Crianças que sabem o que querem

Passei horas extraordinárias na barraquinha da Gradiva durante muitas feiras do livro de Lisboa; desse «balcão de livraria», acreditem ou não, aprendi muita coisa sobre os leitores. Mas a mais extraordinária dessas horas foi há muitos anos, num Dia da Criança, quando tínhamos de abrir a feira logo às 9 da manhã e éramos visitados por bandos de crianças de bibe e panamá, mesmo quando nada tínhamos que lhes pudesse interessar. Pelo menos, era o que eu pensava até que, nesse dia, um casal de crianças pequenas, com cinco ou seis anos, pareceu demorar-se no nosso pavilhão mais do que seria normal, ficando o rapazinho praticamente hipnotizado diante de um livro de um Prémio Nobel da Física, Richard Feynman. Atribuímos o seu interesse ao facto de a capa ter uma caricatura do físico e de esse divertido desenho o poder ter levado ao engano. Mas enganados estávamos nós. O garotinho perguntou, timidamente, o preço do livro. Lembro-me de que custava 1040$00, quantia que ele, infelizmente, não tinha (nesse tempo, 1000$00 ainda era bastante dinheiro, sobretudo para uma criança). Então, perante o seu ar desolado, o colega que estava a fazer a feira comigo quis consolá-lo, dizendo-lhe que não ficasse triste, uma vez que se tratava de um livro muito difícil que, decididamente, não era para a sua idade. Surpreendentemente, a menina que o acompanhava (e tinha ar de irmã mais nova) largou-lhe a mão de repente e aproximou-se do pavilhão, confidenciando-nos: «Sabem? É que ele quer ser cientista.» Acabámos por lhe oferecer o livro, evidentemente.

Comentários

  1. Talvez ele tenha conseguido ser cientista, ou trabalhar em ciência. Mas também há-de ter aprendido que há pessoas no mundo capazes de serem simpáticas com os outros. Como foi o caso.

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  2. Se não lhe tivessem dado o livro esta história ficava incompleta... é (também) para isso que existem "pessoas dos livros". Talvez os dois irmãos se tenham surpreendido ao encontrar pessoas assim, talvez o futuro fosse depois diferente do que seria sem essa oferta... quem sabe? Os nossos sonhos de criança são bonitos, simples, sem complicações - quando somos crianças; a dado momento complicamos tudo e pensamos mesmo que isso de o livro ser grande, difícil e nem sequer possuirmos linguagem para dialogar com o seu conteúdo nos impede de o termos...

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  3. Um gesto bonito de um tempo bonito, Rosário!

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  4. a capacidade de "ouvir" e "sentir" as crianças não está ao alcance de todos...
    obrigado por partilhar esta vivência com os leitores do blogue.
    abs

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  5. Cristina Gomes da Silva21 de junho de 2010 às 11:12

    E esse rapazinho deve ter vivido horas extraordinárias. A começar por essa em que lhe ofereceram o livro. :-)

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  6. estória extraordinária...;)

    melhor, melhor era saber o que aconteceu a esse menino..

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  7. Rosário:

    Desde que a conheço que leio como se sopros de alma me reflectissem, como se os sentidos coassem
    nas palavras e, vim aqui, um instante cumprimentá-la e dar-lhe um abraço do tamanho da sua alma!

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  8. naquela hora, que poderia ser a hora diferente, cumpriu-se o desejo e alimentou-se o sonho. certezas não havia porque os futuros não se desvendam mas naquela hora, que foi a hora diferente a criança apertou com força o livro dentro de um corpo pequeno e soube que mais alguém acreditava que um dia, lá mais para frente, inventaria ciência.

    um gesto bonito a ser repetido por muitos

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  9. Obra do destino? Juntando as pessoas certas ao mesmo tempo e no mesmo local? Seria interessante saber o destino do menino e o que resultou de tão louvável atitude.

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  10. Com certeza Richard Feynman gostaria de saber que continua a inspirar jovens e a entusiasmá-los com as suas brincadeiras... Não é por acaso que o grande cientista, vencedor do Nobel da Física, dizia que a sua maior contribuição para a ciência são os seus três volumes das "The Feynman Lectures on Physics".

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  11. Realmente as crianças surpreendem a toda a hora tornando-as em horas extraordinárias!!

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