. Comprei o livro no Porto depois de ter visto o original em Espanha. Comecei agora a lê-lo e parece-me que vou gostar muito.

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  6. Só a capa me deixa água na boca....

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