Alunos de Ciências

De há uns anos para cá, tenho assistido a uma mudança muito curiosa em Portugal: os jovens mais cultos e interessantes com quem me tenho cruzado são, regra geral, alunos de Ciências, e não de Letras, como acontecia no meu tempo, em que a gente mais ilustrada e profunda vinha sobretudo das Literaturas e da Filosofia. Talvez as médias requeridas para licenciaturas em Medicina, Arquitectura, Economia e outros cursos ditos técnicos sejam bastante mais elevadas do que as exigidas para as Humanidades e isso leve a que esses estudantes leiam mais, estudem mais e desenvolvam um gosto diferente pelo saber. Em todo o caso, é muito gratificante falar hoje com um jovem físico, médico ou biólogo e ouvi-lo acerca de grandes romances, correntes de pensamento, poetas-mitos e escritores marginais com um à-vontade que falta aos que estudam justamente literatura. Aconteceu-me recentemente com um autor cujo romance publicarei no ano que vem (é cedo para falar disso, mas prometo fazê-lo oportunamente) e que, por detrás de uma carreira científica (creio que o conheci em Pisa a fazer um mestrado ou um doutoramento há dois anos), se vê que tem uma cultura literária e artística apreciável e a usa para dar largas ao seu génio e talento incontestáveis (mas estes nasceram de certeza com ele). Não é caso único, tenho recebido mais romances interessantes de gente de ciência, e a Madalena – que trabalha comigo e de quem falei há dias – também se iniciou nos estudos na área científica e só mais tarde emendou a mão. Será que todos aqueles para quem a Matemática é um papão têm, na verdade, medo apenas do que parece difícil?

Comentários

  1. Ora cá está algo que muito me agrada a ouvir vindo de alguém que não eu!

    Falando por experiência própria, sendo aluno de Ciências, ainda que do secundário, vejo o pessoal de Humanidades da minha escola, e fico desiludido...

    Mas acho que sei o porquê disto acontecer: talvez tenha a ver com o facto de um aluno de ciências, para ser digno desse nome, ter que ser imensamente curioso, e dominar uma série de áreas, o que faz com que muitas vezes surja também o interesse pela Literatura. Já para não dizer que ler é um gosto por si só, no meu caso muito anterior às ciências =D

    Gostei do texto, como não podia deixar de ser, e gosto muito do blog, que acompanho assiduamente ;)

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  2. Lamento, mas discordo parcialmente. Desde sempre me recordo de encontrar gente interessante (e interessada) na área das Ciências. Ainda hoje, sou amigo de pessoas que conheci no IST e que avalio como sendo das mais cultas que alguma vez encontrei. E veja, por exemplo, quantos romancistas de mérito temos e tivemos que foram também médicos.
    Palpita-me que essa sua impressão pode resultar de um ligeiro erro de paralaxe: à medida que foi conhecendo mais gente "do outro lado", começou a descobrir que afinal talvez não fossem como o pessoal de Letras os costumava imaginar...


    PS: estou à vontade para falar nisto, pois comecei por estudar num dos lados e acabei, já depois de velha carcaça, a aprender mais umas coisas no outro.

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  3. Permito-me ainda chamar a sua atenção para um outro exemplo, este com menos de 40 anos: o Alexandre Andrade, talvez o nosso mais exuberantemente erudito ficcionista, é doutorado em Física.

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  4. A minha experiência pessoal vai de encontro ao seu post. Eu concluí os meus estudos no secundário em Ciências e já então a minha professora de Português dizia que os seus melhores alunos eram desse agrupamento, e não o de Humanidades. Quando chegou a hora de escolher a vida académica, optei por fazer os exames de acesso à Faculdade de Letras de Lisboa porque era de facto a minha vocação. Recordo-me no meu ano de caloira recear estar em desvantagem por não ter feito muitas disciplinas de Letras na escola mas fiquei chocada com o pouco nível de preparação de alguns dos meus colegas da faculdade. Afinal não tinha razões para recear.

