O organismo vivo
Conhecem-se mal os editores de outros países, mas muitos têm fama internacional e construíram catálogos e editoras que fizeram ou estão a fazer história. Embora nunca tenha tido grandes relações com editores de língua alemã, sempre ouvi falar de Michael Krüger, poeta, romancista e editor da Hanser, uma das editoras mais literárias em toda a Europa. Num dos seus poemas, sobre a memória, Krüger diz: «Às vezes, a infância manda-me postais.» Recentemente, li uma entrevista sua e fiquei tocada por este verso e muito do que ali afirmava. Entre outras coisas, que o texto tem vida própria, na medida em que pode ser lido de formas completamente distintas por gente culta, inteligente, burra e ignorante, e pelo facto de os livros durarem para além da vida do autor, com o qual se relacionam apenas porque o seu nome figura na capa. Acrescenta que, como organismos vivos que são, não podemos deixá-los morrer – e que os editores são os únicos que podem velar pela sua vida depois da morte do autor. Mais adiante, depois de confessar nunca publicar um livro com o qual nada aprenda, remata: «A vida de um ser humano é demasiado curta e, por isso, devíamos ler os bons livros que existem.» Confesso que às vezes sinto o mesmo.
Os livros, como a infância, também me mandam postais. Vivem comigo enquanto os leio e alguns permanecem, como amigos que já não vemos todos os dias, mas que ainda nos visitam e vão mantendo algum contacto. Visitam-me sobretudo as personagens, mas também o estado de espírito da altura.
ResponderEliminarOs livros podem ser mais reais, mais vivos e mais amigos do que alguém que está ao nosso lado. Por vezes, encontramo-nos neles, de tal forma que parece que aquela parte foi escrita para nós ou que poderia ter sido escrita por nós. Os livros mudam. Encontramo-los diferentes, embora os reconheçamos logo, como amigos que só vemos de tempos a tempos. E isso é estranho e bom ao mesmo tempo. Não sou muito de reler livros, sobretudo porque há tantos que gostaria de ler e ainda não li. Mas de vez em quando volto a alguns livros, nem que seja para reler apenas alguns trechos. Uma destas noites, depois de ter lido aqui um comentário que referia o livro, encontrei-me de novo com o seu «O canto do vento nos ciprestes» e estava diferente. Mais próximo, mais íntimo, mais meu.
A vida é demasiado curta e a dificuldade mesmo é seleccionar os bons livros. A Maria do Rosário tem ajudado. Obrigada!
Total damit einverstanden!
ResponderEliminarEste seu texto carregado de verdades, é na minha opinião um dos melhores que escreveu neste blogue.
ResponderEliminarA MRP tem uma missão de vida das mais importantes que existem, não deixar morrer a memória e todos os livros têm memórias.
Muitos dos livros que vai aconselhando permitem-nos "atravessar" a vida com bons momentos e isso é motivo suficiente para os leitores deste blogue, nos quais me incluo, lhe agradecerem.
Eu é que lhe agradeço ler-me e fazer-me companhia neste blogue.
EliminarLer todos os livros que devíamos, é impossível!
ResponderEliminarPor mim falo... pois a minha vida não chega só para ler os que possuo, dentre os que vou comprando por impulso ou porque planeio, para ler mais tarde, porque preciso de consultar alguma parte, daqueles que herdei... e dos que me oferecem - tive hoje a dita de ir buscar a um velho amigo "A Caça no Império Português", que ele por sua vez herdou de um tio e andando a "limpar" a sua biblioteca descobriu. Como tem duas filhas que não apreciam o género, fez questão de mo oferecer, mesmo sabendo que é um livro já raro e até caro!
Fóra os muitos que existem, me interessam e não possuo mas devia ler...
É trabalho impossível, mas que não me rala!
E, por isso, como um livro mais do que amigo passa a ser da família, sempre que me apetece, ou calhe, ou venha a jeito, vou visitá-lo, relendo-o todo ou parte dele... e o faço inúmeras vezes.
Reler livros ou passagens de que gostámos é como apreciar um vinho ou um charuto, um prazer renovado!
Afinal leio porque gosto, não leio para cumprir um programa, atingir outra coisa que esse gosto ou para sentir que li muito.
A vida é demasiado curta e a dificuldade mesmo é seleccionar os bons livros.
ResponderEliminarcomo disse a Anabela...
esse é que é o meu drama.
"A vida é demasiado curta e a dificuldade mesmo é seleccionar os bons livros." (sic)
ResponderEliminarSerá? Não pela minha parte! De todo e em absoluto! Tomara poder ser assim noutros aspectos da vida!
Nos livros, pelo menos, eu sou soberano!
Não há leitura obrigatória para quem é livre, e, talvez seja essa ainda uma das nossas últimas liberdades, lermos o que queremos!
Seleccionar? Eu não selecciono livros, como um amante verdadeiro não selecciona nada, e sim o que lhe desperta o amor! E esse amor, surge!
Apenas... se for pré-seleccionado será amor?
Porque o amor é espontâneo e como tal são os livros...
Posso estar enganado... mas a minha paixão já tem mais de 50 anos... é madura e sabedora!
Todavia admito outras idéias se esclarecidas, e aguardo com expectativa essa explicação!
Desculpem como sempre a minha presunção.
Sou presumido sim... mas sei do que gosto e porque gosto... isso nem a tiro! Olá!
e como reagir face a um livro fechado que "olha para nós" numa qualquer estante de livraria...e até foi recomendado...e a até é de um autor reconhecido...e até tem críticas boas e depois se revela, já em casa, penoso de ler até ao fim?
ResponderEliminartêm-me acontecido tantas vezes, ultimamente...
Acontece-me também isso algumas vezes!
ResponderEliminarSe verifico aquando da sua leitura que o livro ou não corresponde ou não o estou a levar a bom termo... poiso-o! Pode ser porque naquele
momento não é a leitura indicada e espera por melhores dias... já me aconteceu, até anos depois, vir finalmente a ter a oportunidade de ler aquilo em que não consegui entrar...
Mas também há casos que são definitivos... e passam a ser apenas um número numa estante.
Já me aconteceu oferecê-los ou trocá-los com quem os aprecie ou deles precise...
Creio ser mais uma característica dos livros, o poderem ser guardados e lidos quando calhe ou apeteça... ainda tenho tantos nessa condição!
Por isso não desanimem!
Estou-me a lembrar de um história curiosa...
ResponderEliminarNuma expedição ao Sul de Angola, ia comigo um companheiro daqueles cujas leituras são surpreendentes. Eu levo sempre um ou dois livros, leves e ligeiros para as viagens de avião. Dessa vez levei apenas um... e o Manel levava um pequeno livro sobre a história do Alhambra... à partida não me interessaria, mas despertou a minha curiosidade pelo inusitado do tema, perdidos algures numa pescaria daquele planalto costeiro e desértico, numa expedição de pesca submarina!
Acabei obrigado a lê-lo... por falta de outro... e não é que afinal era interessantíssimo!!!!
pois...tenho vários nessas condições. numa estante à espera de melhores dias e melhor leitora...;)
ResponderEliminare por estória interessante...há 3 anos atrás, numa ida de férias, com a recomendação de "pouca bagagem", não levei os 20 livros (!) habituais e carreguei comigo o maior que vi numa livraria: "Gente Independente" de eu nome. autor? Um Nobel islandês de quem nunca tinha ouvido falar...em boa hora o fiz. Está no Top 10 dos livros que já li...critério de selecção: número de páginas! ;)