Intimidades literárias

Já há muito que os escritores saíram das suas torres de marfim e se sentaram ao lado dos  leitores. Ontem falei das feiras do livro, onde estão a autografar olho no olho de quem os lê; mas podia ter falado de idas a escolas e bibliotecas ou de festivais literários, lugares nos quais o escritor está bem próximo das pessoas, como uma delas, e não como um ser sagrado e distante num pedestal, como acontecia antes. Esta possibilidade de conviver com os nossos autores preferidos, de os ouvir a metro e meio de nós, de lhes poder fazer perguntas, é de facto excelente (estou a pensar que vi e ouvi Herta Müller e Vargas Llosa a conversar a dois passos de mim e que já valeu a pena ser editora e ter ido a Guadalajara só por causa disso). Ao mesmo tempo, este tipo de encontros multiplica-se, e os escritores, sobretudo os mais convidados, têm cada vez menos tempo para escrever, ao mesmo tempo que os organizadores procuram ser originais e, por vezes, metem a pata na poça. O espanhol Sergio del Molino foi convidado para ir a um encontro literário em Itália (bem pago) e, quando chegou, percebeu que teria de acampar com os leitores, dormir com eles na tenda e até (desculpem, mas os espanhóis conseguem ser brutos quando querem) cheirar-lhes os traques... Este tipo de intimidade também podia ser dispensado. O artigo vale mesmo a pena e deixo aqui o link.


https://elpais.com/cultura/2022-08-11/los-festivales-literarios-son-misery-la-experiencia-extrema-de-un-escritor-en-contacto-intimo-con-sus-lectores.html


 

Comentários

  1. Não acho que esta "intimidade" seja necessária, tanto para quem escreve como para quem lê.

    Acaba com o "mistério" que existia... E depois há muita coisa dentro dos livros que não é explicável.

    Sei que hoje é mais difícil vender livros sem a presença dos escritores, em feiras ou festivais, e que o negócio é quem mais ordena, mas só deve ser satisfatório para os "escritores-vedetas", que se acham os "ronaldos da literatura".

    Agora a visita às escolas é outra coisa, mais saudável, sempre se pode ganhar um ou outro leitor...

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  2. Sergio Mosteirín Molina2 de setembro de 2022 às 13:03

    Olá, Maria do Rosário. Apenas uma pequena retificação: o nome do escritor espanhol em questão não é Sergio *Molina*, e sim *del Molino*.

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  3. Francamente, desagrada-me a ideia de acampar ou participar em qualquer outra actividade, mesmo que mais banal e passageira, com um escritor. Deles, interessam-me os livros, lugar onde lhes dedico atenção. O que são fora dos livros não me importa. Se bem que, daqueles que aprecio mesmo a sério, podendo, quero um livro com autógrafo e sou capaz de me deslocar a vê-los em conferências, encontros e quejandos, sem esquecer que pertenço ao público anónimo. Na dedicatória interessa-me o tipo de letra do escriba; que o conteúdo é um protótipo, igual para todos. E nem podia ser diferente.

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