    Mas o mais interessante ao longo do meu percurso académico foi o facto de ter encontrado os meus melhores amigos(ainda hoje) nos chats e fóruns na Internet, todos eles engenheiros informáticos, estudantes de Medicina, biólogos, pois unia-nos a todos a paixão que partilhávamos pelos livros, neste caso os de literatura fantástica. Trocávamos entre nós séries de calhamaços intermináveis e discutíamos semanalmente o enredo nos pontos de encontro da cidade universitária com um fervor quase religioso. Nunca encontrei esse tipo de interacção na faculdade.

    Sempre partilhei mais afinidades literárias com as pessoas de Ciências, mas não sei dar uma razão para isso.

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    1. Se gosta assim tanto da língua e dos livros, por favor não escreva "A minha experiência pessoal vai de encontro ao seu post" quando, certamente, queria dizer "A minha experiência pessoal vai ao encontro do seu post"!

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    2. Sim, enganei-me na primeira frase. Obrigado pela correcção. Espero que o resto do meu comentário tenha ido ao encontro do seu zelo. ;)

      Safaa Dib

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    3. Completamente. E quero dizer-lhe que o meu zelo é motivado, neste caso concreto, pela frequência alarmante com que leio e ouço cometer este erro. Cumprimentos.

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  5. Será que o sistema académico não tem algumas culpas naquela que é a sua reflexão e talvez seja
    um facto?

    Isto é, além de o estudante da área das ciências ser por definição mais curioso e portanto um buscador ou criador de informação enquanto o outro é mais um depósito de informação... também as médias de entrada e portanto o espírito de "querer saber" terá o seu peso...

    Mas vou mais longe! Se me permitem expressar uma opinião, é que nas ciências exactas há mais
    objectividade e menos metafísica, os estudantes de letras ou humanidades quase sempre assumem um papel de "intelectuais", pensativos e não pensantes, que meditam nos escritos dos outros e não tanto na sua criação própria... o que tem passado de geração académica em geração académica... e depois os mestres os obrigam a ler e a "empinar", não a ter uma opinião critica mas de seguidismo daquilo que eles próprios seguem, e, a perpetuarem essa atitude de serem apenas depósitos do que já foi escrito ou se sabe...

    Será? Ou estarei a dizer disparates? Creio que isso se reflecte na criação literária e no conhecimento... no saber.

    Também conheço alguns jovens estudantes ou formados em letras, que são brilhantes - e nem todos vão para direito -, infelizmente a sua saída
    profissional é que é limitada, e ficam-se na maioria das vezes pelo ensino, o que nem sempre
    era a sua meta... quanto investigador das ciências sociais e da história se perde...

    Por outro lado quanto apresentador/locutor dos media que é burro no que diz, iletrado e ignorante? Deveriam alguns ser proibidos de falar... Porque será? Porque aprenderam pouco ou os ensinaram mal?

    Creio que um finalista universitário dos últimos
    10 anos, chumbaria nos exames do 5º ano liceal anteriores a 74... e talvez o que a Drª Maria do Rosário P. sente, é que um universitário antes de 74 era normalmente culto porque tinha tido esse
    ensino no secundário? Eu fui para ciências agrárias, mas com um 7º ano (ou 2º ano do curso complementar dos liceus) cheio dos nossos clássicos... geografia... história (até ao 5º ano) e
    até a famosa OPAN... ou seja com uma base de cultura bastante sólida, perdoem-me a pretensão.
    Que me ajudou depois a absorver um vasto leque de assuntos do desenho técnico à sociologia rural ou até estilística! (Lembro-me o Prof. Rodrigues Martins de Física I nos dizer que íamos sair da Univ. a saber nada sobre muita coisa...) mas na verdade muitos anos depois quer na Univ. Nova de Lisboa - Curso Geral de Gestão - , quer na Univ. de Cornell, sempre me senti àvontade e preparado para abordar todos e quaisquer assuntos, por vezes espantando colegas e até os professores... e a mim mesmo!
    Quando ia buscar ao fundo da memória escolar as coisas do ainda 5º ano (curso geral dos liceus).

    E hoje? Afinal reparem que a maior parte das escritas são sempre casos televisivos... ou sobre as opiniões e vivências deprimidas e traumáticas
    dos autores, sem a alegria e a vivacidade que apelem ao saber e à curiosidade, ficam-se pela
    troca de experiências tristes e dolorosas...

    Enfim esta a opinião de um rústico e me perdoem a ousadia de opinar aqui, mas é o que de facto sinto...

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  6. O nosso sistema de ensino permite falsidades, perversidades e, até, ficções: entre os «estudantes de Letras», só uma ínfima minoria é estudante de Letras e essa minoria é quase sempre brilhante. Os outros julgaram que o estudo das Letras era um lugar de preguiça e ignorância e foi-lhes (é-lhes) permitido que assim julguem.

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  7. E eu que estou aqui deste lado da barricada universitária só posso subscrever. Concordo com essa apreciação e tenho as minhas teorias (don't we all?). Mas sim, de facto, e regra geral, os alunos de Ciências têm um background cultural bem mais vasto, alicerçado em mais leituras, do que os que trazem um percurso em Humanidades. São também mais inquisidores, têm melhor articulação verbal e, sobretudo, menos passividade face ao conhecimento.
    As teorias do porquê... bem... acho que as encontro no campo do politicamente incorrecto...

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  8. Bem, eu não estou muito a par da situação nos últimos tempos, pois estou fora do país há 18 anos. Mas permito-me um reparo quanto às "médias requeridas para licenciaturas em Medicina, Arquitectura, Economia e outros cursos ditos técnicos sejam bastante mais elevadas do que as exigidas para as Humanidades". Sei que a Matemática, por exemplo, é um bicho-papão. Mas não será mais "fácil" tirar um 20 a Matemática do que a Literatura, História ou Filosofia? É que há ciências objectivas e outros campos do saber mais subjectivos...

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  9. Para mim, a complexidade desta questão ultrapassa a mera divisão Letras/Ciências. Aliás, eu, pertencendo à área das Ciências Sociais, fico sem saber onde me enquadrar nesta discussão...

    Relativamente às médias, estou parcialmente de acordo com o que tem sido dito; e, em regra geral, com o resto dos factos que foram sendo apresentados. Contudo, penso que a questão ultrapassa a média: estamos, isso sim, a falar da imagem que se construiu desses dois campos do saber ao longos dos últimos anos e cujas consequências me afectaram pessoalmente. Quem não vai à bola com a Matemática, foge para as Letras - coisa fácil, escrever algumas palavras e arranjar um empreguito no fim; quem quer efectivamente ser reconhecido, pois terá que ir para Ciências, de forma a fugir ao estigma da facilidade da área oposta. Ora, meus senhores, médias mais altas ajudariam a resolver o problema. Mas também ajudariam testes vocacionais, assim como o fim destas percepções que se têm criado. O grau de dificuldade das duas áreas em questão é relativo, pois depende do indivíduo, dos seus gostos pessoais, do seu talento natural. Ir para Letras como refúgio denigre a imagem deste campo do saber, assim como cria essa desilusão com os estudantes da área. Dar apenas aos empregos das Ciências o prestígio e a imagem social de "bons" e "bem pagos" acentua esse hiato.

    Demos, então, o devido valor a ambas as áreas, terminemos com o facilitismo no acesso ao Ensino Superior nas Ciências Sociais e Humanas, promoovamos a formação qualificada nas áreas em que os alunos realmente se sentem realizados e, com isto tudo, resolvamos uma catrefada de problemas à nossa sociedade.

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  10. Meu Caro André Matos, e cito-o:

    "Quem não vai à bola com a Matemática, foge para as Letras - coisa fácil, escrever algumas palavras e arranjar um empreguito no fim; quem quer efectivamente ser reconhecido, pois terá que ir para Ciências, de forma a fugir ao estigma da facilidade da área oposta."

    Não concordo consigo... vencer na ciência é bem
    difícil! Porque não se vai lá com "palavras" como
    diz... seja a ciência histórica, social, a física ou a
    biologia... e falo da ciência (saber) verdadeira.

    A outra, a da palavra fácil, não é ciência... é entretenimento! E aí vence quem tenha "graça"... o que não deixa de ser também uma forma de talento e de ter o seu valor.

    Só que hoje na verdade, até um rústico como eu pode, mercê das facilidades da vida moderna, estar aqui a botar discurso emparelhando com pessoas inteligentes, universitários, cosmoplitas
    e esclarecidas... de igual para igual! Há uns anos
    era impossível e teria de me remeter à minha insignificância de inorante... agora veja só... estou aqui mãe!

    É o que se passa no resto, digo eu... hoje há é muitas oportunidades e isso nivela (por baixo)
    como facilita atingir certas posições.
    Ser-se brilhante, hoje é fácil... basta parecê-lo e
    sobretudo aceder à informação e copiá-la ou seguir a mesma... coisa que não se fazia no tempo em que os intelectuais o eram mesmo, eram "homens de letras" a sério, e os da ciência eram uns originais distraídos e até um bocadinho broncos porque desprezavam o que não fosse ciência pura...

    Eh!Eh!Eh! LOLA (lol é para maricas, os homens dizem lola...)


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    1. Caro António Pacheco,

      Muito obrigado pelo comentário ao meu comentário. No entanto, penso não ter transmitido a minha mensagem da forma mais clara - eu nunca, jamais, penso que seja fácil qualquer uma dessas áreas. Nem as Ciências (naturais/exactas) nem as Letras/Humanidades. Pelo contrário, a Ciência e o conhecimento, em geral e seja qual for, são complexos e não gratuitos. Vencer na Ciência, como diz, é dificílimo. Aquilo a que me refiro é à imagem distorcida que se criou em torno das Humanidades e que não se aproxima minimamente da realidade, como ambos sabemos. Por isso defendi que é necessário destruir essa percepção de facilitismo para que ambas as áreas sejam consideradas com o mérito devido.

      O acesso de hoje à comunicação, aos meios e ao brilhantismo é outra história. Mas, ainda assim, um homem de Letras de hoje continua a ser visto de forma diferente de um de Ciências. E é isso que temos que combater.

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  11. Por falar em romancistas que chegam do reino da Ciência, veja-se vencedor do Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís 2010, anunciado em Novembro. Medicina, mais precisamente.

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  12. Gostei deste seu post. Frequentei o curso de Matemáticas Aplicadas(Informática) e na altura vivia obcecado com essa ideia pré-concebida que as pessoas tinham de que quem não era de Letras, ou até mesmo arquitectura ou Belas-Artes. Lia bastante nesse tempo, e achava-me um poeta incompreendido, mas a verdade é que seguira matemáticas porque era a disciplina mais fácil para mim. É o problema visto exactamente ao contrário. Uns fogem da matemática porque dá muito trabalho, outros escolhem-na porque são preguiçosos. Mas sempre gostei muito de ler e escrever, e sentia-me desprezado (era mais uma impressão minha, claro) pelos alunos de Artes que estavam mesmo ali ao lado. Normalmente estudávamos todos ali no café Belas-Artes. E aí éramos quase todos iguais... artistas incompreendidos... alguns com cadernos de poesia, outros com equações diferenciais...

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    1. Queria fazer uma pequena correcção ao meu post... caso contrário ainda me gozam, dizendo que sou matemático!!! eheheheh
      Há um "que" que está a mais, mesmo antes do "quem". Ia concluir a frase com um pensamento qualquer, depois esqueci-me

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  13. O diálogo entre as "duas culturas" tem apaixonado gerações (deixem-me lembrar o ensaio de C.P. Snow, físico e escritor, sobre o tema...), e também tenho uma opinião sobre o assunto: talvez seja preconceito meu, mas penso ser mais fácil a alguém que tenha formação científica iniciar-se nas Artes ou nas Humanidades do que o contrário. Não porque um discurso seja mais ou menos hermético do que o outro, mas porque a matemática é como uma linguagem, cuja aprendizagem é facilitada se for iniciada em tenra idade. Ou seja, parece-me que será mais fácil para um físico aprender sobre História da Literatura, por exemplo, do que para um académico de letras estudar equações diferenciais...

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  14. Hum... meu Caro João Paulo, António Gedeão
    era professor de físico-química... o que não o impediu de ser um poeta genial.

    Torga era médico assim como Júlio Dinis... e há mais casos, talvez porque como médicos por um lado desenvolveram o poder da observação e por outro pela sensibilidade que um médico por vocação creio que deve ter - a humanidade.

    Cumprimentos a todos e agradeço os posts pois creiam que aprendi alguma coisa.

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  15. Minha Cara Senhora Drª Maria do Rosário

    Agradeço sinceramente a importância que me dá ao responder aos toscos comentários que aqui postei.

    Eu percebi perfeitamente aquilo que disse!
    E concordo inteiramente com o que diz, assim como relevo a oportunidade do seu post.

    Pelo contrário, fui eu quem não conseguiu exprimir-se capazmente e portanto ser percebido!

    Peço me desculpem e reitero a minha condição de rústico que "tropeçou" neste blog e se atreveu a vir opinar, tendo talvez ido longe de mais.

    Com todo o respeito e consideração

    António Luiz Pacheco


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  16. A Matemática ajuda a pensar melhor; o Latim e o Alemão também. Fugi para Letras (Filologia Germânica) por causa dos horrores da Matemática (e também porque seria obrigado a dissecar animais) encontrei essa utilidade no Latim (no antigo 7.º ano) e no Alemão. E gostaria de ter ido para Arquitectura e de me ter entendido bem com a Matemática.
    E não precisei do curso de Letras para aprender a escrever e a ler. Felizmente!

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  17. ainda bem que reparou nisso, algo que tenho vindo a sentir nos últimos anos...
    pela minha parte, tive a honra e a felicidade de (ainda) ter tido como professor de físico-químicas no liceu pedro nunes o mestre rómulo de carvalho, e que foi a primeira pessoa que me fez ver que não havia nada de anormal em gostar simultaneamente de ciências e de escrever.
    hoje, muitos anos depois de uma licenciatura em engenharia química (a que creio faltar ainda uma cadeira de inglês técnico...) também reparo que são alunos da área das ciências os mais interessantes e com mais gosto pela literatura e até pela escrita.
    terá algo a ver com o modo como evoluiu o ensino das letras?

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  18. O grande problema é o completo descrédito que as letras têm sofrido nos últimos 15 anos.

    Quando dizia às pessoas que queria estudar letras a primeira coisa que me perguntavam era: "ler e escrever né? Coisa fácil...".

    A nossa sociedade tem criado tanto descrédito junto das letras... ora vejam. um amigo meu formado em economia diz que o que eu aprendi não me serve de nada (3 anos em Português, Inglês, Ensino e depois mudei para Línguas e Estudos Editoriais). Não serve de nada porque não sei calcular créditos, taxas de juro compostos e simples. Não sei fazer contas de cabeça. Não sei o que se passa nos mercados. Outro, formado em Biologia dizia que eu não sabia nada de interesse porque nunca tinha estudado Darwin... e os dois pediam-me a mim, que era um estudante mediano de letras (a minha média era de 14) para lhes corrigir os trabalhos. A razão era... "Tu sabes dessas cenas, eu não preciso". Claro que não precisam, eu estou desempregado, a tirar um mestrado em Estudos Editoriais à custa dos pais e eles lá vão ganhando dinheiro em bancos.

    Não foram os alunos de letras que baixaram de nível sozinhos, eles baixaram de nível porque a sociedade achou que nós éramos um bando de inúteis... e convenhamos... fora das universidades, escolas, editoras e bibliotecas... que oportunidade nos dá a nós, de letras, de mostrar que somos úteis?

    Torna-se difícil atrair alguém de mérito para esta área... sobram os apaixonados das letras e os que fogem da matemática...

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